Açoriano Oriental
O ginásio onde as lágrimas não entram e treina-se o sorriso

Desde a semana passada que as terças-feiras à tarde no SP Fitness Boutique são de um grupo especial: utentes e voluntários da Liga Portuguesa Contra o Cancro que procuram recuperar a mobilidade num projeto inovador a nível nacional


Foto: Eduardo Resendes
Autor: Nuno Martins Neves

Há uma estranha mas reconfortante energia na sala onde estão 11 pessoas ligadas por uma maldita palavra. Os sorrisos que trocam escondem as batalhas que já travaram, nas curtas e longas vidas que já levam. Ali, onde as lágrimas não entram, o primeiro grupo do inovador projeto Exercício Físico em Doentes Oncológicos procura recuperar a mobilidade que o cancro levou.

“Vão sentir limitações, mas daqui a 3 meses vão pedir por mais”, grita o instrutor Pedro de Medeiros enquanto vai pedindo que cada um dos elementos faça o máximo que puder do exercício físico. Neste caso, flexões: “Fiz 15. Mas não sei se aldrabei”, diz Maria Eduarda, arrancando sorrisos aos restantes. 

A sala no SP Fitness Boutique - ginásio em Ponta Delgada que abraçou o projeto e que não cobra a nenhum dos praticantes do grupo, bem como ao instrutor, que aceitou participar pro bono - inundou-se de risos e sorrisos. Porque é tão importante recuperar a mobilidade dos membros, como recuperar o bem-estar psicológico. E nisso, o “vendedor de profissão, fotógrafo por paixão” de 53 anos é exímio.

Há três anos, a vida de Osvaldo Janeiro deu uma pirueta: “Acordei de noite sem poder respirar pelo nariz nem pela boca, aos tombos até a casa de banho. Meti a cabeça debaixo de água fria e no outro dia, logo de manhã, fui ao médico”. Visto pela doutora Sofia Decq Mota, que lhe perguntou sobre o “ovo que tinha no pescoço há mais de um ano”. O resultado das análises confirmaram ter cancro na nasofaringe. “Está por detrás do nariz e não dá para operar. Eu tento sempre levar na brincadeira e disse ao médico se um CRF num copo aquecido não curava (risos). A médica mandou-me continuar com a boa disposição, que ia precisar dela, pois ia piorar antes de melhorar!”

Osvaldo Janeiro luta “com aquilo que posso” para ultrapassar o cancro e das aulas de exercício físico espera recuperar o que a doença lhe tirou, a fototerapia, como chama. “Eu trabalho na Casa Batista desde os meus 14 anos. Sempre fiz fotografia, mas mais em batizados, casamentos, coisas familiares. Com a era digital nasceu a paixão que me levou sempre a sair de casa e a fazer aquilo que eu descobri que gostava: trilhos, caminhadas pela natureza e fotografia. É isto que quero recuperar”.

“Já me tinha esquecido disto, sabe?”, conta resignada Filomena Soares, voluntária na Liga Portuguesa Contra o Cancro. Aos 66 anos, esta micaelense nascida no Porto Formoso, mas que veio para a cidade há seis décadas, já travou mais batalhas do que seria de esperar. Há 24 anos, um cancro de mama levou-a a fazer uma mastectomia radical. Há quatro, num exame de rotina, apareceram metástases nos pulmões e no final da coluna. “Uma pessoa olha-se ao espelho e vê que está mutilada, que falta qualquer coisa. Tiraram-me os gânglios linfáticos e também fiquei incapacitada do braço bastante tempo”. Mas a doença não a parou: cinco meses em casa e regressou ao trabalho num laboratório de uma fábrica de leite.

“Quando recebemos a notícia que temos cancro, é uma bomba que dá para pensar tudo e mais alguma coisa. E a primeira é: vou morrer. Na altura, já era viúva mas tinha uma filha com 18 ano e só pensava: vou deixar a minha filha”. Não deixou: a fé e a resiliência levaram-na a ter uma vida normal, tão normal que até brincava com a doença. “Há um perneta, há um maneta e nós somos as mametas “, disse, entre risos. 

Agora, por entre flexões, saltos e outros exercícios, a “mais jovem voluntária da Liga”, como é conhecida, quer recuperar a vida que perdeu. “Andar mais, caminhar mais, sem me cansar tanto. Depois desta crise dos pulmões, custa-me mais e, por isso, estou nestas aulas para conseguir recuperar a minha qualidade de vida. E depois ajudar mais alguém que precise e acompanhar a minha filha o mais que eu puder, que agora tem 43 anos e vê na mãe uma guerreira”.

Estas palavras ecoam em Ana Borges, que bebe atentamente cada palavra que Filomena Soares diz. Natural de Água de Pau, a comerciante de 49 anos partilha das mesmas dores, pois também ela teve de retirar o peito. Um retrato dos últimos três anos onde o apoio “da família, amigos e patrões” foi vital para se segurar.
“Sabe o que é passar a época natalícia sem saber resultados da biopsia? Se era bom, se era ruim? Só a espera parece que o mundo desabou, fica-se sem chão”, confessa, recordando o ano de 2017 onde a maldita palavra entrou na sua vida. De então para cá, uma mastectomia no dia 8 de março de 2018, uma tumorectomia o ano passado e um sem número de outras cirurgias para resolver problemas adjacentes.

Conhecida cara da Casa Cristal, loja para onde entrou aos 14 anos e trabalhou nos 32 seguintes, as cirurgias retiraram-lhe forças e teve de deixar o trabalho porque “não tinha forças para pegar nas peças pesadas”. Por isso, as aulas com Pedro de Medeiros são vistas como um novo horizonte. “Gostei imenso do primeiro dia. Estou a ir devagarinho, mas já fiz umas flexões, coisa que não conseguia. Porque ainda não tive tempo suficiente para mim, para ver o que consigo ou não”.

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