“Se marcar, ótimo, mas o melhor golo que vou fazer nesse dia é acabar vestido de preto”

“Se marcar, ótimo, mas o melhor golo que vou fazer nesse dia é acabar vestido de preto”

 

Nuno Martins Neves   Futebol   29 de Set de 2019, 08:00

Diogo Fonseca, avançado micaelense vai pendurar as chuteiras ao serviço do União Micaelense, clube no qual deu o primeiro pontapé numa bola. A despedida será este domingo, às 15 horas, no Estádio Municipal Marquês Jácome Correia. Em agosto deste ano o jogador falou ao jornal Açoriano Oriental.


Anunciou que o ponto final na sua carreira e agora prepara-se para “pendurar” de vez as chuteiras com as cores do União Micaelense.

Estive a informar-me se havia alguma incompatibilidade por ser diretor, mas não há. Posso dizer-lhe que já expressei esta vontade há uns anos atrás. Como sou um homem de convicções fortes, mantive-me fiel à minha palavra e já que sai muito novo do União Micaelense, o clube que me abriu as portas ao futebol, e por uma questão de simbolismo, quero fazer o meu último jogo pelo União.

Será um fechar de um ciclo, terminar onde começou?

Já tinha decidido dessa forma, independentemente se tivesse subido de divisão com o Praiense. A minha decisão já estava tomada: terminar no “Jácome Correia”, ao serviço do União. É muito importante que seja naquele campo.

O que se recorda dos primeiros tempos de jogador?

Lembro-me que foi o senhor Francisco Branco que abordou a minha mãe no jardim da Zenite e disse-lhe que eu tinha de vir jogar à bola. Na altura, os meus amigos de escola, entre eles o meu amigo para a vida Pedro Pacheco, já jogavam no Santa Clara, e eu alimentava aquela esperança de ser convidado para ir para lá. Mas foi o União Micaelense quem me convidou e eu ganhei aquele carinho especial pelo clube, por ter sido o clube que me abriu as portas e pelos amigos que fiz.

O primeiro treino que fiz foi no Jácome Correia e a primeira coisa que o treinador na altura me fez foi perguntar pelo meu nome ao que eu respondi: Sou o Diogo mas quero que me tratem por Fonseca. Porque queria ser jogador como o meu pai foi.

Foram cinco épocas ao serviço do União. Recorda-se de alguma história?

Estive um ano de Sub-10, duas de Sub-12 e duas de Iniciados. Depois saí para o Santa Clara no primeiro ano de Juvenil, o que não foi pacífico, devido à rivalidade entre os dois emblemas. Várias pessoas deixaram de falar comigo mas o tempo acabou por dar-me razão, pois achava que por este caminho chegaria mais rápido ao futebol profissional.

Quanto à história curiosa: no meu primeiro jogo federado pelo União Micaelense, no pelado do Liceu Antero de Quental, onde jogavam os Sub-10, ganhamos ao Marítimo da Calheta por 3-1 e eu fiz dois golos de cabeça, pois já era um pouco avantajado e tinha um gesto técnico de cabeça aperfeiçoado. No final do jogo, o treinador do Marítimo da Calheta quis contestar o jogo porque acreditavam que eu era mais velho do que aquilo que era suposto e obrigaram o meu pai ir a casa, duas ruas ao lado do Liceu, buscar o meu bilhete de identidade, para confirmarem a minha idade (risos)!

Grande parte da carreira do Diogo foi fora dos Açores. Foi acompanhado a vida do União Micaelense, mesmo à distância?

Sempre. Na altura do meu terceiro ano com o Santa Clara, surgiu a hipótese de ser cedido ao União Micaelense, na altura treinador pelo Isidro Beato, mas acabei por recusar a proposta por achar que não era o momento ideal. Mas no Continente fui sempre acompanhando o melhor que pude a vida do clube. Sei que durante estes anos que se passaram foram momentos de alguma dificuldade, pelo que têm sido anos de recuperação financeira e como é óbvio têm pessoas muito competentes e organizadas a trabalhar em prol do clube e espero sinceramente que seja um emblema que aos poucos se vá revitalizando e crescendo novamente. Bem ou mal, os “pretos” da Rua dos Mercadores são um clube mítico de Ponta Delgada.

Houve alguma figura, do seu tempo no União Micaelense, que o tenha marcado especialmente?

Em cinco anos, apanhei alguns. Eu não quero ser injusto para começar a nomear pessoas e esquecer-me de alguns. O Pedro Henriques, nos Sub-12, foi um treinador com quem gostei muito de trabalhar. O seu irmão, o mister Medina, o adjunto Eusébio, que sempre me dava dicas...Aliás, ainda hoje quando me encontra pelas ruas, tem um carinho enorme por mim: abraça-me e relembra com muito carinho esses tempos.

É muito difícil e injusto para mim estar a dizer nomes, pois sempre que passo ali na Rua dos Mercadores, junto à sede, é sempre com emoção que vejo as pessoas do meu tempo e que estão orgulhosas pelo percurso que fiz. Significa muito para mim. Eu formei-me no União Micaelense, eu apareci para o futebol no União Micaelense e também tenho de dizer que, toda a carreira que eu fiz, o Diogo Fonseca também é um menino que nasceu na Rua dos Mercadores, futebolisticamente falando.

Apesar de ainda não haver data para o jogo, pois os calendários da Associação de Futebol de Ponta Delgada só serão sorteados no próximo dia 30 de agosto, gostaria de colocar um ponto final na sua carreira fazendo aquilo que faz melhor, ou seja, marcando golos?

Primeiro, o jogo tem de ser no Jácome Correia! Vou preparar-me, quero fazer as coisas bem feitas. Por motivos profissionais só poderei estar com a equipa na semana que anteceder o jogo, mas eu vou levar o jogo muito a sério, como tem sido apanágio na minha carreira. Quero estar com a equipa durante uma semana e finalizar a carreira num jogo oficial, que vou levar a sério. Eserá para ganhar! Se puder deixar a minha marca, perfeito; se não puder, o mais importante para mim é saber que vou ter a minha família, os meus amigos, as pessoas que me viram crescer para o futebol, possivelmente alguns colegas de Portugal Continental, pois convidei todas as pessoas que tiveram influência na minha carreira. Se não puder marcar, o melhor golo que vou fazer neste dia é poder acabar vestido de preto, com a minha família ao lado. Muitos familiares meus nunca tiveram a oportunidade de me ver jogar, por estar longe, e isto é muito importante para mim.


Entrevista publicada na edição do dia 24 de agosto de 2019, do jornal Açoriano Oriental




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