“A câmara fotográfica tornou-se numa ferramenta de adaptação e de trabalho”

Andrea Santolaya. Artista natural de Espanha tem vindo a explorar e capturar as comunidades, partilhando as suas histórias através da lente da sua câmara fotográfica, uma ferramenta que não só documenta, mas também a conecta com o mundo à sua volta




Andrea Santolaya nasceu em Madrid, mas há sete anos decidiu fazer de São Miguel o seu lar, onde continua a criar e a dar a conhecer as comunidades que povoam as ilhas dos Açores. “Eu nasci em Madrid, e durante toda a minha vida mudei de país a cada três anos aproximadamente devido ao trabalho do meu pai. Assim, vivi duas vezes em Londres, em Lisboa, onde aprendi português, e depois, devido à minha obsessão pela fotografia e pelas artes, continuei esta caminhada pelo mundo, vivendo na Bélgica, Madrid e Nova Iorque”, conta Andrea Santolaya.

“Ter vivido em tantos países e frequentado tantas escolas foi uma boa ferramenta de adaptação, que está muito relacionada com o meu trabalho atual”, acrescenta.
Ao longo deste percurso, a arte esteve sempre presente. Andrea Santolaya é neta da galerista Eugenia Niño, fundadora da Galeria SEN em Madrid, por onde passaram inúmeros artistas como Maryan, Elena Asins, Costus o Equipo Crónica entre muitos outros. “Ao regressar da escola, ia para a galeria ou para casa da minha avó e sempre via artistas, escritores, pintores. Era a nossa vida normal. Mas eu sempre gostei muito de desenhar, de falar com os artistas”, recorda.

Foi em Londres, aos 16 anos, que descobriu a fotografia. “Na escola, havia aulas de fotografia, e o meu pai ofereceu-me uma câmara. Graças a essa câmara, adaptei-me a Londres, à nova vida e à nova linguagem. A partir daí, nunca mais saí do laboratório. A câmara fotográfica tornou-se numa ferramenta de adaptação e de trabalho, permitindo-me conhecer outras pessoas e entrar em lugares que de outra forma nunca conseguiria”, relata.

De volta a Espanha licenciou-se na Faculdade de Belas Artes da Universidade Complutense de Madrid. Em 2010, graduou-se no Mestrado em Belas Artes “Photography, Video and Related Media” na School of Visual Arts de Nova Iorque, com o apoio de uma bolsa concedida pela Obra Social La Caixa. Com a sua tese do Mestrado descobriu o mundo do boxe em Gleason’s Gym e o torneio dos Golden Gloves através do Daily News. Em Nova Iorque, trabalhou para Manolo Valdés, fotografando as suas esculturas monumentais.

A sua carreira levou-a a São Petersburgo, na Rússia, onde trabalhou com o Ballet Mikhailovsky convidada pelo seu diretor Nacho Duato; à Venezuela, onde viveu com o grupo étnico Warao do Delta do rio Orinoco; e a França, onde a sua câmara capturou os momentos da centenária equipa de râguebi Biarritz Olympique.

É autora de vários livros, incluindo “Around”, publicado pela La Oficina de Arte y Ediciones, e “Manolo Valdés. The New York Botanical Garden”, editado pela La Fábrica, que ganhou o Primeiro Prémio de melhor publicação de arte de 2014 pelo Ministério da Cultura e Desportos de Espanha. A sua obra faz parte de coleções privadas e públicas, desde galerias de arte a espaços artísticos como a Universidade Complutense de Madrid, o Palau de la Música de Valência, o CA2M Centro de Arte Dos de Mayo, a Coleção Cyrat de Madrid, a Coleção Avelino Marín de Murcia, a Coleção C&FE de Caracas e a Galeria Marlborough de Nova Iorque.

A sua primeira exposição individual, “Around”, sobre mulheres pugilistas, foi na Galeria Marlborough em Madrid, como parte do Festival PHotoESPAÑA 2011. Desde então, o seu trabalho tem sido apresentado em instituições e galerias internacionais, incluindo o Centro Conde Duque em Madrid, o Palau de la Música de Valência, a Mondo Galeria Fonseca Macedo em São Miguel, a Galeria Freites de Caracas, o Institut Français em Madrid e o Festival Internacional de Fotografia de Mérignac.

Há sete anos, visitou os Açores pela primeira vez, onde realizou uma residência artística no Pico do Refúgio, a convite de Bernardo Brito e Abreu. Encantou-se pelas comunidades remotas da ilha e também pelo proprietário do Pico do Refúgio, acabando por escolher esta ilha para viver. Hoje é nos Açores, lugar onde nasceu o seu filho Tiago, que se sente em casa.

Atualmente, Andrea tem uma exposição intitulada “A Ilha de Sam Nunca”, na Leica Store de Madrid, que é um retrato do arquipélago dos Açores através dos seus mistérios e rituais religiosos. A exposição é acompanhada por um texto do reconhecido escritor Enrique Vila-Matas. “Este projeto é muito importante para mim, não só pelo facto de a Leica ser a marca que tem acompanhado o meu percurso profissional, mas também pelo reconhecimento que representa, já que poucas pessoas são convidadas a expor ali. Além disso, consegui levar os Açores a Madrid e trouxe pessoas como Maria Emanuel Albergaria, coordenadora intermunicipal no Plano Nacional das Artes, a ver a exposição, assim como o embaixador de Portugal em Madrid, que irá visitá-la quando eu regressar em setembro. Tudo isto é muito bonito”, afirma, referindo que, desta forma, pode também dar a conhecer a vertente social do seu trabalho, o que levou à publicação de um artigo no jornal El Mundo.

Mas também a exposição “Por Via Marítima”, no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas na Ribeira Grande, que resulta do projeto “A Besuga”, realizado no âmbito do Plano Nacional das Artes (PNA), incluindo uma performance que uniu Rabo de Peixe à Maia. “A Besuga” nasceu do projeto Residência Artística do PNA na ilha de São Miguel envolvendo professores e jovens da Escola Profissional da Ribeira Grande e da Escola Básica Integrada da Maia. “Projetos como este são muito bonitos porque, por um lado, fazem com que o trabalho de fotografia não seja solitário e, por outro, dão oportunidade à adolescentes que não tinham essa faculdade de colocar o seu olhar e a sua voz nos trabalhos agora expostos no Arquipélago”, revela.

“No meu trabalho, faço fotografia documental de autor, em interdisciplinaridade com as belas artes, integrando literatura e pintura para contar uma história que se liga com a tradição e a cultura. Independentemente do trabalho que realizo, o meu objetivo é entrar na intimidade da comunidade e documentá-la, evidenciando as nossas preocupações. Quero que a fotografia não fique apenas num documento virtual, mas seja apresentada em exposição e em livro, de modo a que esse registo perdure, evidenciando o mundo da arte”, afirma.

E sobre o seu futuro, a artista revela que pretende continuar a trabalhar sobre os Açores, onde pretende explorar mais as diferentes comunidades que compõem o arquipélago e num futuro, com comunidades da diáspora açoriana concentradas nos Estados Unidos da América e no Canadá.

“Os meus trabalhos continuarão a ter como foco os Açores, que agora são a minha base. Gosto muito da ideia de pluralidade que existe nos Açores. Embora seja uma região ultraperiférica, comporta-se como uma central para as artes. Nos Açores, consigo provocar o espectador e já estou a preparar uma exposição mais alargada do projeto ‘Ilha de São Nunca’ no Museu Carlos Machado e a Galeria Fonseca Macedo, em março de 2025, que terá como foco todo o arquipélago. Gostaria de desenvolver este conceito de ritos e rituais com mais impulso nas outras ilhas, pois até agora tenho-me focado tanto mais em São Miguel”, dá a conhecer.

“Atualmente, não conheço um projeto que esteja a desenvolver as pessoas, o território e a identidade dos Açores sob este ponto de vista da pluralidade da região. Ao mesmo tempo, procuro fazer uma troca com a comunidade, dando workshops e continuidade ao legado iniciado por Luísa Constantina nos anos 80”, acrescenta.

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