Açoriano Oriental
Fazer uma romaria é como subir uma escada da qual “temos de voltar melhores”

O nome de Procurador das Almas pode parecer, à primeira vista, uma expressão de cariz burocrático ou até mesmo judicial, mas nos ranchos de romeiros esta figura, que vai sempre atrás, desempenha um papel de verdadeiro mediador, contactando com as populações e recolhendo os seus pedidos de oração ao longo da semana de romaria.

Fazer uma romaria é como subir uma escada da qual “temos de voltar melhores”

Autor: Rui Jorge Cabral

Márcio Peixoto tem 45 anos e é funcionário administrativo na Junta de Freguesia da Ribeira Quente. Márcio esteve ligado ao ressurgimento do rancho da Ribeira Quente, em 2001, tendo desempenhado a função de mestre do rancho durante mais de uma década.

Nos últimos dez anos, Márcio Peixoto passou a desempenhar a função de Procurador das Almas. Em declarações ao Açoriano Oriental, Márcio Peixoto afirma que “o Procurador das Almas é o último do rancho e é aquele com quem as pessoas vão contactando e perguntando o número de romeiros no rancho”, ao mesmo tempo que “recebe e contabiliza as orações” pedidas pelas pessoas.

No entanto, salienta Márcio Peixoto, o Procurador das Almas vai “muito para além da contabilidade das orações”, uma vez que “temos de ter tempo para conversar e tempo para ouvir as pessoas, com as suas dificuldades e necessidades”, ao ponto de muitas vezes ter de andar a ‘correr’ para voltar a apanhar o rancho, que entretanto se adiantou na estrada.

O Procurador das Almas do rancho da Ribeira Quente lembra que esta é uma “função muito gratificante porque ouvimos histórias muito difíceis, mas também histórias de agradecimento, de doenças e perdas de familiares, mas também de milagres, somos um pouco os confidentes das pessoas”.

Márcio recorda mesmo um pedido de uma mulher idosa, que tinha acabado de enviuvar e que pedia que o rancho rezasse para que o seu filho, portador de deficiência, não ficasse sozinho no mundo quando ela também falecesse. Mas também já aconteceu a Márcio Peixoto entrar em casa das pessoas para falar com doentes acamados para recolher as suas orações, normalmente o Pai-Nosso e a Ave-Maria.

No fim da última romaria, Márcio tinha contabilizado centenas de orações pedidas ao Procurador das Almas.

Sobre o que significa para si ser romeiro, Márcio Peixoto conclui afirmando que se trata de um “encontro” com Jesus e com cada um dos irmãos do rancho, simbolizando a romaria como uma escada em que se sobe sempre mais um degrau e da qual “temos de voltar melhores pais, melhores filhos, melhores esposos, melhores cidadãos e melhores cristãos”.

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