História

Baía de Angra revela artefactos de naufrágios seculares

Baía de Angra revela artefactos de naufrágios seculares

 

João Aranda e Silva, Lusa/AO online   Regional   25 de Ago de 2008, 11:30

A Baía de Angra do Heroísmo continua a revelar-se uma “arca” de vestígios arqueológicos do século XVI ao XX, com o aparecimento de três novos “sítios” descobertos por uma equipa de nove investigadores de arqueologia marítima.
    José António Bettencourt, responsável pelos trabalhos arqueológicos, revelou à agência Lusa que foram localizados um novo naufrágio, denominado “Angra J”, um túmulo de lastro de embarcação e um terceiro com uma densidade de vestígios que vão do século XVI ao século XX.

    “Junto do naufrágio, que mantém grande parte da sua estrutura de madeira e que é um local com elevado potencial de investigação, foi também localizado um canhão em ferro e um apito em bronze [século XVI], que se supõe fosse usado para chamar a tripulação e que já foi enviado para o Centro de Conservação e Restauro”, adiantou o arqueólogo.

    No mesmo local, foi ainda recolhida uma “concreção” (solidificação) que os técnicos pensam “corresponder a uma espada”, bem como outros objectos em metal e cerâmicas.

    Os investigadores localizaram, também, junto do túmulo de lastro, uma “anforeta” e outras cerâmicas mais comuns.

    O terceiro sítio agora sinalizado, onde existe uma densidade de vestígios que vão do século XVI ao século XX, deverá estar relacionado com a sua utilização como fundeador - zona de ancoragem e actividades portuárias.

    Dentro desta área, segundo José António Bettencourt, “há uma zona cujos materiais - entre eles, potes de cerâmica e cachimbos - possuem uma coerência tipológica e cronológica que se pensa ser do século XIX e que poderá corresponder a outro naufrágio”.

    “A datação dos materiais recolhidos vai ser feita pela sua tipologia em comparação com outros artefactos recolhidos de outros sítios e que já se encontram bem datados”, explicou o arqueólogo.

    O trabalho dos arqueólogos estende-se a uma intervenção num outro naufrágio, denominado “Angra B” - um navio do século XVI ou princípio do século XVII -, no sentido de ser finalizado “o seu registo, de forma exaustiva, em termos de planta, fotografia e análise descritiva”.

    “Os vestígios deste naufrágio serão, no final da campanha, no fim de Agosto, protegidos com sacos e redes, uma vez que nas intervenções feitas, nos últimos dois anos, indicaram que ocorre um processo de erosão que o pode colocar em perigo”, adiantou José António Bettencourt.

    As pesquisas estão a ser feitas no âmbito do Projecto de Investigação Arqueológica Subaquática (PIAS), financiado pela Direcção Regional da Cultura, dotado com 40 mil euros, e que teve o seu início em 2006 e se prolonga até ao próximo ano.

    O projecto é dirigido pelo professor da Universidade dos Açores, José Damião Rodrigues, e do Centro de História de Além-Mar, uma unidade de investigação inter-universitária que une as universidades dos Açores e universidade Nova de Lisboa.

    O seu trabalho desenvolve-se na investigação na área da História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa, nomeadamente a história dos Açores.

    Na Baía de Angra, ilha Terceira, estão sinalizados, a partir de agora, dez locais de naufrágios denominados de “Angra” e numerados de “A” a “J”, e cerca de duas dezenas de sítios com interesse arqueológico.

    Dois deles são parques arqueológicos e abertos ao turismo subaquático desde 2006.

    O primeiro parque, “Naufrágio do vapor Lidador”, navio brasileiro de transporte de passageiros e mercadorias, que afundou em 1878, está localizado a dez metros da costa da baía e a sete metros de profundidade.

    O “Lidador” foi movido do local original onde foi encontrado para uma nova localização dentro da baía de forma a ser construído o porto de recreio da cidade de Angra do Heroísmo.

    O segundo, um “Cemitérios de Âncoras”, onde ancoravam as naus e galeões dos séculos XVI e XVII, localiza-se a 500 metros da costa e a uma profundidade variável entre os 16 e 40 metros.

    Os visitantes poderão observar, através de um itinerário subaquático previamente estabelecido, 40 metros de casco do “Lidador” e cerca de 35 âncoras.

    Para além destas reservas, o Governo Regional pretende abrir mais duas nas ilhas do Pico e Flores, onde se encontram afundados os navios "Caroline" (1901), que controlava o mercado europeu de adubos, e o "Slavónia" (1909), um navio inglês de passageiros.

    Paralelamente, as autoridades regionais estão a elaborar a Carta Arqueológica Subaquática dos Açores (CASA) que visa criar um banco de dados informatizado, constituído por informações das mais diversas fontes.

    A CASA vai permitir ainda a criação de um roteiro específico de turismo de parques arqueológicos subaquáticos na região.

    Para a elaboração desta carta, a região estabeleceu um protocolo de cooperação técnica com a Fundação Rebikoff-Niggeler, que tem abrangido desde 2006 a realização das pesquisas na costa sul da ilha Terceira e que este ano se estendeu às ilhas do Pico e Faial

    O protocolo, com uma dotação de 340 mil euros, determinou a disponibilização por parte da fundação do submarino “Lula”, com capacidade para mergulhar até 500 metros de profundidade, de um sonar de varrimento lateral, um magmetómetro e de uma embarcação de apoio.

    As primeiras investigações arqueológicas subaquáticas nos Açores, com carácter científico e sistemático, datam de 1996.

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