Constituição/50 anos

No regresso ao parlamento, Marcelo assistiu sozinho na tribuna à sessão solene

O antigo Presidente da República e deputado constituinte, Marcelo Rebelo de Sousa, assistiu à sessão solene que assinalou os 50 anos da Constituição da República sozinho na tribuna presidencial, num regresso ao parlamento por onde distribuiu vários cumprimentos



Pelas 09h00 da manhã, cerca de uma hora antes do início da sessão solene comemorativa, já tudo estava pronto na Sala das Sessões da Assembleia da República, o mesmo local onde há 50 anos foi aprovada e logo promulgada a Lei Fundamental.

No púlpito, arranjos florais com ranúnculos e frésias, em tons verdes, vermelhos e amarelos, as cores da bandeira nacional e ao centro do hemiciclo, o exemplar original da Constituição exposto numa vitrina de vidro.

Seguindo o protocolo, as figuras institucionais começaram a chegar ao parlamento, entre elas, o antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

A última vez que Marcelo esteve no parlamento foi a 09 de março, dia em que passou o testemunho a António José Seguro e se despediu a caminho do "deserto eterno".

No seu regresso ao Palácio de São Bento, o antigo chefe de Estado, mas também um dos deputados que elaborou a Constituição, sentou-se na tribuna destinada a antigos Presidentes da República ou ex-primeiros-ministros, sozinho, não tendo estado mais ninguém presente na cerimónia nessa condição.

Nas galerias, assistiram vários deputados constituintes, entre eles, Jorge Miranda, considerado um dos ‘pais’ da Constituição, o antigo secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, Helena Roseta, Alberto Arons de Carvalho ou Ângelo Correia.

Alguns constituintes foram protagonistas de um momento tenso durante a sessão: abandonaram a Sala das Sessões quando o presidente do Chega, André Ventura, discursava, tendo regressado logo a seguir.

Se no início o Hino Nacional foi tocado pela banda da Guarda Nacional Republicana (GNR), no final a fadista Katia Guerreiro entoou a canção de uma das tribunas do plenário, assinalando o encerramento da sessão.

Depois de ter estado sozinho na tribuna presidencial, Marcelo Rebelo de Sousa desceu para o piso da Sala das Sessões e, enquanto aguardava pelos restantes deputados constituintes para tirar uma fotografia, foi cumprimentando quem saía do hemiciclo, começando pelas três principais figuras do Estado: o Presidente da República, António José Seguro, o presidente do parlamento, José Pedro Aguiar-Branco, e o primeiro-ministro, Luís Montenegro.

Interrogado pelos jornalistas sobre o facto de ter estado sozinho na tribuna, Marcelo, que não quis prestar declarações, disse apenas: "Não puderam vir, virão no 25 de Abril".

De regresso à Sala das Sessões, já depois do fim da cerimónia, para a fotografia dos constituintes, Marcelo cumprimentou várias pessoas, incluindo Jerónimo de Sousa, pousando a seu lado na imagem de grupo.

No final, os antigos deputados bateram palmas e gritaram "vivas" à Constituição.

A 02 de abril de 1976, a Assembleia Constituinte, fruto das primeiras eleições livres em Portugal após a ditadura, aprovou a Constituição da República Portuguesa, com apenas o voto contra do CDS, quebrando a unanimidade dos votos favoráveis do PS, PPD, PCP, MDP/CDE, UDP e do ADIM.

O texto resultou de 132 sessões plenárias, que ocuparam quase 500 horas, e 327 sessões das 12 comissões especiais constituídas na altura.

A lei fundamental entrou em vigor a 25 de abril de 1976 e instaurou princípios basilares do atual regime democrático, como a separação de poderes, o voto universal, assim como direitos fundamentais como o direito à vida, à integridade pessoal, à liberdade de expressão, à habitação, saúde ou educação, entre muitos outros.

Desde a sua aprovação, a Constituição foi revista sete vezes. Esta semana, o Chega anunciou a intenção de avançar este mês com uma proposta de revisão constitucional.

Pela primeira vez na história da democracia, os partidos à direita são suficientes para aprovar alterações à Constituição, sem necessidade de qualquer partido à esquerda, nomeadamente, o PS.

 


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