“Percebi que o lugar onde estamos pode fazer parte da criação”

Luís Senra. Conta que o seu gosto pela música foi consolidado com a abertura da Escola de Música de Rabo de Peixe, pela qual tem um imenso carinho. O saxofone fez parte da sua vida durante muito tempo, mas foi com as  performances nas grutas que encontrou um ponto de viragem na sua carreira artística




Luís Senra, músico, artista e mediador cultural, natural de Rabo de Peixe, cresceu rodeado por adultos, entre as casas dos avós, num ambiente mais familiar. Conta-nos que “não tinha crianças da minha idade perto” e, por isso, a sua infância “foi marcada por atividades solitárias e introspetivas, como puzzles e trabalhos manuais”. 

A música surgiu quase em segredo: “A primeira memória que tenho do gosto pela música é quando ia visitar uma tia - que tinha um órgão em casa - e fechava-me no quarto para ninguém ouvir e explorava”, recorda. Apesar da influência indireta do pai, que foi músico numa filarmónica, o gosto nasceu de forma espontânea. Só mais tarde, já na escola, um “atelier de música que abriu na Escola Básica e Integrada Rui Galvão de Carvalho, em Rabo de Peixe”, veio consolidar esse gosto. 

A partir daí, Luís Senra foi desenhado o seu percurso, que diz ser “muito diversificado, porque entrei no Grupo Orff da escola e, em 2001, abriu a Escola de Música de Rabo de Peixe”, onde integrou a primeira geração de alunos. Foi aí que começou a desenvolver competências musicais, passando por diferentes contextos, como grupos escolares, filarmónica (a mesma onde o pai tinha tocado e o avô tinha feito parte da direção), orquestras ligeiras e a Orquestra Lira Açoriana. “Fui saltitando entre experiências, até chegar ao Conservatório Regional de Ponta Delgada, já com 18 anos”.  

No entanto, o saxofone apareceu antes de entrar no conservatório, aos 17 anos. Explica que “comecei por tocar clarinete e depois flauta, e o saxofone entra no contexto de necessidade da filarmónica ter alguém que tocasse saxofone”. Ainda nesse mesmo ano, surgiu o workshop de ‘Voz e Orquestra’ do Teatro Micaelense, com “elementos do Hot Clube de Lisboa, em que levo a flauta, mas continuava a tocar mais o saxofone”, aparecendo o jazz e “foi o casamento perfeito, foi o que me fez dizer que seria o saxofone o instrumento que queria continuar a tocar”. 

Quando chegou ao conservatório, Luís Senra já tocava regularmente em bandas e projetos semiprofissionais, “já andava a tocar por aí, em bares, em festivais”. Não seguiu os estudos académicos, refere que “fui ‘bebendo’ da formação do conservatório para melhorar o encontro com a música e ter mais competências musicais. Creio que nunca me passou pela cabeça seguir a universidade, até porque, naquela altura, uma licenciatura na área da música não era assim tão usual”. 

Diz-nos que foram as pessoas que marcaram o seu percurso. Workshops e colaborações com músicos de diferentes áreas trouxeram-lhe uma visão mais ampla da criação artística. “Aprendi mais com a forma de estar dessas pessoas do que propriamente com a música em si”, afirma, destacando a importância da criatividade, da humildade e da identidade pessoal. Confessa, ainda, que “tive a felicidade de trabalhar com músicos que eram divergentes também na sua área, que tinham percursos alternativos na sua área, e foram-me mostrando formas de pensar diferentes, formas de viver a música e a arte também de maneira diferente”. Enaltece que “foram estas as maiores aprendizagens que tive com eles, ou seja, a possibilidade de imaginar outros futuros na música e na arte, e também de perceber que, a nossa parte pessoal é tão ou mais importante do que a parte musical, se queres realmente ser um artista com trabalho, um artista que circula e um artista que depois tem algum tipo de reconhecimento”.

Todos os trabalhos que já desenvolveu o marcaram de alguma forma, mas “não posso deixar de falar da minha presença na Orquestra do Angra Jazz, porque quando começo a tocar jazz - hoje já não faz parte dos meus planos - mas na altura, quando queria tocar jazz e estava naqueles workshops, como açoriano que sou, há aquele objetivo do Angra Jazz, por ser o exponente máximo”. 

Foi com as performances nas grutas que encontrou um ponto de viragem na sua  carreira artística. Percebeu que “a música pode ser mais do que simplesmente música, pode ter um conceito, pode ser conceptual, pode ser relacionada com o lugar, com a natureza”, tendo aberto portas “para tudo aquilo que vinha a se tornar o meu trabalho hoje, enquanto artista criador”. Relata que nessa altura “percebi que o lugar onde estamos pode fazer parte da criação”. Os seus atuais projetos são o ‘Oráculo Vulcânico’, precisamente um “trabalho de exploração e investigação artística, desenvolvido a partir das rochas vulcânicas que resulta na criação de experiências e performances site-specific, ‘Pharoson’, uma experiência sensorial imersiva que acontece no último sábado do mês na Floresta Cultural, bem como a criação e facilitação de oficinas de mediação cultural para associações e espaços de cultura”. Desenvolve também, “com a artista Filipa Gomes, a performance ‘Reflexos de Origem’, e a oficina ‘Estes sons que sou eu’”. 

Ora, com estes projetos, o conceito de ‘ilhéu’ ganhou um novo significado. Se antes poderia existir a vontade de sair, agora há um desejo de compreender melhor o lugar onde vive. “Percebi que através da arte podia conhecer melhor as ilhas, a questionar se os vulcões ou as rochas onde vivemos, podem-me ajudar a compreender melhor o sítio onde vivo, a não querer sair, a perceber o que é que existe além de um lugar no meio do oceano”, disse.

Luís Senra mantém uma forte ligação à Escola de Música de Rabo de Peixe, onde foi aluno, professor e atualmente é vice-presidente da direção da Associação Musical EsMusica.Rp, que gere a mesma. 

A Escola de Música de Rabo de Peixe, assume um papel relevante na dinamização cultural local e na formação de novos públicos, contando com 50 alunos de várias idades, com muitos instrumentos, nomeadamente “a flauta, o saxofone, a bateria, as guitarras, o baixo. Este ano abrimos a oficina de violino”. Por outro lado, a escola já começa a “chegar um pouco às outras freguesias da Ribeira Grande e também aos Fenais da Ajuda, Capelas, São Vicente Ferreira”. É, pois, “um projeto muito querido e tenho muita vontade de contribuir para o crescimento, cada vez maior, da Associação e do projeto Escola de Música”.

Adianta que “neste momento podemos receber pessoas que estejam interessadas em desenvolver projetos na nossa comunidade e que são muito importantes para a escola. Temos o Tremor, que é uma parceria de muitos anos”. Claro que “temos muitas ideias para o futuro e espero conseguir realizá-las, nem que seja metade, do que temos na cabeça”. 

De certa forma, a insularidade continua a condicionar a circulação de projetos, ainda assim, Luís Senra, gostava, mais do que criar novos projetos, fazer “circular os que já existem, levando-os para outros contextos, dentro e fora do país”.

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