Meio milhar de pessoas junta-se em Lisboa solidárias com migrantes do Mediterrâneo

Meio milhar de pessoas junta-se em Lisboa solidárias com migrantes do Mediterrâneo

 

AO Online/ Lusa   Nacional   9 de Nov de 2019, 00:31

Cerca de meio milhar de pessoas manifestaram-se pacificamente esta sexta feira no Rossio, em Lisboa, contra o “chumbo” do Parlamento Europeu ao reforço das missões de salvamento no Mediterrâneo e a apelar para uma nova votação que “salve os migrantes”.

O Parlamento Europeu (PE) rejeitou na semana passada quatro resoluções que visavam a descriminalização do salvamento de pessoas, bem como o reforço dos meios de busca e salvamento e abertura dos portos marítimos a embarcações das organizações não-governamentais (ONG) que fazem a recolha desses refugiados.

Face a este chumbo, a Humans Before Borders decidiu, juntamente com outras associações, como a AMI, o SOS Racismo ou a Abraço, convocar ações de protesto em Lisboa e no Porto.

Em Lisboa, juntou-se ao final da tarde de hoje cerca de meio milhar de apoiantes da causa, de todas as idades e raças, de várias nacionalidades, para expressar que “salvar vidas não é crime” e que “as fronteiras matam”.

Encabeçada por um cartaz colado na estátua de D. Pedro IV de maiores dimensões no qual se lia “Abaixo a Europa, a solidariedade não tem fronteiras”, no protesto viam-se outros no chão ou empunhados pelos manifestantes com frases como “Esta não é a minha Europa” ou “Tantas mortes como as ondas do mar”, num cenário de discursos livres no qual não faltaram cartazes para pintar com ‘slogans’, bombos ou até mesmo um barco pneumático coberto de coletes salva-vidas.

Em declarações à agência Lusa, José Cortez, da Humans Befores Borders, sublinhou que desde 2014 já morreram mais de 17 mil pessoas que tentaram atravessar o Mediterrâneo e que “a Europa se tem cada vez mais tornado uma ‘Europa fortaleza’ no seu vácuo de qualquer órgão público a fazer operações de busca e salvamento”.

Há duas semanas “foi um voto para parar de criminalizar estas ONG, assim como aumentar os esforços de busca e salvamento por parte da União Europeia (UE) e essas propostas foram chumbadas com 290 contra e 298 a favor”, referiu.

“Estamos aqui para mostrar o desagrado com esta decisão, não só para dizer que não é esta Europa que queremos, mas também fazer um apelo para uma Europa mais humana e parar com estas mortes no Mediterrâneo”, enfatizou.

O dirigente sublinhou que atualmente a missão Frontex, da agência de controlo de fronteiras da UE, “é cada vez mais de devolver do que salvar e tem de haver um esforço conjunto, caso contrário isto não avança e continuam a perder-se vidas humanas”.

Na opinião de José Cortez, “todos os Estados-membros da União Europeia têm de se envolver na resolução destes graves problemas, nomeadamente parando de criminalizar o salvamento, reforçando as missões de busca e salvamento, abrindo os portos às embarcações das ONG que recolhem migrantes no mar e cessar de imediato acordos com a Líbia”.

“É inacreditável que salvar vidas humanas seja considerado um crime. Salvar uma vida humana pode levar a 20 anos de prisão [em Itália] e isto é inacreditável”, vincou.

Numa situação destas, a braços com a Justiça italiana está Miguel Duarte, da Humans Befores Borders, indiciado por crimes de auxílio à imigração ilegal por resgates de migrantes em perigo de vida, podendo incorrer numa pena de prisão até 20 anos, que também esteve na organização do protesto de indignação.

“O que se tem visto no PE é que os partidos preferem promover as ligações partidárias e as discussões partidárias ao invés dos Direitos Humanos”, declarou à Lusa Miguel Duarte.

O ativista afirmou que se continua “a não ver uma decisão clara da UE e uma solução a longo prazo que salve a vida destas pessoas que morrem todos os dias no Mediterrâneo”.

“Basta olhar atentamente para este caso para perceber que é político e que os seus contornos são absolutamente absurdos e não é um caso único, porque existem variadíssimos outros na UE de criminalização da ajuda humanitária”, alertou

“Isto dá-nos infelizmente a entender que a Europa prefere criminalizar quem ajuda em vez de ser ela a ajudar de facto, porque em primeiro lugar são os Estados europeus que têm a responsabilidade de fazer o resgate marítimo”, concluiu.

Entre muito outras pessoas, também a bloquista Joana Mortágua e outros apoiantes do BE compareceram no Rossio, sublinhando que esta não é uma questão partidária, mas sim de humanidade.

“Sabendo que estão deliberadamente numa posição de não as resgatar é uma cumplicidade moral, uma autoria moral também da morte daquelas pessoas e é isso em que a Europa atualmente se está a transformar, está a permitir que o Mediterrâneo se transforme num cemitério”, criticou Joana Mortágua.


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