Perspectivas de crescimento da economia açoriana

Perspectivas de crescimento da economia açoriana

 

Cabral Vieira   Regional   28 de Nov de 2008, 22:57

Os Açores são uma pequena região insular, arquipelágica e dispersa,
onde residem cerca de 2,3% da população nacional. Um indicador de riqueza
é o PIB per capita, o qual ascendia, em 2006, a 90% da média nacional.
Os Açores estavam assim à frente do Norte (80%) e do Centro (85%), mas atrás do Alentejo (95%), Algarve (106%), Madeira (128%) e Lisboa (140%).
Apesar de tudo, o crescimento dos Açores, assim como o processo de convergência para a média nacional, tem sido notório e bastante significativo. Para o comprovar basta atender a que aquele indicador se situava, em 1996, segundo os dados oficiais, em 75% da média nacional.     
O nível de vida melhorou significativamente nos Açores ao longo dos últimos anos. O modelo de desenvolvimento baseia-se, como se sabe, nas transferências vindas do exterior e no aproveitamento e exportação de recursos naturais. No que concerne às transferências, estas provêm do Orçamento do Estado, não apenas para o Orçamento Regional mas também para as Autarquias Locais, e da União Europeia. O sector exportador assenta essencialmente, por enquanto, na fileira agro-alimentar, com especial destaque para o leite e seus derivados.
No que se refere ao futuro, não vislumbro que as transferências do Orçamento de Estado, nem as da União Europeia, aumentem de forma substancial. Manter quer umas quer outras já é, na minha perspectiva, um resultado muito positivo.
Também não creio que a produção de leite, pelas razões sobejamente conhecidas, aumente significativamente. Apesar de tudo esta será sempre importante. Para mim, não há, ao nível do sector primário, alternativa para esta actividade muitas vezes designada de monocultura da vaca. Não me parece que exista muita margem para diversificar neste sector. Tudo o que surgir para além da vaca é sempre marginal e pouco relevante para a economia regional.
Em primeiro lugar, como sabemos, a área agrícola é pequena e a sua pulverização por diferentes actividades reduz, em qualquer uma delas, como já várias vezes o afirmei, o acesso a economias de escala. Em segundo lugar, devido às condições climatéricas, o risco associado ao sector leiteiro, nomeadamente o de perda devido a intempéries, é muito menor do que o associado a qualquer outra actividade agrícola. Finalmente, numa economia pequena, o crescimento acontece se a mesma for capaz de exportar os excedentes. No entanto, em ilhas pequenas e afastadas dos principais mercados consumidores, a exportação tem custos de transporte elevados. Acontece que o leite é um dos produtos cuja transformação, além de acrescentar valor reduz o peso em cerca de dez vezes (considerando, por exemplo, a relação de 10 litros de leite para um quilo de queijo), processo este que reduz de forma substancial o custo de transporte por litro de leite exportado.
A diversificação e o alargamento da base económica de exportação passa pela aposta no turismo. Há quem preveja, nomeadamente a Organização Mundial do Turismo, que as receitas desta actividade ultrapassem dentro de pouco mais de uma década as geradas por sectores importantes como a indústria petrolífera ou automóvel.
Vale a pena apostar em sectores em crescimento. O turismo constitui, deste modo, um sector, correctamente identificado nos últimos anos, como estratégico para a continuidade do processo de crescimento e desenvolvimento dos Açores. 
O facto de o PIB per capita ainda se situar abaixo da média nacional não se deve a uma menor produtividade do trabalho, mas essencialmente à menor participação da população no mercado de trabalho. Em particular, devido ao facto de a participação das mulheres ser mais baixa nos Açores (cerca de 34%) quando comparada com o que se passa a nível nacional (cerca de 47%).
No passado, o modelo de desenvolvimento não incorporou a mulher no mercado de trabalho. A agricultura e a construção civil são actividades desempenhadas essencialmente por homens. Não houve, além disso, o modelo de industrialização do continente com base no vestuário e no calçado. As oportunidades surgiram apenas com instauração do processo autonómico e a expansão dos serviços públicos. Mas estes, devido à restrição orçamental do Estado, não vão expandir-se continuamente.
A riqueza gera-se com aproveitamento de recursos: humanos, financeiros e naturais. O turismo pode beneficiar dos nossos recursos naturais. Da nossa dispersão. Da nossa diversidade. Do nosso mar. Os Açores têm ainda, a este nível, muitos recursos para aproveitar. Alguns nem foram, durante muito tempo, vistos como fontes geradoras de riqueza mas como meros bloqueios ao desenvolvimento. Falo, por exemplo, do nosso mar e da nossa dispersão. Os Açores são nove ilhas e aquilo que as rodeia: o oceano.
A dispersão dos Açores é, muitas vezes, vista como uma desvantagem. Não me oponho totalmente a esse ponto de vista. Sem dúvida que a dispersão do arquipélago, conjugada com as distâncias, acarreta custos adicionais. Impede, conjuntamente com a pequenez das ilhas, o acesso a economias de escala. Multiplica os equipamentos e infra-estruturas (que são caras).
Mas também é verdade que essa mesma dispersão contribuiu para gerar e perpetuar a diversidade dos Açores, o que, na minha opinião, não é de desprezar. A concentração, como é de esperar, leva à uniformização e aniquila diversidade. Leva à concentração de recursos - mesmo que em betão - e ao desaparecimento ou à descaracterização da paisagem natural. A pulverização do investimento público devido à dispersão e às rivalidades que a mesma gera é, deste ponto de vista, desejável.
Na minha opinião, e já o defendi em vários areópagos, a dispersão engrandece-nos. Dá-nos dimensão. A dispersão valoriza-nos. Saibamos ver os seus aspectos positivos e retirar os respectivos dividendos.
Além disso acho que o oceano, ou seja, o mar, é o nosso maior recurso natural. O mar que separa as ilhas dos Açores é o mesmo que as une. Não deve, por isso, ser encarado como um entrave. Numa altura em que os recursos naturais se tornam em muitas partes do planeta cada vez menos naturais e mais escassos, como resultado da intervenção do homem, temos que saber comercializar mas também defender e preservar esse recurso que nos valoriza e engrandece Portugal.
O crescimento nos últimos anos de actividades como a observação de cetáceos, o big game fishing, o mergulho, a vela, o surf, o bodyboard e se calhar no futuro muitas outras como é o caso do kit surf, para o qual os Açores também parece terem excelentes condições naturais, fazem antever que, nesta altura, a procura de actividades de lazer ligadas à natureza e ao mar, muitas delas incluídas no âmbito dos chamados desportos radicais, estas nove ilhas podem vir a ter no oceano que as rodeia uma das suas maiores fontes de rendimento. O desenvolvimento dos Açores não carece de indústrias poluidoras e devastadoras do meio ambiente. Basta preservar e comercializar o que a natureza nos oferece.
A maior riqueza dos Açores, ao contrário do que se possa pensar, reside precisamente na dimensão dada pelo mar e na diversidade das ilhas. É por isso que vejo a construção de marinas, portos de recreio náutico, ou o recentemente inaugurado terminal de cruzeiros, em Ponta Delgada, como investimentos importantes e estratégicos.
Apesar de tudo, o processo apenas se iniciou e os Açores ainda têm um longo caminho a percorrer para serem um destino turístico conhecido e apetecível. A estratégia está lançada. Um dia os resultados surgirão nestes Açores que, para mim, são um mar de oportunidades.

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