Sociedade

Comunidade cigana da Quinta da Fonte tranquila

A comunidade cigana do bairro da Quinta da Fonte, Loures, encontrava-se hoje de manhã calma, mas insatisfeita com a "incerteza do futuro", junto ao pavilhão que durante os próximos dois ou três dias continuará a servir-lhe de casa.


Enquanto técnicos da Câmara de Loures e da Segurança Social começam a traçar um retrato de cada uma das cerca de 50 famílias ciganas que saíram da Quinta da Fonte, os moradores insistem que o seu futuro "não pode passar" pelo regresso ao bairro, onde na semana passada houve confrontos violentos entre as comunidades cigana e africana que ali vivem.

    "Para a Apelação não voltamos de certeza. Só se quiserem encomendar caixões na funerária", declarou à Lusa José Carlos, um dos moradores.

    Também José Fernandes, que tem funcionado como uma espécie de porta-voz da comunidade, apela às autoridades para que não se decidam "pelo que não pode ser feito": "não nos voltem a pôr no bairro".

    No entanto, tanto a Câmara Municipal de Loures como o Instituto da Segurança Social já asseguraram que o futuro desta comunidade cigana passará certamente por um regresso àquele bairro da freguesia da Apelação.

    "Hoje vai ser feita a triagem e as necessidades efectivas de cada uma das famílias. Vamos tentar encontrar com a Segurança Social situações de compromisso", declarou à Lusa o vereador do Urbanismo, José Gouveia, acrescentando que durante dois ou três dias estes habitantes irão permanecer no pavilhão cedido pela autarquia.

    Apesar de estarem à procura de uma alternativa temporária, o autarca diz que depois de arranjadas as casas destruídas na sequência dos confrontos entre as duas comunidades, a solução final passará pelo regresso dos habitantes de etnia cigana ao Bairro da Quinta da Fonte.

    Da mesma opinião é o presidente do Instituto da Segurança Social, Edmundo Martinho, que afirma que “o objectivo último é [estes moradores] voltarem ao bairro”.

    A Segurança Social e a Câmara vão tentar encontrar um alojamento provisório para os moradores de etnia cigana para os próximos quatro meses, até que as casas vandalizadas sejam recuperadas.

    Segundo Edmundo Martinho, este período de tempo também vai "permitir criar condições no bairro para que o regresso se faça em condições de normalidade".

    Perante as declarações destes responsáveis, que hoje se deslocaram ao pavilhão onde estão alojadas as famílias que saíram do bairro, a comunidade cigana da Quinta da Fonte mostra-se irredutível: "não podemos voltar a ir para lá. Isso nunca", afirmaram alguns dos moradores.

    Mesmo estando contra esta solução, os habitantes seguiram ordeiramente as instruções dos técnicos autárquicos e da Segurança Social para iniciarem os inquéritos que vão permitir traçar um perfil individual das necessidades de cada família.

    Nos próximos dois a três dias, o Pavilhão José Gouveia, em São João da Talha, continuará a servir de casa a esta comunidade.

    Embora alguns moradores apontem falhas a este alojamento improvisado, muitos outros consideram-no "melhor que nada" e "agradecem muito" o apoio que lhes foi dado pela Cruz Vermelha durante a noite.

    Descontentes ficaram por durante a manhã não lhes ter sido fornecido pequeno-almoço, sobretudo porque há muitas crianças que pernoitaram com os pais naquelas instalações.

    O presidente do Instituto da Segurança Social reconheceu que houve uma falha no fornecimento da refeição da manhã, mas assegurou que nos próximos dias será garantida a alimentação a estas famílias.

    A inquietação quanto ao futuro mantém-se nos moradores ciganos da Quinta da Fonte, que ao início da manhã ameaçavam voltar a manifestar-se junto à Câmara de Loures, uma intenção que se mantinha depois das 12:30, segundo disse à Lusa José Fernandes, um dos porta-vozes do grupo.

    "Estamos tranquilos à espera que se vá realizando o rastreio às famílias. Mas o mais provável é que ainda hoje voltemos à Câmara", afirmou.
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