Dança contemporânea e teatro fundidos

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Rui Leite Melo   Cultura e Social   31 de Out de 2008, 09:44

Esta sexta-feira é apresentado “Malgré Nous, Nous Étions Lá”, coreografia que marca o regresso de Paulo Ribeiro ao palco, que partilha com Leonor Keil. Amanhã, esta apresenta-se sozinha com uma “Noite de Reis”, de Shakespeare. É a dança contemporânea no seu melhor
Dois espectáculos diferentes, um e outro marcados pela originalidade e pelo arrojo criativo, por contraste com a simplicidades de adereços. É a Companhia  Paulo Ribeiro, que traz até nós dois espectáculos distintos para uma mesma sala, a do Teatro Micaelense.
Apresentando-se como uma companhia de dança com um trabalho bastante característico, o que podemos esperar de “Malgré Nous, Nous Étions Lá” que hoje apresentam no Teatro Micaelense? 
Paulo Ribeiro:Como um acidente de percurso, como uma prova de como nós, homens, estamos subjugados ao poder feminino... A verdade é que fui obrigado a voltar ao palco pela Leonor, a minha mulher. Desde há muito que deveríamos fazer um dueto, que devíamos partilhar essa ligação entre coreógrafo e intérprete e se não fosso agora, no futuro seria mais difícil. Acabou por acontecer uma peça que resultou numa empatia enorme. Já estivemos em locais como Zagreb, onde ninguém nos conhece e onde tivemos de traduzir os textos para inglês e onde no primeiro dia tivemos casa cheia. No segundo dia as pessoas ocupavam os corredores e as escadas. Em França disseram-nos que tínhamos alcançado “a dimensão do toque”. Não sei, se calhar a força desta peça se deva ao facto de ser feita por duas pessoas que vivem e partilham muito há muitos anos. Por isso acontece uma química.
Existe maior cumplicidade entre os artistas em palco?
Paulo Ribeiro: A dança é algo que herdou muito de uma certa imagem esteriotipada. Basta reparar para ver que a maior parte dos bailarinos  dança com o olhar vazio. Fazem coisas muito bonitas e virtuosas mas não se sabe bem para onde olham ou se estão mesmo ali. É mais o ficar bem, o estético, afinal a grande diferença entre o bailado e a dança. Na nossa dança, seja feita por nós dois ou por outros, o que interessa é que haja algo que seja verdadeiro na altura e que isso transpire e passe cá para for a. É essa a nossa preocupação, além da artística, claro.
Sobre a “Noite de reis”, a apresentar amanhã?
Paulo Ribeiro - É um teatro físico, onde a palavra acontece mesmo que secundária. A Leonor Keil passa pela Noite de Reis, de Shakespeare,  e também encarna sozinha dez personagens e um cão, algo que em termos de exercício de interpretação é muito forte e exigente. Temos tido reacções fantásticas, por isso às vezes tenho pena que entre o continente e os Açores não aconteçam mais coisas. Às vezes acontece mais uma relação com o Brasil, por exemplo, do que com os Açores. Parece que vivemos um tanto isolados uns dos outros. Mas por outro lado, permanece um preconceito em relação à dança. É verdade que muitas vezes a dança é uma linguagem difícil, mas não serão todas as danças ou autores. Há cada vez mais uma coisa muito em voga que é o fazer para nada dizer. É o culto do absurdo, ou o culto da negação, e a dança passa muito por aí, mas nem todos os autores. A dança pode ter um lado muito forte e apelativo e por isso eu digo que é uma pena não trabalharmos mais juntos, nós e os Açores.
O público açoriano é caracteristicamente fechado ou “difícil”. Que recepção esperam conseguir?
Leonor Keil: Acho que no continente a situação não é diferente. Nós portugueses somos um povo comedido, um povo que tem medo de se exprimir , de soltar gargalhadas ou de verter uma lágrima. Note que à Madeira nunca fomos. Se calhar quem antes visitava a Madeira e os Açores era a Gulbenkian e a Companhia Nacional, pelo que todo o resto ainda está muito fechado. Trazemos um espectáculo simples e bonito, mas para essa simplicidade nem todos estão preparados e ficam desarmados. A peça “Noite de Reis” tem uma hora e as pessoas pensam que é dança e esperam uma bailarina. Fisicamente posso ir muito mais longe do que um actor normal, mas preciso de reacção do público pois estou sozinha em palco. Em Leiria, de início, o público sentiu-se um tanto enganado ou baralhado, pois esperavam dança de uma companhia de dança, mas tal não significa que não possamos ultrapassar isso. Durante meia hora não reagiram, mas no final gostaram imenso.
A Companhia Paulo Ribeiro tem  também um projecto pedagógico...
 Leonor Keil –  O objectivo deste projecto pedagógico é chegar a uma Escola Profissional de Dança. Chama-se Lugar Presente e começou há cinco anos, ainda no Teatro Viriato. Começámos com aulas simples de teatro para crianças e adultos.  O nosso foco principal é a formação de qualidade de crianças a partir dos 10 anos, que é a idade correcta para se começar este tipo de modalidades. Em cinco anos já temos cerca de quatrocentos alunos e a maioria são crianças.

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