Mau tempo

Tempestades que começaram há um mês deixaram cenário de devastação em Portugal

Um “comboio” de condições meteorológicas extremas originou há um mês um cenário de devastação em Portugal, sobretudo em Leiria, com pelo menos 18 mortos e muitas casas destruídas, o que levou o Governo a disponibilizar 3,5 mil milhões de euros



As depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados, obrigaram o Governo a responder com medidas excecionais e urgentes, tendo sido realizados três Conselhos de Ministros em oito dias.

A primeira depressão a chegar foi a Kristin, que na madrugada de 28 de janeiro se intensificou de forma muito rápida, com ventos na ordem dos 200 quilómetros por hora e chuva forte que destruíram ou danificaram inúmeras habitações e infraestruturas.

Muitas populações ficaram isoladas, sem luz, água e telecomunicações. Os distritos mais afetados foram Leiria, por onde a tempestade entrou no território continental (só a capital de distrito já contabilizou 792 milhões de euros em prejuízos, ainda sem fechar o balanço), Coimbra, Santarém e Lisboa.

Um mês depois, ainda há quem não tenha eletricidade ou telecomunicações na totalidade ou de forma estável. Na quinta-feira, a E-Redes (do grupo EDP) indicou que a recuperação do fornecimento de energia está “praticamente concluída”, persistindo “apenas alguns casos mais pontuais”.

Após a avaliação possível, muitas vezes dificultada pela impossibilidade de aceder a algumas freguesias devido à queda de árvores, os executivos municipais procuraram reagir rapidamente.

Logo no dia 30, a Câmara de Leiria lançou uma ação de voluntariado para limpar os destroços. No mesmo distrito, a Marinha Grande pediu ajuda de voluntários para limpeza e recuperação das zonas afetadas, e Pedrógão Grande juntou-se no apelo à doação de lonas e material de cobertura para as habitações danificadas, a que se seguiram outras autarquias.

Sem ter recuperado da Kristin, e com as populações ainda privadas de eletricidade e a precisarem de ajuda para tapar telhados, o país enfrentou a tempestade Leonardo, que colocou em alerta as zonas ribeirinhas, onde acabou por ser necessário evacuar diversas localidades.

Poucos dias depois chegou a Marta, que entrou no território pelo Algarve e se deslocou para norte.

Já com os solos saturados de água e os rios com caudais no limite, agravou-se o cenário de cheias, com a ocorrência de inundações devido à subida das águas de vários rios.

Viveram-se dias desafiantes em várias cidades, como Alcácer do Sal (distrito de Setúbal), que ficou inundada devido ao transbordamento do Sado, e Coimbra, onde a subida das águas do Mondego levou à rutura de um dique e à consequente derrocada de um troço da Autoestrada 1. Também em torno do Tejo vários concelhos sofreram cheias.

As barragens foram forçadas a libertar grandes volumes de água para evitar inundações descontroladas. A da Aguieira chegou a atingir um volume armazenado de 99% e em Coimbra temeu-se que uma cheia de grandes dimensões pudesse afetar toda a zona ribeirinha do centro urbano. O concelho chegou a retirar de casas e lares perto de três mil pessoas.

Ainda antes, entre o final de janeiro e o início de fevereiro, a Proteção Civil nacional deu conta de que cerca de outras 1.200 pessoas de várias regiões chegaram a ser preventivamente retiradas das habitações e levadas para locais considerados seguros.

Em plena crise, demitiu-se a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, entretanto substituída por Luís Neves.

Entretanto, o Governo nomeou como coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro o antigo autarca do Fundão Paulo Fernandes, que já falou em prejuízos entre os cinco mil milhões e os seis mil milhões de euros.

A EDP estimou em cerca de 80 milhões de euros os impactos provocados pela Kristin. A Infraestruturas de Portugal registou mais de 4.200 ocorrências durante as últimas semanas nas redes rodoviária e ferroviária nacionais e garantiu que já foi “reaberta a quase totalidade da infraestrutura" sob a sua gestão.

Num território que foi comparado a um cenário de guerra, e entre críticas de autarcas e investigadores à falta ou à demora de atuação do poder político e de organismos nacionais, as Forças Armadas empenharam militares no apoio às populações afetadas em ações de vigilância de diques ou de relocalização de pessoas e bens. Em média, estiveram no terreno cerca de 2.000 a 3.000 militares em cada dia de atuação.

Bombeiros de todo o país surgiram para apoiar sobretudo os concelhos do distrito de Leiria, bem como milhares de cidadãos anónimos, que ajudaram na limpeza e em trabalhos de reconstrução, com o contributo de várias empresas.

Na quinta-feira, já depois de ter anunciado um aumento dos apoios para 3,5 mil milhões de euros, o Governo aprovou um decreto-lei que estende a todo o território “o regime de apoios e medidas de simplificação” que vigoravam para 90 municípios, desde que seja comprovado que os danos se deveram às tempestades.

Depois de ter declarado a situação de calamidade em 60 concelhos num primeiro momento, o executivo alargou os apoios primeiro a mais oito municípios e, esta semana, a outros 22, mas admitindo que havia situações que poderiam ter ficado de fora.

A situação de calamidade que abrangia os 68 concelhos mais afetados terminou a 15 de fevereiro.


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