Pedro Henriques

Estar afastado do centro de decisão penaliza a arbitragem açoriana

Estar afastado do centro de decisão penaliza a arbitragem açoriana

 

Nuno Martins Neves   Futebol   16 de Nov de 2018, 10:00

Excertos da entrevista do ex-árbitro e atual comentador desportivo Pedro Henriques à edição de sexta-feira, 16 de novembro, do Açoriano Oriental, onde analisa a tecnologia do vídeoárbitro (VAR) e aborda o porquê de ainda não ter surgido um árbitro principal dos Açores de primeira categoria

Apesar de se associar o ser-se militar a uma figura autoritária, a forma do Pedro Henriques apitar não era “autoritária”, no pior sentido da palavra.

É a diferença entre impor e conquistar: ou seja, mais do que impor a autoridade, que é importante e há momentos para isso, é importante conquistar o respeito das pessoas. Eu acho que isso é muito relevante e importante. Comparo muitas vezes com o treino ou o trabalho militar: mandas fazer 50 abdominais e quando viras a cara, o indivíduo deixa de fazer. O que significa que ele só faz porque tu estás a olhar; não o faz porque tu, de uma forma natural, explicaste que fazer 50 abdominais era importante, os benefícios. E isso faz com que a pessoa execute o exercício sem que tu tenhas que o controlar. E na arbitragem é um pouco isso: se impões a autoridade, as pessoas fazem porque sabem que são penalizadas com cartões amarelos ou vermelhos; mas não o fazem porque têm respeito por ti. E o que sempre tentei fazer foi, com essa boa relação com os intervenientes, que o respeito seja conquistado. E depois temos de pensar que não é só naquele momento, daquele jogo: quando agimos num determinando jogo, agimos também para todas as partidas no futuro, daqueles que nos estão a ver e os que vou encontrar no futuro. Ou seja, não se esgota ali: o mal é os árbitros pensarem que querem agarrar o jogo, fazendo coisas que não deveriam fazer, esquecendo-se que mais tarde vão encontrar esses jogadores. Toda a imagem que vais criar, mais ou menos positivo, não é só para aquele jogo, é para o futuro.

E depois é a questão da “máxima liberdade, máxima responsabilidade”, que cada vez mais é fundamental: as pessoas entenderem que eu estou lá para contribuir e para ajudar e não para prejudicar ou dificultar. Tentei sempre - nem sempre o consegui - isto. E depois há momentos em que é impossível e tens de ser autoritário, Em termos de liderança, a mais importante é a situacional, consoante a situação e adaptares-te a esse contexto. Por exemplo, no treino que eu dou às equipas femininas: se ganho um jogo por 10-0, no treino seguinte posso estar na boa com elas, sento-me no chão a falar com elas, peço opinião e dou uma de um treinador que é mais um elemento; mas se eu perco 10-0, no treino a seguir não vou fazer isso, não vou ser democrático. Vou estar em pé e elas sentadas para criar distância, e vou criar um clima de maior agressividade em relação a elas para vincar uma determinada mensagem de algo que não correu bem. Ou seja, o que muda? O contexto, se ganho ou perco e na arbitragem é muito isso: havia momentos em que sentia que o clima era hostil a mim, obviamente que não ia estar a sorrir para os jogadores. Por outro lado, havia situações que, mesmo num ambiente hostil, a forma de os desarmar era ser mais educado, respeitador. Resumindo e concluindo: não perdendo os teus princípios-base, adaptar-me sobretudo ao que o momento e o contexto me dava. A maior parte das vezes resultava, outras vezes nem tanto, por isso é que também tive os meus casos e quem não gostasse de mim, porque a relação que procurava ter com elas não resultou.

Como vê a situação causa pelo VAR em que temos árbitros a aconselharem colegas de profissão? É uma das questões mais difíceis de gerir neste novo paradigma?

No ano passado, a questão que se colocava é que tanto o árbitro como o VAR estão a ser avaliados e a nota final dos árbitros era o resultado dos jogos que arbitram, mas também dos jogos que estão como vídeoárbitro, além dos cursos, testes teóricos e provas físicos.
A questão que se levantou era se fazia sentido ir buscar árbitro que já não estavam no ativo para o VAR, para criar um distanciamento e para evitar a competitividade. O Conselho de Arbitragem tem consciência disso e este ano temos quatro vídeoárbitros profissionais: Luís Ferreira, Bruno Paixão, Vasco Santos e o Bruno Esteves. Árbitros que terminaram as suas carreiras e que só fazem VAR. A tendência é, aqueles árbitros mais antigos, como o Carlos Xistra e outros, que vão terminar a carreira por limite de idade (45 anos), serem convidados para serem VAR. A ideia é que no futuro tenhamos os árbitros a apitar no terreno, e os vídeoárbitros serem pessoas com experiência, que até passaram pelas duas vertentes, e que poderão fazer esse papel. A vantagem é que não vão estar em competência. Sendo até pessoas mais antigas em termos de idade, poderão estar mais à vontade para intervir, porque esse é também um problema. Imagine o Artur Soares Santos ou o Jorge Sousa, que são árbitros de topo, receber indicações de um árbitro “maçarico”. Como é que ele se sente para dizer ao Artur Soares Dias para ver este lance que não é penálti? Estás quase a desautorizar o árbitro que é uma figura importante hierarquicamente na estrutura. É um problema difícil que eu acho que pode inibir. Por outro lado, acredito que a estrutura da arbitragem junta todos os elementos e crie esta empatia, mas não é uma relação fácil.
E a questão do duplo-desgaste, que aconteceu muito no ano passado: tivemos árbitros que não foram contestados na sua arbitragem, mas sim na sua vídeoarbitragem! E esses árbitros, quando chegavam ao terreno de jogo para apitar os clubes que há três semanas tinham sido VAR, criava uma pressão maior. Até nesse sentido, o VAR ser um grupo independente dos árbitros pode ser bom, porque mesmo que haja erro do VAR, não se aponta o dedo ao árbitro no terreno.

É da opinião que o protocolo do VAR tem de ser mudado?
O protocolo tem a limitação dos quatro momentos de intervenção, que está bem feito: tudo o que é penálties; tudo o que são questões de golos, ver se há irregularidades, onde entra o fora-de-jogo (o fora-de-jogo não faz parte do protocolo, apenas quando há um golo obtido); a questão da troca de identidades na amostragem de cartões, o que acho correto quando o árbitro mostra um amarelo ao jogador X e quem fez a falta é o Y, por exemplo; e na amostragem dos cartões vermelhos. Neste último é que eu acho que pode abrir um pouco mais o leque: um vermelho direto o VAR intervém; no caso de uma expulsão por acumulação de amarelos, o VAR não pode intervir. A defesa de quem pensou nisto é a seguinte: se vamos abrir para o segundo amarelo a possibilidade do VAR intervir, imagine que o primeiro amarelo foi mal mostrado? Depois teria de se estender o protocolo à amostragem do primeiro amarelo. E a dado momento estamos a estender a todos os situações em que possa haver intervenção disciplinar. O meu receio é que, como há muitas situações destas, que o número de intervenções do VAR possa ser demasiadas e levem a mais pausas de jogo e perdas de tempo, que é algo que está a tentar debater-se. É bom lembrar que em Inglaterra, o tempo útil de jogo é de 31 minutos por cada parte; em Portugal é cerca de 25 minutos em cada 45. O que significa que em Inglaterra temos mais de uma hora de jogo, em Portugal temos um jogo de 50 minutos. O receio é um bocadinho esse, pois isto não se pensa para Portugal, mas sim a nível mundial. Mas eu penso que estes quatro momentos estão bem definidos: na minha opinião, fazia sentido abrir o leque para os segundos cartões amarelos.
Segundo aspeto em relação ao protocolo, é referente à frase-base que diz “mínima interferência, máximo benefício”, e decorrente disto vem a máxima: “o vídeoárbitro só pode intervir quando a tomada de decisão pela equipa de arbitragem for um erro claro e óbvio". Não dizem que houve um erro, que seria suficiente. Estão a dizer que eu, vídeoárbitro, se vir um erro não posso intervir? Tem de ser um erro que, à luz de todas as pessoas, seja gritante. Temos então um VAR que custa um milhão de euros por época em Portugal, uma ferramenta que é cara e ao mesmo tempo não a vamos aproveitar quando há erros? Só quando são claros e óbvios? O que faz com que em determinados lances, em que haja potencial para penálti, que já sabemos que vai dividir opiniões, que haja potencial para aqueles cartões que dizemos “laranja”, que o VAR quando olha para esses lances, como não é um erro claro e óbvio, não intervêm e deixa passar. Aquilo que eu mudava no protocolo era isso: sempre que o VAR tiver a convição de um erro, como um penálti ou uma entrada mais violenta, mesmo não sendo claro e óbvio, nessas situações devia chamar o árbitro e passar as imagens para o monitor para ser tomada uma decisão. Eu enquanto árbitro, o que sempre quis já desde que se falava do vídeoárbitro, não era ter alguém a ver-me na televisão e a dizer-me o que devia fazer, eu queria era ter a possibilidade ter comigo uma possibilidade qualquer em que eu,depois de tomar uma decisão qualquer, tivesse a possibilidade de rapidamente rever a decisão para saber se a mantinha ou não. Nunca pedi que tomassem as decisões por mim, queria era ter as imagens para poder decidir. E é para aí que temos de ir: estamos a colocar muito ónus no videoárbitro para ajudar a tomar as decisões do árbitro; eu acho que o VAR existe para passar as imagens de potenciais situações para o árbitro no terreno do jogo poder analisar. Manter o ónus no árbitro, com a ajuda de imagens externas.

Fala muito da proatividade e da sua importância na arbitragem. 

É uma luta que eu tenho na formação dos treinadores e dos árbitros. Eu tenho dois jogadores adversários que chocam um com o outro e posso ter duas posições: ou reativo, deixo que eles se levantem e entrem em confronto e depois castigo-os disciplinarmente; ou percebendo que eles estão picados, antes que eles se levantem do chão, estou no meio deles para evitar o confronto. É esta proatividade que acho importante. Hoje em dia, os árbitros já fazem observação dos jogadores que vão apitar, um trabalho iniciado pelo José Peseiro num estágio de duas semanas de profissionalização iniciado pelo Vítor Pereira. Na altura, ia apitar um FC Porto – União de Leiria e o Peseiro explicou-me que quando o Leiria fosse marcar um canto com dois jogadores, o canto ia para o segundo poste; se for outro jogador, vai para o primeiro poste. Se o Helton agarra a bola num canto, ele mete-a com as mãos a mais de 30 metros. E no jogo isso aconteceu mesmo e permitiu-me posicionar-me dentro do relvado. Isto para dizer que a partir daí começamos a estudar melhor o jogo e a ser proativos. Duas situações que são paradigmáticas e que são públicas em que tornei o jogo mais difícil e outro em que tornei mais fácil.
O Pedro Barbosa foi o jogador mais difícil que apanhei, apesar de agora sermos amigos e irmos a casamentos juntos. Era muito educado: fiz um Rio Ave- Sporting e quando o Rio Ave já vencia por 4-0, a bola vai para fora e o Pedro Barbosa vem ter comigo, mãos atrás das costas: “Senhor árbirto, peço imensa desculpa estar a incomodá-lo neste momento do jogo, mas quando um jogador é agarrado e empurrado dentro da grande área isso é falta?” Ele era difícil porque era sarcástico. É uma situação difícil de gerir mas neste jogo tornei tudo mais difícil porque respondi à letra. Pus as mãos atrás das costas e disse-lhe: “Não faço a mínima ideia, isso é a lei 12 e eu só estudei até à 11.ª”. A partir daí, perdei a mão em relação ao Pedro Barbosa, dei-lhe azo para que viesse dizer-me mais coisas. Para mim, serviu-me de reflexão para nunca mais fazer isto.
No outro lado temos o João Vieira Pinto, acabadinho de vir do Mundial de 2002, onde supostamente tinha dado um murro ao árbitro, a vida pessoal estava a mudar por causa do divórcio, e passado uns tempos vou fazer um Marítimo – Boavista e antes deste jogo, ele tinha sido expulso duas vezes no espaço de um mês por mau comportamento. Quando estou a preparar o jogo, digo para a minha equipa de arbitragem que já sei que o João Vieira Pinto vai cair no chão, com falta ou sem falta, e eu ainda por cima marco poucas, ele vai reclamar comigo mas eu vou fazer uma coisa diferente dos outros árbitros e não o vou expulsar. O João Vieira Pinto atirou-se para o chão, protestou e eu, no meio do jogo, vou ter com ele ao chão, puxo-o para mim e disse-lhe ao ouvido: “Tenho imenso respeito e consideração por si, é um excelente jogador, sei que não está a passar um momento fácil, mas fale comigo com a mesma tranquilidade com que estou a falar consigo. Se for falta, venha-me dizer”. E ele ficou espantado e no final do jogo vem entregar-me a camisola e disse-me nos olhos que nunca ninguém lhe tinha tratado assim. A partir daí, nunca mais tive problemas com ele.
Nos jogos a seguir, ele vinha ter comigo e perguntava se estava tudo bem comigo e perguntava pela minha mulher e eu pensei: “é pá! (risos)”. Isto para dizer que ganhei o João Vieira Pinto para aquele e para os jogos seguintes.

Que balanço faz do workshop e do treino com os árbitros de São Miguel?

O centro de treino correu bem, fui bem recebido e integrei o treino como se fosse um árbitro. Fiz o aquecimento e fizemos um treino mais técnico, a chamada “tomada de decisão”, com lances de fora-de-jogo e entradas em tackle, tendo passado pelas mesmas situações como fosse um árbitro. No final, partilhamos as dúvidas e questões e aproveito para opinar sobre o que tinha corrido bem ou menos bem. Depois, seguimos para o núcleo onde passei a minha mensagem daquilo que é a minha experiência como árbitro, como comentador, a visão que tenho da arbitragem. Passei as mensagens do estado de espírito do açoriano em relação ao árbitro, a questão da insularidade que os afasta dos centros de decisão e os pode prejudicar na carreira. E partilhei alguns conselhos a partir da minha experiência.

Para quando um árbitro principal açoriano na I Liga?

É uma questão que me colocam muitas vezes. Sempre que um árbitro açoriano vai ao Continente, ele é avaliado por observador que dão notas. Enquanto que um árbitro do continente muitas priva, no bom sentido da palavra, com esses observadores, em virtude dos jogos e dos cursos, o açoriano acaba por ser um outsider. Eu comparo muito isso com as relações entre homens e mulheres. Uma mulher para estar a desempenhar os mesmos cargos que um homem tem de trabalhar muito mais que o homem para chegar ao mesmo cargo. Quando um observador vê um árbitro conhecido ou um 'maçarico', tem tendência para penalizar mais o árbitro que não conhece. Ainda há este estereótipo de quem classifica, quem avalia. Não é uma questão de qualidade: é verdade que onde há mais quantidade, é mais fácil ir buscar mais árbitros.


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