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Reino Unido/Eleições
Canções de Natal não alegram eleitores em Manchester

As ruas estão iluminadas, há mercados de Natal rua sim rua não, com cheiro a canela e canções alegres, mas para algumas pessoas em Manchester esta não está a ser “a mais maravilhosa altura do ano”.

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Foto: ANDY RAIN/EPA
Autor: Lusa/AO Online

“Não estou otimista neste momento” disse à Lusa David, 54, enquanto comia o seu crepe entre duas barraquinhas de comida num mercado do centro da cidade do norte de Inglaterra, a quatro dias das eleições de quinta-feira.

Após ter lido os programas eleitorais de todos os partidos, David acredita que o primeiro-ministro, Boris Johnson, e os conservadores “representam uma verdadeira ameaça para a democracia”.

“O programa contém medidas que retiram poderes ao parlamento e ao judicial - vai haver uma considerável transferência de poderes; o ‘Brexit’ vai ser uma desgraça e a democracia social vai acabar. Andam a tentar há 30 anos, acho que vão conseguir o que querem”, lamentou David, que vai votar nos Verdes”.

Questionado se não seria melhor votar nos trabalhistas para tentar impedir a maioria conservadora que as sondagens preveem, este eleitor disse que no seu círculo de Stockport a vitória dos ‘Tories’ está garantida, pelo que o seu voto é irrelevante”.

“Mais vale votar com a minha consciência”, disse.

Atitude diferente vai ter uma professora universitária que não quis dar o nome à Lusa.

Residente no círculo eleitoral de Hazel Grove, onde o combate é entre os conservadores e os liberais democratas, a docente vai votar nos ‘lib-dem’ para impedir a maioria dos ‘Tories’, apesar de ser desde sempre apoiante dos Trabalhistas.

“Há 20 anos que exerço voto tático só para evitar os conservadores”.

Também esta eleitora não estava contagiada pela agitação natalícia à sua volta: “Tenho uma perspetiva muito sombria, estou muito deprimida. Acho que vai haver um governo conservador e uma elite vai ganhar muito dinheiro com isso”.

Reconhecendo que o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, “não é um bom líder”, a professora diz que os conservadores “estão muito à direita, têm desprezo pelos trabalhadores, são racistas e misóginos.

“Será péssimo para o país. Já vimos um aumento das desigualdades, vimos a austeridade, cortes radicais na despesa no setor publico, já morreram pessoas. Vai haver mais fuga de cérebros”.

A cidade de Manchester, a quinta maior do Reino Unido, com cerca de 500 mil habitantes – até três milhões se contarmos a área metropolitana – está incluída no chamado “muro vermelho”, numa alusão à cor do partido trabalhista, uma vasta área que atravessa o norte de Inglaterra de leste a oeste e inclui outras grandes cidades como Liverpool, Sheffield e Hull.

É uma vasta área tradicionalmente trabalhista, mas onde as divisões provocadas pelo ‘Brexit’ dão aos conservadores a esperança de ganhar alguns círculos eleitorais, essenciais para o seu desígnio de ganhar as eleições de quinta-feira com maioria absoluta.

Janice é um exemplo do tipo de eleitores que os conservadores procuram cativar. Já decidiu votar nos conservadores, após décadas a votar nos trabalhistas.

“Muitas pessoas com quem falo vão votar nos conservadores. As pessoas votaram sair [da União Europeia no referendo do 'Brexit] e as políticas do ‘Labour' não são para sair”, resumiu, acompanhada pelo marido e duas filhas, uma das quais já vota.

Para Janice a questão não é só o ‘Brexit’, é também o líder – “não gosto do Jeremy Corbyn” – e as medidas propostas pelos trabalhistas: “Se fizerem tudo o que dizem vão levar-nos para a recessão. São falsas promessas. De onde vem o dinheiro? Toda a gente gosta de passeios grátis, mas não há passeios grátis”.

O marido, Paul, construtor civil de 55 anos, está menos convencido: “É uma perda de tempo. Estão todos nisto para retirar benefícios, não fazem nada pela classe trabalhadora”.

“Vou votar, mas estou dividido. Eles gastam a maioria do dinheiro no sul”, reconheceu, levantando um tema que se repete nas conversas em Manchester.

A divisão Norte-Sul é um tema usado frequentemente pelos políticos, e contra os políticos, para destacar as desigualdades no Reino Unido, e em campanha eleitoral o assunto ganha mais força.

“Há promessas de investimento no Norte, mas há sempre antes das eleições gerais e acabam sempre por falhar, não tenho esperanças em nenhum deles”, disse John Paul, 39 anos, que trabalha na área dos seguros de saúde em Manchester.

O eleitor explicou que a questão não é entre as pessoas do norte e do sul o problema é que “as pessoas que lideram não olham para o Norte”.

“Há muito dinheiro gasto em Londres, em transportes, em infraestruturas, mais empresas, mais empregos. No Norte não há tanto investimento em infraestruturas, não há tantos incentivos para as grandes empresas. Chegar do este ao oeste aqui no Norte é uma luta – os transportes são maus”, exemplificou.

Sobre o que fazer na quinta-feira, John Paul está indeciso entre os trabalhistas, que “não vão aplicar o dinheiro de forma inteligente”, e os conservadores, que “não vão aplicar o dinheiro em mais nenhum lugar além do centro de Londres”.

Kerry Potter, 49, diretora de uma escola, concorda que há aspetos de privação social que se destacam no Norte e exemplifica com as escolas pequenas em zonas rurais que são “muito afetadas pelos cortes na educação”.

“Às vezes o Norte não é muito visível”, afirma, recordando o caso da barragem de Whaley Bridge, cujo perigo de colapso obrigou a retirar 6,500 pessoas em agosto.

O primeiro-ministro acabou por se deslocar ao local, mas “demorou muito tempo. Se tivesse sido no sul a resposta teria sido muito mais rápida”.

Kerry Potter, que normalmente vota nos trabalhistas, “mas não sempre”, ainda não sabe em quem votar, mas até quinta-feira promete decidir.

Enquanto isso, o som das músicas de Natal continuará a tentar alegrar as ruas de Manchester e de tantas outras cidades, apesar de alguns não se deixarem contagiar.


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