Economia

Crise ainda não chegou à venda de automóveis mas já espreita

Crise ainda não chegou à venda de automóveis mas já espreita

 

Rui Jorge Cabral   Regional   25 de Nov de 2008, 10:14

Crescimento praticamente “zero” nas vendas nos últimos 12 meses, subida artificial no Verão inflacionada pelas “rent-a-car”, maiores restrições na concessão de crédito por parte dos bancos e dificuldade em escoar os veículos usados são factores que fazem antever um 2009 difícil para o sector
Não podia ser mais enganador  o aumento de 14 por cento na venda de automóveis novos nos Açores entre os meses de Julho e Setembro deste ano. Um aumento que se deveu sobretudo à habitual renovação de frotas por parte das “rent-a-car”, muitas delas integradas em grupos também concessionários de marcas. Mas a realidade dos últimos doze meses indica um tímido crescimento de apenas 0,6 por cento, que poderá até ser absorvido nos últimos três meses do ano se os Açores começarem já a sentir os efeitos da crise mundial que afecta neste momento o sector automóvel, com fortes quebras de vendas e reduções na produção. 
“Numa conjuntura que não é favorável, o mercado automóvel é sempre dos primeiros a ressentir-se, porque as pessoas podem adiar para uma altura melhor a compra de um carro novo”, afirma ao Açoriano Oriental Duarte Silva, director-geral da CentrumAçor. Antero Rego, gerente do Grupo Ilha Verde para o sector automóvel, é mais prudente. “Ainda é cedo para tirarmos conclusões, porque agora é fácil dizer que qualquer variação negativa na venda de automóveis tem como causa a crise internacional”, refere, ao mesmo tempo que lança o alerta: a crise no sector automóvel já se verifica desde 2003, ano em que as vendas de automóveis em Portugal bateram no fundo “e ainda não levantaram”, lamenta.
A maior dificuldade está, segundo Antero Rego, “no travão que os bancos - aí sim, devido à crise financeira -  estão a colocar nos créditos à compra de automóveis, sentindo-se aí mais dificuldade naquele cliente que há uns tempos atrás ainda tinha crédito mas que agora já não o tem”, afirma. Uma visão que também é partilhada pelo director-geral da CentrumAçor, Duarte Silva, que nota uma retracção dos bancos em relação ao crédito automóvel, com os automóveis da gama média/baixa - de longe os mais vendidos nos Açores - a serem os mais penalizados.
O administrador da 296 - Comércio Automóvel, João Medeiros, lembra o ano anémico que os Açores estão a enfrentar na venda de automóveis novos, apenas com uma subida muito anormal no mês de Julho, que João Medeiros associa ao fenómeno “rent-a-car”, com uma renovação de frotas que diz “distorcer” as estatísticas de vendas de viaturas novas nos Açores, uma vez que essas vendas não são feitas directamente para o mercado particular.
João Medeiros acredita que o mercado já se ressente da situação de crise por que passa actualmente a indústria automóvel e admite que o mês de Dezembro deste ano não venha a ser aquele tradicional mês de aumento de vendas, antevendo até que 2009 venha a ser também um ano difícil. A comprová-lo está outro aspecto que nem sempre é falado mas que conta muito para as empresas do sector automóvel, que é o pós-venda. “Existe já algum decréscimo na procura de peças e de serviços de oficina e isso demonstra logo um aperto na tesouraria das famílias”, afirma o administrador da 296 - Comércio Automóvel.
Outro factor limitador da venda de automóveis novos em Portugal é a excessiva carga fiscal. Um velho problema que teima em manter-se, com os agentes do sector a considerarem que o automóvel é mesmo uma grande fonte de renda para o Estado.  “Não é a primeira vez que o Governo utiliza o sector automóvel, através dos seus impostos, para colmatar algumas das suas deficiências orçamentais”, lamenta Duarte Silva, da CentrumAçor. “Se o preço dos carros fosse mais em conta, as pessoas comprariam carros em ciclos de anos mais curtos, teríamos mais segurança e o próprio Estado arrecadaria mais impostos, resultantes das maiores vendas, apesar da menor taxação”, garante por seu lado Antero Rego, do Grupo Ilha Verde.
Por fim, também a venda de usados se está a ressentir, talvez com excepção do mercado dos chamados “seminovos”. Para Antero Rego, o problema neste mercado está sobretudo no crescimento do número de empresas de venda de automóveis usados e na “concorrência desleal” que essas promovem ao não garantirem as mesmas condições que os stands de marca. Mas também o aperto na concessão de crédito  contribui para que o mercado de usados esteja a retrair-se.

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