Açoriano Oriental
População das Sete Cidades diz que “Deus vai ajudar” a acabar com o "xaile negro"

Ilda Sousa está “muito preocupada” com o que a covid-19 pode gerar nas Sete Cidades, onde habita, mas convicta de que “Deus vai ajudar”, afirmando que foi como um “xaile negro” que caiu sobre a freguesia açoriana.

População das Sete Cidades diz que “Deus vai ajudar” a acabar com o "xaile negro"

Autor: João Alberto Medeiros / Lusa

A moradora das Sete Cidades, um dos maiores pontos turísticos da ilha de São Miguel, devido à beleza da sua paisagem, que atrai milhares de turistas, considera que o cenário tornou-se “mais assustador” com a introdução por parte da Autoridade de Saúde das cercas sanitárias nos seis concelhos da ilha, desde as 00:00 de hoje.

Com 791 habitantes, de acordo com o Censos de 2011, a cerca de 20 quilómetros de Ponta Delgada, a economia das Sete Cidades é dominada pela agropecuária, e para além das carrinhas de caixa aberta, tratores e máquinas agrícolas que dão apoio à lavoura, o movimento é nulo.

Ilda Sousa, de 52 anos, surge nas ruas desertas a caminho de uma outra habitação familiar, que não aquela onde reside, para "alimentar os animais", uma tarefa que confessa fazer diariamente com “muito receio” devido à pandemia de covid-19.

“Foi como um xaile negro que caiu sobre a gente”, afirma Ilda Sousa.

O xaile negro é típico dos Açores e usado em sinal de luto, tendo gerado uma série da RTP/Açores, realizada por Zeca Medeiros, com base no romance de José de Almeida Pavão, que escolheu como cenário a freguesia das Sete Cidades.

Mãe de dois filhos e três netos, a ex-emigrante canadiana emociona-se quando refere que não vê os seus pequenotes há cerca de um mês: “Deus vai ajudar, sou católica, tenho fé”.

Ilda Sousa reza “muito a Nossa Senhora de Fátima” para “voltar a ver” os netinhos, mas “há-de ser o que Nosso Senhor quiser".

O lavrador Nicolau Alves, de 61 anos, refugia-se em casa na jardinagem, quando não vai à sua exploração alimentar e ordenhar as suas 45 vacas diariamente.

Os seus colegas também têm cumprido com as recomendações das autoridades de saúde, porque estão “assustados com este cerco”.

Tinha alguns animais para abater no matadouro, que seria uma fonte de rendimento extra, mas a chegada da covid-19 comprometeu, para já, esta meta.

Enquanto tocam os sinos da igreja local, Paulo Melo, de 45 anos, funcionário público, - profissão da maioria dos habitantes em idade ativa da freguesia, que se deslocam diariamente a Ponta Delgada para os seus postos de trabalhos na câmara municipal ou no Governo Regional - não esconde a sua preocupação face ao vírus: “está claro, isso está preocupando todos nós”.

Paulo Melo, pai de quatro filhos, três dos quais residem consigo, apenas sai pela manhã para apanhar o pão na padaria, fazendo compras nas suas mercearias locais e na freguesia vizinha dos Ginetes, num hipermercado, onde há “mais escolha e quantidade”.

A presidente da Junta de Freguesia das Sete Cidades, Cidália Pavão, declara que existem atualmente 39 produtores de leite na freguesia, “todos no ativo, felizmente”, enquanto os idosos, que representam parte importante da população local, “têm-se mantido em casa”, e os restantes habitantes, também, numa “atitude exemplar, saindo só para o necessário”.

Na eventualidade de necessitarem de cuidados de saúde, a autarca refere que os locais, face ao encerramento dos serviços, têm de se dirigir às unidades de saúde das freguesias vizinhas das Feteiras e Mosteiros.

Apesar da unidade de saúde local estar encerrada, a enfermeira e a médica local têm vindo a acompanhar a população, de forma particular os mais idosos, enquanto a Secretaria Regional da Solidariedade Social tem vindo a identificar, por telefone, os que vivem sós e as suas necessidades.


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