Discurso de Bento XVI aos bispos portugueses coerente com o pensamento doutrinal de Ratzinger


 

Lusa/AO   Nacional   16 de Nov de 2007, 08:10

As recomendações de Bento XVI aos bispos portugueses só podem surpreender quem desconhece a doutrina que Joseph Ratzinger sempre defendeu, quando responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé, disse hoje à Lusa o padre Noronha Galvão.
Professor de Teologia na Universidade Católica Portuguesa, ex-aluno e amigo de há vários anos do cardeal Ratzinger, o padre Noronha Galvão disse reconhecer no texto do discurso do papa Bento XVI aos bispos portugueses "algumas passagens em que há novidades, mas só no estilo, porventura da responsabilidade da Cúria romana".

    No seu discurso final aos bispos, que marcou o encerramento da visita "Ad Limina" da hierarquia portuguesa ao Vaticano, no fim-de-semana, Bento XVI defendeu um novo modelo de organização da Igreja em Portugal.

    "É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado", afirmou o Papa.

    Bento XVI considerou que este novo modelo eclesial é a "rota certa a seguir" mas sem valorizar em demasia as questões organizativas da própria Igreja.

    As palavras de Bento XVI foram entendidas como um “puxar de orelhas” aos bispos portugueses e lidas como uma apologia da intervenção laical na Igreja, numa perspectiva progressista que aparentemente contraria a imagem de Ratzinger, normalmente conotado com os sectores mais conservadores.

    "No essencial, tudo o que o Papa disse não é nada de novo em relação aos temas doutrinais que sempre defendeu enquanto cardeal e responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé", comentou o padre Noronha Galvão.

    "Bento XVI fala na abundância das graças, um tema que foi o centro de uma homilia que pronunciou em 1996 numa deslocação ao Santuário de Fátima, e na centralidade da figura de Jesus Cristo e na apresentação da Igreja como Corpo de Cristo", referiu.

    "Estes são temas centrais do pensamento teológico do cardeal Ratzinger, reafirmado na Encíclica "Deus é amor". O que acontece é que as pessoas não conhecem o pensamento de Ratzinger, sempre o associaram a decisões mais mediatizadas da sua acção enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. E mesmo nesses casos, só conhecem as decisões, desenquadradas e descontextualizadas, sem o fundamento que as justifica", acentuou.

    Para o padre Henrique Galvão, as recomendações de Bento XVI destacam a necessidade de uma maior comunhão eclesial, um dos principais frutos do Concílio Vaticano II, no qual, sublinhou, Joseph Ratzinger colaborou intensamente como perito oficial.

    "O que o papa vem recordar é que cada um deve ser fiel à sua vocação. Se por um lado é necessário integrar cada vez mais os leigos na Igreja também é necessário respeitar o papel que cada membro do clero, bispos, presbíteros (sacerdotes), religiosos e diáconos, deve ter na Igreja", afirmou.

    E esse, indicou, é o verdadeiro espírito do Concílio Vaticano II, pelo que, na sua opinião, o "recado" de Bento XVI não se destina apenas à Igreja Católica portuguesa mas a todas as igrejas locais.

    "Essa necessidade de fidelidade ao Vaticano II tem sido uma preocupação constante de Joseph Ratzinger, uma mensagem que sempre transmitiu enquanto cardeal e agora como Papa. Como as pessoas nunca se preocuparam em conhecer o seu pensamento agora acham que o que está a dizer é novo ou contrário ao que defendeu quanto estava à frente da Congregação para a Doutrina da Fé", explicou.

    "Não deixo de notar em algumas passagens uma ou outra novidade no estilo, talvez porque o texto tenha sido preparado pela Cúria, com base nos relatórios dos bispos portugueses. Mas o pensamento é o dele e está na linha do que sempre defendeu", reafirmou.

    O padre Noronha Galvão sublinhou ainda que é estilo próprio de Raztinger "não perder uma ocasião para dar recados", como aconteceu agora.

    No entanto, afirmou não dispor de elementos sobre o modo como decorreram as visitas "Ad Limina" (que por norma se realizam de cinco em cinco anos) aos papas anteriores, nomeadamente João Paulo II, para poder dizer que nesta visita tenha havido novidades em termos do tom da intervenção de Bento XVI.

    Para o professor de Teologia, o desconhecimento de quem é verdadeiramente e o que pensa o cardeal Joseph Ratzinger é o grande responsável pela onda de comentários que se seguiu ao discurso de Bento XVI aos bispos portugueses.

    Em Abril de 2006, num encontro com jornalistas promovido pelo Patriarcado de Lisboa para assinalar o primeiro ano de pontificado de Bento XVI, o padre Noronha Galvão já tinha sublinhado esse aspecto.

    “Este primeiro ano de pontificado do Papa parece-me ter sido o da descoberta do verdadeiro Ratzinger que alguma opinião pública tinha encoberto com clichés ligados à sua responsabilidade como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Ao facto de esta função ter os seus próprios limites, acresceu que a sua acção foi, frequentemente e por diversas razões, mal apresentada e interpretada. Para alguns, tudo o que vinha do Vaticano, com que não concordavam, era por culpa do cardeal Ratzinger”, disse na altura.

    Referiu, a propósito, que Ratzinger é habitualmente associado ao afastamento do teólogo Hans Kung, quando na verdade não era ainda responsável por aquela Congregação, sucessora do Santo Ofício, na altura em que não foi dada autorização às aulas leccionadas pelo teólogo.

    Pelo contrário, Ratzinger recebeu Hans Kung, com quem teve uma longa conversa durante várias horas e de que ele próprio redigiu o comunicado final, esclareceu.

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