Portugal tem atualmente sindicatos "pouco combativos"

Portugal tem atualmente sindicatos "pouco combativos"

 

Lusa / AO online   Nacional   29 de Jul de 2012, 12:29

A historiadora Raquel Varela que coordenou o estudo "Greves e Conflitos Sociais em Portugal no Século XX" disse à Lusa que atualmente a diferença entre o Sul e o Norte da Europa é "enorme" e que os sindicatos portugueses estão "pouco combativos".

 

Se ao longo do último século Portugal fica marcado por “instabilidade” e lutas laborais, desde a I República, até ao período da Revolução de 25 de Abril de 1974, atualmente as diferenças também são acentuadas pelos modelos do Norte e o Sul em relação aos governos e às lutas laborais.

“O capitalismo no Sul é muito diferente do do Norte da Europa, mas em Portugal temos sindicatos muito pouco combativos e que sempre estiveram muito ligados às estratégias dos partidos e essa estratégia tem sido muito a da gestão do pacto social”, disse à Lusa a historiadora Raquel Varela, da Universidade Nova de Lisboa, que em conjunto com Ricardo Noronha e Joana Dias Pereira coordenaram o recente estudo “Greves e Conflitos em Portugal no Século XX” e que recusa a ideia de que as ideologias desapareceram, na sociedade contemporânea.

“As ideologias existem, as pessoas é que pensam que não existem. A ‘democracia real’ é o quê? É a ideia de que se pode aprofundar a democracia sobre o capitalismo. Ou seja, a ideia de que o problema central do capitalismo em democracia é o regime e não a produção e a propriedade privada e, portanto, as ideologias têm nome embora as pessoas recusem nomes e, por isso, dizem que a ideologia é não ter ideologia”, afirma Raquel Varela sobre os movimentos de intervenção existentes, sobretudo na Europa.

“Um dos grandes dramas da Europa é as pessoas saírem às ruas para dizerem ‘eu não quero isto’. As pessoas não vêm para a rua dizer ‘eu quero isto’, por aquilo que querem, ou por aquilo que é possível querer contra o capitalismo – uma sociedade sem propriedade privada que é a chave do processo de transformação socialista – porque as pessoas associam-na aos setenta anos da União Soviética onde se aboliu a propriedade privada e se instaurou uma ditadura terrível”, diz Raquel Varela que reforça a ideia de que existe um “trauma sobre a construção de uma sociedade nova que acaba a construir campos de concentração”, na ex-União Soviética.

“Os marxistas hoje ainda não ultrapassaram o trauma de que é possível lutar por uma sociedade igualitária, livre, culta, sem ser uma sociedade-prisão e têm de compreender que aquilo que era o projeto histórico do marxismo – a abolição da propriedade privada - foi profundamente atacado, de forma radical pelo estalinismo”, afirma.

Para a historiadora, Portugal, desde o século XIX, só conheceu estabilidade social quando foram “dados direitos” às populações e que atualmente os sindicatos portugueses não estão “comprometidos” com “combates” e mudanças.

“Em Portugal, os sindicatos continuam a ter muita força. As maiores manifestações continuam a ser as que são organizadas pelos sindicatos. O problema é que os sindicatos estão comprometidos com o pacto social e não estão comprometidos com nenhuma mudança”, considera Raquel Varela,

“Em Portugal, os sindicatos só organizam os seus próprios filiados numa altura em que o modelo da Europa é o trabalho precário e o trabalho informal. Seja como for, os sindicatos continuam a ter muita força, sobretudo no Norte da Europa. Na Alemanha, o maior sindicato, não faz greve, ameaça que faz greve e consegue o que quer. Há um pacto social a vigorar no Norte da Europa muito forte, cuja sustentação são os sindicatos”.

Raquel Varela, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa é também presidente da Associação Internacional sobre Greves e Conflitos Sociais que reúne milhares de historiadores em todo o mundo.

“Nós recusamos a ideia de que as greves são coisas do passado e olhamos para a sociedade em função dos conflitos sociais. Somos pessoas que estudam desde os levantamentos dos camponeses do século XVIII até às greves na China contemporânea”, afirma Raquel Varela.


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