Açoriano Oriental
Andreia Rosa criou “A Croma dos Livros”
Booktuber: os encantos da leitura na internet

Andreia Rosa é uma sonhadora e disse-o a toda a gente aos 18 anos quando publicou o seu primeiro livro – “A Sonhadora”, pela chancela da Edições Vieira da Silva, um conto que, agora, aos 25, recorda a propósito de uma conversa sobre Booktubers.


Foto: Sónia Bettencourt
Autor: Sónia Bettencourt /AO Online

Falar de livros mas através do vídeo. Parece confuso para quem as obras literárias, por norma, são feitas de papel e se ficam por aí. E continuam a sê-lo, pelo menos neste contexto. A diferença é que a sua crítica faz-se com um rosto e um comentário pertencente a uma comunidade criada a partir do famoso canal You Tube.

Na prática, os booktubers (book = livro + tube = televisão), como são designados, trouxeram os encantos da leitura para as redes sociais, e Andreia Rosa, da Praia da Vitória, assim o faz desde 2013 por detrás do canal “A Croma dos Livros”.

“Na vida real, digamos assim, tinha pouca gente com quem falar sobre livros. E sentia essa necessidade. Descobri o booktube internacional e não via ninguém em Portugal a fazer isso. Então decidi avançar”, conta Andreia Rosa, formada em Comunicação e Media, no Instituto Politécnico de Leiria, recordando as suas primeiras amigas virtuais, também leitoras, nesse grupo de pessoas que cria conteúdos sobre livros para o YouTube. “Os vídeos também eram uma espécie de troca”, destaca.

São várias as formas encontradas pelos booktubers para se expressarem. De opiniões sobre obras, editoras, passando por leituras, até à mostra das aquisições mais recentes nas suas prateleiras, as ideias podem ser mais ou menos “intelectualizadas”. O importante, considera Andreia Rosa, é cada um fazer ao seu gosto e estilo.

“No início seguia as tendências, mas agora considero que já tenho um gosto literário bastante vincado. Portanto já não me importo se está na moda ou não. Aliás, na verdade, hoje, interessa é cada pessoa assumir o seu gosto”, salienta a jovem, especificando que, no seu caso, quem mais recorre ao seu canal são os leitores de poesia por ser o seu género literário preferido. “Cada um tem o seu espaço, o seu ninho, e há lugar para todos”, enfatiza.

Já sobre a relação com as editoras, explica, como o booktuber começa cada vez mais a ser reconhecido no país, com o aumento de pessoas a aderirem ao YouTube e a fazerem vídeos acerca de livros, existe a facilidade de estabelecer parcerias. É a tendência do momento”, afirma.


Mil vezes sonhar

Com ou sem indicação de editoras para abordagens de livros, a verdade, diz Andreia Rosa, é que acabamos sempre por conhecer novas obras. E, por isso, desvaloriza que essas parcerias possam eventualmente comprometer a criatividade e a espontaneidade. “Há opiniões que tendem a agradar, outras são mais genuínas. No fundo, ajuda sempre e dá para conhecer novos livros”, refere.  

Da sua parte, os autores norte-americanos predominam no seu escaparate pessoal e tem o inglês como “língua materna” nas suas leituras por desconfiar das traduções, considerando “tratar-se das palavras já de uma segunda pessoa e não das do seu criador” - Lang Leav, Stephen King e Haruki Murakami constituem o seu “top 3” a nível internacional.

Por cá, divide atenções entre o continente e os Açores, com os autores José Luís Peixoto e Joel Neto, respetivamente. Mas, como não há duas sem três, elenca ainda António Aleixo.  

“Estava a ler o “Arquipélago” em Leiria e consegui visualizar mentalmente a ilha Terceira. O Joel transmitiu tudo o que é ser da ilha, o que é ser ilhéu. Para mim, é um livro para a vida”, salienta a jovem. E acrescenta: “Sinto-me representada num livro pela primeira vez. Penso que isso motiva e ajuda os mais novos a ligarem-se à literatura”.

Contudo a sua própria ligação aos livros é anterior à referida obra do escritor Joel Neto, bem como a sua estreia nas publicações. Aos 18 anos de idade, sonhou e a obra nasceu intitulada “A Sonhadora”, pela chancela da Edições Vieira da Silva. Segundo a sinopse do livro, “é uma história, num lugar não muito distante para qualquer um de nós, onde vive a Sonhadora agarrada às estrelas”.

Passados sete anos desde o lançamento do livro, recorda-se as palavras finais da mesma sinopse: “um dia, perguntaram-lhe para onde iria ela. Sorrindo, respondeu, até onde o sonho me levar”.

O sonho, pelos vistos, levou Andreia Rosa até Leiria ao encontro dos seus estudos superiores, e, naturalmente, teve de adaptar o que havia sonhado até então. A seguir vieram as viagens do programa Erasmus, Polónia e Hungria, em 2015 e 2016, e o mundo – real e literário – nunca mais foi visto e sentido da mesma maneira. Mas, diz a máxima, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

“Depois de entrar para a Universidade, direccionei a escrita para o jornalismo e foi-se apagando o gosto pela escrita criativa. Mas estou a pensar novamente em escrever”, adianta.


Booktubers nas feiras do livro

Para Andreia Rosa, as mais-valias de pertencer a estas comunidades na internet são sobretudo a nível de enriquecimento pessoal e cultural, pois o conteúdo é enorme, diversificado, e pode ser debatido e partilhado à semelhança de uma espécie de “tertúlia”.

“Muitas vezes organizamos maratonas literárias, tudo online. Vamos partilhando experiências, pensamentos e recomendações”, conta a booktuber açoriana, recordando que, por outro lado, já organizou com colegas encontros do género, reais e fora do contexto académico, em Lisboa e Leiria.

E quando acontece o 14.º Outono Vivo – Feira do Livro, na Praia da Vitória, e que traz à cidade nomes como José Luís Peixoto, Miguel Sousa Tavares, Laborinho Lúcio e Elisabete Jacinto, impõe-se a pergunta: que lugar ocupa um evento destes na vida de um booktuber?

“As nossas carências no mundo físico fizeram-nos passar para o digital. Mas agora o online está tão presente que o pessoal começou a sentir falta do espaço físico. No fundo há lugar para tudo”, explica a jovem, salientando que já se organizam clubes de leitura físicos para promover o encontro real das pessoas.

“Então, as feiras do livro são uma boa desculpa para sairmos de casa. Claro que levamos as câmaras de filmar e os telemóveis para o registo dos conteúdos”, destaca.

Neste sentido, a “Croma dos Livros” diz não ter faltado ao certame literário da Praia da Vitória, que considera “espetacular e de elevada qualidade”, e, inclusive, marcou presença na apresentação do livro “Autobiografia” de José Luís Peixoto.

Na percetiva da booktuber, e deixando a sugestão à Câmara Municipal da Praia da Vitória, entidade organizadora do evento, seria interessante o programa conter a presença de criadores de conteúdo online de literatura.

“O que eu gostava não é novo, existe em Lisboa, é juntar os criadores de conteúdos online de literatura com os autores de livros, num espaço parecido com uma tertúlia. Seria a união dos dois lados: físico e virtual”, sugere Andreia Rosa, enaltecendo a aposta na “rica apresentação de livros”. “Mas só ficamos a ver. Assim, nós booktubers, também podíamos enriquecer essa parte para termos o feedback dos leitores”, avança.

O sonho comanda a vida, diz António Gedeão, e assim a sonhadora mais sonhadora de todas, assumida literariamente aos 18 anos com o seu conto, além da promoção da leitura na internet, pretende investir na escrita e produção de documentários para revelar “o pequeno grande mundo dos Açores”. “Temos muito talento por cá”, afirma Andreia Rosa.




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