Natalidade

A excepção francesa

A excepção francesa

 

Lusa/AO Online   Internacional   16 de Nov de 2009, 06:57

A natalidade em França continua em alta, segundo um relatório anual divulgado recentemente em Paris, que confirma uma "excepção" no quadro europeu que os especialistas atribuem, sobretudo, a "factores culturais".

O número de nascimentos em 2008 "foi muito elevado" em França, de mais 1,9 por cento em relação ao ano anterior, segundo o "Retrato Social" divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos (INSEE).

"É preciso recuar 35 anos, até 1973, para encontrar um aumento superior a esse", nota o INSEE no relatório.

O INSEE mostra também que a maioria dos filhos (52,5 por cento dos nascimentos) nascem fora do casamento, uma tendência consolidada desde 2006.

No conjunto do território francês (incluindo os territórios ultramarinos), houve 834 mil nascimentos e 543 500 óbitos em 2008. O crescimento natural é, assim, de 290 500 pessoas, sendo o saldo migratório estimado em 76 100 pessoas.

Assim, "em 2008, como nos anos anteriores, o crescimento da população deve-se essencialmente ao crescimento natural", nota o INSEE. "Na maior parte dos outros países, é sobretudo a componente migratória que assegura o crescimento demográfico", realça o documento.

"De facto, o número de nascimentos aumenta regularmente desde há seis ou sete anos. O número de mulheres em idade fértil diminui em França desde há quinze anos, mas a fecundidade está em alta, nomedamente nas mulheres com mais de 30 anos", lê-se no relatório.

Se a fecundidade aumenta numa faixa etária superior, tem subido, igualmente, a idade média de maternidade, que em 2008 foi de 29,9 anos. O número de mulheres com idades entre os 15 e os 45 anos diminuiu em França desde 1994, em mais de 320 mil.

Factores culturais e políticos poderão explicar a alta de natalidade, segundo um especialista em demografia ouvido pela Agência Lusa em Paris.

"As explicações para a excepção francesa são em primeiro lugar culturais", afirmou Arnaud Regnier-Loilier.

"A representação da 'mulher activa' é muito forte em França", acrescentou o investigador do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED).

Arnaud Regnier-Loilier refere o contraste entre a realidade francesa e a alemã, "onde um quarto das mulheres não tem filhos, porque há uma menor aceitação social da conciliação da maternidade e da vida profissional".

O investigador do INED acrescenta que também "há uma maior desconfiança na Alemanha do que em França em relação às creches e infantários. Em França, a guarda colectiva dos filhos é mais comum, embora haja mais procura do que oferta".

"É verdade que em França existem ajudas financeiras a vários níveis à fecundidade dos casais, mas penso que não é isso que desencadeia a vontade de ter filhos. Apenas a facilita", explicou Arnaud Regnier-Loilier.

O relatório anual do INSEE afirma que a crise económica, que em primeiro lugar afecta os jovens, terá reflexos demográficos, mas de forma conjuntural.

"Vários estudos mostram que a fecundidade diminui durante um período de recessão, com um atraso de um a dois anos em relação à evolução económica", nota o INSEE.

"Os casais adiam talvez os seus projectos de fecundidade para um futuro mais faustoso. Mas esta descida é porventura temporária e, com frequência, seguida de um crescimento da fecundidade", acrescenta o relatório.


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