Carnaval da Califórnia com sabor terceirense

Carnaval da Califórnia com sabor terceirense

 

Tatiana Ourique / AO Online   Regional   10 de Fev de 2019, 17:16

Alguns aprendem o português dos pais e avós só para poderem representar ou cantar nas danças e bailinhos. Outros fazem viagens de 6 horas aos fins de semana para poderem ensaiar. Durante a semana valem as novas tecnologias e até o Trump e a SATA inspiram na hora de escrever os assuntos. O Carnaval na Califórnia também tem sabor a filhós terceirense.


É na garagem de Jimmy Enes que o bailinho do grupo “Juizinho na Cabela” vai sendo cozinhado. Jimmy tem nome americano e sobrenome português, como a maior parte dos seus colegas de grupo. É dos que ainda fala e escreve português com facilidade. O pai nasceu em Santa Bárbara e a mãe nas 5 Ribeiras, ambos na ilha Terceira. Jimmy nasceu na Artesia, Califórnia, há 36 anos, mas diz ter sentido os sons, cheiros e cores do carnaval da Terceira através das histórias que os pais contavam: “falavam do entrudo, dos mascarados, dos músicos e atores das suas freguesias e a tristeza de não poder sair num bailinho por terem uma família pobre e numerosa.”

As imagens e sons chegavam-lhe também através das cassetes VHS que vinham nas malas de quem tinha tido a sorte de ir à Terceira pelo entrudo. Nelas compilavam-se “as melhores danças do ano anterior”.

Mas o carnaval não se fazia nas comunidades apenas de recordações. Há mais de três décadas que nas comunidades açorianas nos EUA (o fenómeno também acontece no Canadá) existem danças e bailinhos, mas mais ou menos organizados: “estes grupos deslocavam-se semanas antes do Carnaval a várias comunidades do estado da Califórnia, onde cada grupo apresentava quase sempre uma dança de crianças, uma dança de espada e a dança de pandeiro de homens para fechar o espetáculo.” Jimmy garante que já em criança tinha uma certeza: sempre quis ser um deles!

        A vida foi acontecendo e Jimmy casou com uma terceirense, também ela apaixonada pelas tradições. Cindy também participa em danças e bailinhos e o marido garante que ela “tem mais jeito” do que ele mas o casal de filhos pequenos obrigou a que alguém tenha que se sacrificar. “Este ano é ela a sacrificada”, diz Jimmy em jeito de brincadeira. Foi também pelo conforto dos filhos pequenos que o casal Enes decidiu oferecer a garagem ao grupo para os ensaios.

“Há quem faça 6 horas de viagem para vir ensaiar e às vezes também ensaiamos por videochamada” para que os que moram mais longe não se sacrifiquem tanto. “Juntamos os elementos do assunto semanas antes para decorar e melhor interpretar o assunto. A 3 semanas do carnaval os músicos e dançarinos juntam-se também ao bailinho e ensaiam durante a semana. Também aproveitamos o fim de semana para algumas horas extra.”

Nem todos os elementos do grupo falam português e no estudo dos assuntos os pais e avós dão uma mãozinha: “Com muito sacrifício. São horas e horas a ler, repetir, imitar certos sons que infelizmente, hoje em dia não são habituais no dia a dia. São os avós que treinam os textos com os netinhos. Por vezes nem eles sabem o significado de algumas que não são palavras da quarta classe. No fundo o que os move é o amor à tradição herdada dos nossos pais”.

O jovem americano descreve a paixão pelos bailinhos com alguma poesia: “Chegar a um salão e encontrar os amigos da escola, brincar, comer as filhós (e não uma malassada) acabadinha de sair. De repente rompe-se um silêncio, sentamo-nos na escuridão para ver a dança com vestuários brilhantes, músicas vivas e personagens que, mesmo sem perceber bem o que dizem, cantam, ou interpretam, sacam um gargalhada ou salva de palmas. Foi assim o sentimento vivido e que passou entre a nossa geração, e muito queremos que passa para os nossos filhos”, mas assume que o contacto com os Açores é, também, um fator importante na ligação afectiva a estas tradições.

        O grupo “Juizinho na Cabeça” da Artesia é composto por 15 elementos e leva a cena um bailinho escrito pelo veterano João Mendonça, as cantigas são do jovem José Esteves e os arranjos musicais foram criados pelo grupo. Este ano o assunto tem como tema: “O Amor Foi Sempre Assim”.

O bailinho de 15 homens garante que o apoio e colaboração das mulheres são essenciais em todo o processo: “Os trajes ficam a cargo das nossas mulheres. São as verdadeiras heroínas que impulsionam o sonho do bailinho para realizar o look em palco. Tecidos, sapatos, maquilhagem, brincos, batom, cabelos, e não esquecendo das horas que ficam a cuidar dos nossos filhos para que possamos ensaiar e concentrar. Uma viva a elas!”

       A comunidade portuguesa nos Estados Unidos perdeu um elemento agregador importante no último ano,John Martins, o cônsul-honorário de Portugal nos Estados Unidos partiu inesperadamente e o grupo pretende homenageá-lo com o bailinho deste ano.


O Trump e a SATA põem-se muito a jeito!

        Uma vez que as danças e bailinhos abordam assuntos da atualidade é importante saber que temas entram nestes “enredos” que vão valorizando, ano após ano, o papel da mulher. Jimmy garante que “nos últimos anos temos vindo a ver (e bem) cada vez mais mulheres em palco com personagens de peso. Apresentamos por cá assuntos também relacionados com a política americana (com este presidente as piadas surgem naturalmente) e açoriana, críticas sociais, assuntos das comunidades Luso-Americanas e locais, desabafos do dia-a-dia e, quase sempre o serviço prestado da SATA ao emigrante. Essa então nunca falha! No fundo, temos um pé na América e outro nos Açores”.

        Os 9 palcos que recebem os bailinhos na Califórnia ficam nas cidades de Modesto, Turlock, São José, Tulare, Hanford, Artesia e Chino. Este carnaval não é tão espontâneo como na terra de origem. As atuações estão organizadas por zonas e cada salão está aberto 2 dias.

        Tal como nos Açores estes grupos também celebram o dia de amigos e amigas que são efemérides indissociáveis do Carnaval para não falar nos “comes e bebes” típicos em dias de ensaios.

Para Jimmy as danças e bailinhos vão muito para além da língua. A música, a cor, os sabores e as emoções ultrapassam as barreiras linguísticas e por isso as danças e bailinhos ganharam a simpatia de todo aquele que se junta a um terceirense nas comunidades.

“O Carnaval da Califórnia “pegou” e hoje em dias já abrange descendentes de outras ilhas, regiões e também outras etnias.”

 



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