Açoriano Oriental
Luso-americanos cada vez mais visíveis

Em entrevista o responsável pela criação da primeira cadeira sobre literatura açoriana na Brown, Onésimo Teotónio Almeida, defende que a comunidade está cada vez mais activa no ensino, nos negócios e na política.Quanto às visitas dos presidentes da República e do Governo Regional, diz que são de salutar, mas salienta que os emigrantes querem é resultados.

article.title

Foto: Eduardo Resendes
Autor: Nélia Alves

Onésimo Teotónio Almeida nasceu no Pico da Pedra, ilha de São Miguel.

Começou os seus estudos no seminário de Angra e, depois, na Universidade Católica em Lisboa. Em 1972 emigrou para os Estados Unidos da América, concluindo quatro anos depois a licenciatura na Universidade de Brown onde hoje é professor catedrático.

A experiência de integração na cultura norte-americana serviu de tema para a sua tese de doutoramento em filosofia – "The Concept of Ideology: a critical analysis".

Desde 1975 a leccionar nesta Universidade, foi director do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros entre 1991-2003. Foi também o responsável pela criação da primeira cadeira sobre literatura açoriana na Brown. É responsável desde 1979 por um programa cultural no Portuguese Channel de New Bedford; fundou e é co-director da revista Gávea-Brown; fundou e dirige uma editora com o mesmo nome, que se destina à publicação, em inglês, de estudos de cultura portuguesa e traduções de literatura portuguesa.

Nos últimos anos a sua escrita tem-se repartido entre o ensaísmo e a ficção, com a crónica a servir de ponto de encontro. "Aventuras de um Nabogador" é o seu mais recente conto publicado pela Bertrand, onde relata a sua emigração.

O humor é, uma das personagens principais da sua criação, servindo de exemplo o livro de crónicas "Que Nome É Esse, ó Nézimo?".

Sensível também às formas de aculturação, aos choques culturais e ao problema da linguística, retratou as desilusões do sonho americano em "Da Vida Quotidiana na L(usa)lândia e (Sapa) teia Americana.

Nos ensaios académicos, o destaque vai para a História Cultural Portuguesa, Cultura e Literatura Açorianas.

Veio para os Estados Unidos para estudar. O que fez quando cá chegou?

No primeiro ano fiquei como aluno extraordinário porque não concorri a tempo e tive que trabalhar. Aceitei uma oferta de emprego como coordenador de uma equipa produtora de currículo escolar numa escola bilingue de Fall River porque isso permitia-me matricular-me na Brown. Depois aceitei uma bolsa do Departamento de Filosofia e passei a estudar a tempo inteiro.

Foi difícil chegar a professor catedrático na Brown?

Uma resposta para bom efeito jornalístico seria: naturalmente com cunhas e padrinhos. A realidade é: estudando e trabalhando. Estava a meio do Mestrado e um grupo de professores interessados em criar um Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros abordou-me para colaborar com eles. Quando terminei o doutoramento em 1980, eu tinha de sair e procurar emprego noutra universidade mas como estava a leccionar no Centro poderia arriscar ficar, pois não me formara lá. Nesse ano fui nomeado Professor Assistente, e a nomeação definitiva, com a agregação, ocorreu em 1987. Mas corre uma teoria, ainda hoje defendida nos Açores por um jornalista e antigo membro do Governo Regional, que diz ter sido uma troca de favores com um Presidente da República Portuguesa que me permitiu o lugar na Brown. Uma outra teoria foi que recebi o lugar directamente do Governo dos Estados Unidos em troca de espionagem que fiz na China. Gosto muito de rir e colecciono anedotas...

Pode descrever o seu dia normal de trabalho?

Não tenho um dia normal. As aulas não são muitas e a maior parte do meu dia é muito flexível. Escrevo de manhã e concentro para a tarde as aulas e reuniões.

Definiu a comunidade portuguesa nos EUA como uma ilha rodeada de América por todos os lados. A comunidade tem visibilidade ou como alguns autores defendem, é uma minoria invisível?

A expressão "minoria invisível" foi cunhada pela antropóloga Esthelie Smith, de ascendência parcialmente açoriana, nos anos 70.

Foi verdade durante décadas. No Sudoeste de Massachusetts e em Rhode Island isso é cada vez menos verdade. Vamo-nos tornando mais visíveis na política e nas universidades temos mais visibilidade. Algumas empresas portuguesas começam a sair do meio meramente étnico.

Falou na visibilidade política. Não é político mas tem um papel activo na sociedade a esse nível. Que comentário lhe merecem os nossos luso-americanos políticos?

A participação política luso-americana tem vindo a crescer. Seguimos o percurso normal.

Os italianos vão uns vinte anos à nossa frente porque estavam estabelecidos como comunidade uma geração antes de nós.

A maior parte dos emigrantes veio sem experiência de participação política, inexistente em Portugal até 1974. Para aprender, havia que processar-se primeiro uma assimilação cultural seguida de uma integração. Isso tem vindo a acontecer e o que presenciamos hoje a nível de participação política da comunidade é o resultado normal dessa integração e assimilação.

Considera importante a presença de luso-descendentes em cargos políticos?

Claro que sim. Quem diz que isso não é importante não vive neste mundo. Seria ideal se a identificação étnica não contasse, mas contam para os outros e portanto há que fazê-la contar para nós.

Existe relação/contacto entre os políticos da diáspora e de Portugal?

Ela existe, mas depende de ligações individuais. Não acho isso mal. Qualquer receita da minha parte seria ridícula porque isso depende do empenho de cada político, dos contactos e dos interesses de parte a parte. Para Portugal é importante saber que existe uma força potencial com que pode contar em casos pontuais.

O mês de Junho na diáspora é o mês de Portugal por excelência. Um comentário às visitas do Presidente da República e do Presidente do Governo Regional?

Essas visitas são importantes mas não operam milagres.

Há dois anos que o Governo vem protelando a nomeação de um/a Coordenador/a do Ensino nas Escolas Portuguesas. Um protocolo assinado pelo Presidente da República sobre o Ensino de Português também ficou no papel. E fico-me por aqui.

Como vê o futuro da comunidade luso-americana nos EUA?

Nas zonas de grande concentração portuguesa, o processo de americanização vai continuar, mas a comunidade vai manter por muito tempo a sua vida social e cultural.

Os membros da comunidade que foram viver para outras áreas do país vão mais facilmente integrar-se. Digo isto com base no que vejo em outros grupos étnicos que nos precederam. Agora, com a insistência da preservação das culturas de origem dos emigrantes, vai demorar mais o processo de americanização total, como aconteceu por exemplo aos alemães do século XIX, que foi o maior contingente de emigração para os EUA a seguir ao de língua inglesa.

Qual o maior desafio que esta comunidade enfrenta hoje?

Julgo ser o do acesso às universidades. A Fall River e New Bedford das fábricas onde se ganhava bem é hoje um mundo do passado.

A única maneira de a comunidade sobreviver economicamente para além das áreas onde até aqui esteve bem (restauração, comércio, empresas de construção, limpeza e pesca, por exemplo), será proporcionando instrução superior aos filhos e conseguindo-lhes acesso a boas universidades para que possam entrar no mercado de trabalho da terceira revolução industrial, que é bem mais exigente em matéria de habilitações. Este processo está a avançar, mas demasiado vagarosamente. As empresas ainda não encontram na área de Fall River/New Bedford mão-de-obra suficientemente preparada para se instalarem aqui. Os nossos melhores que se formam e estão preparados para os novos desafios têm em regra de sair dessa área, nacionalmente classificada como "depressed", para poderem encontrar emprego à altura.

Dá aulas de cidadania como voluntário na Casa dos Açores em East Providence. A comunidade está mais desperta para a necessidade da naturalização neste país?

Sim, está, mas por razões que lhes tocam fundo: o perigo de deportação dos filhos, a necessidade de assegurar benefícios sociais se um dia quiserem regressar a Portugal, possibilidade de acesso a determinados empregos governamentais, mais segurança pessoal, mandar vir alguém da família que ainda está em Portugal são as principais razões. Há anos que se vem fazendo campanha nesse sentido da aquisição da cidadania, mas os emigrantes só responderam quando sentiram o perigo na pele. As deportações foram o grande susto.

Realizou-se em Washington o congresso da PALCUS no passado fim-de-semana onde se referiu a importância dessa organização para a comunidade. Quais devem ser as prioridades e que objectivos gostaria de ver atingidos a curto prazo?

É importante esclarecer-se sobre qual é a missão desta organização e quais as prioridades que deve estabelecer.

A PALCUS (Portuguese American Leadership Council of the United States) tem quinze anos de altos e baixos, mas com um rol de serviços nada desprezível. É óbvio que é importante, para nós portugueses, uma organização nacional que transporte as nossas comunidades para além das regiões onde vivem.

O grande problema é a PALCUS conseguir de facto uma agenda nacional e ter meios de a executar. Felizmente o amadurecimento político da comunidade vai-se tornando uma realidade e parece-me que se está no bom caminho. No congresso realizado pela primeira vez este ano neste encontro de Washington creio terem ficado bastante claras umas quantas prioridades, entre as quais, e acima de todas, a da educação – a aceleração do processo de integração dos jovens luso-americanos na economia da terceira revolução industrial.

 

Fale-me do seu último livro"Aventuras de um Nabogador" ?

É um livro de estórias-em-sanduíche. Pus por escrito uma série das que ilustram melhor algumas coisas que vou dizendo em ensaios, mas que precisavam de um outro género de escrita, mais leve. Algumas têm a ver com a emigração, mas poucas. A maioria tem a ver de facto com a minha emigração pessoal, embora não exclusivamente nos EUA. Vão desde a Tailândia à Colômbia.

Diz o ditado que o homem só se realiza quando planta uma árvore, faz um filho e escreve um livro. O que lhe falta realizar mais?

Não creio que nada disso seja algo de extraordinário. Só queria ter muito mais tempo para dar conta de tudo aquilo em que me envolvi.. .

||
Regional Ver Mais
Cultura & Social Ver Mais
Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.