As manhãs passadas na praia, as idas ao ilhéu, as brincadeiras na quinta com os irmãos e as viagens de carro sem destino com a família pelo Canadá e pelos Estados Unidos são memórias que Pilar Damião de Medeiros guarda da infância, passada em Vila Franca do Campo. “Foi uma infância descomprometida, muito livre” e “muito, muito feliz”, recorda.
Pilar Damião de Medeiros é a filha do meio de cinco irmãos (duas irmãs e dois irmãos) e cresceu num ambiente familiar que, segundo afirma, lhe permitiu experimentar, viajar e escolher o caminho que queria seguir.
Já adolescente, quando frequentava o ensino secundário em Ponta Delgada, começou a olhar para o outro lado do Atlântico. Dois irmãos tinham seguido percursos académicos fora dos Açores e os pais deram-lhe a possibilidade de escolher entre diferentes destinos: Portugal continental ou Canadá. Preferiu o Canadá.
Para entrar na universidade canadiana, realizou exames de língua inglesa e acabou por ingressar na Brock University, onde estudou Sociologia e Estudos Germânicos. O percurso prosseguiu na Queen’s University, instituição onde frequentou o mestrado e foi “teaching assistant”, dando aulas de alemão a estudantes canadianos.
Entretanto, a continuação da sua formação levou-a à Alemanha. Primeiro através do programa Erasmus, mais tarde para realizar o doutoramento na Albert-Ludwigs-Universität Freiburg, concluído em 2007, quando ainda tinha 27 anos. Entre residências universitárias e salas de aula, conviveu com pessoas de diferentes nacionalidades, culturas e religiões.
“Viver com a diferença foi o mais valioso de toda essa minha experiência académica e científica”, afirma, explicando que o contacto quotidiano com essa diversidade lhe permitiu compreender o outro para além dos estereótipos e desenvolver um respeito mais profundo pelas diferenças culturais e religiosas.
O regresso aos Açores não resultou de um plano definido. Após terminar o doutoramento, Pilar Damião de Medeiros passou pela Universidade de Évora, onde lecionou durante dois anos.
“O início foi um bocadinho difícil, porque era um sistema completamente diferente daqueles a que eu estava habituada: o canadiano, mais pragmático, e o alemão, muito complexo, mas também muito socrático”, confessa.
Em 2009, surgiu a oportunidade de integrar a Universidade dos Açores, instituição onde desenvolve atualmente atividade académica e científica.
A adaptação não foi imediata. Depois de vários anos fora, regressar de forma permanente a São Miguel provocou-lhe uma sensação de “claustrofobia”. Mas essa perceção foi ultrapassada através da participação em projetos internacionais e da colaboração com investigadores de outros países.
A vida nos Açores passou também a incluir a construção da sua própria família. Mãe de três filhos, Pilar Damião de Medeiros valoriza a qualidade de vida e a proximidade dos familiares, sem abdicar da dimensão internacional que marcou o seu percurso.
“Aprecio muito estar cá, mas para mim é fundamental ter a possibilidade de sair”, explica.
Enquanto mãe de três filhos, Pilar Damião de Medeiros reconhece o papel crucial da educação e tenta incutir diariamente o pensamento crítico, o respeito pela diferença e pela dignidade humana.
“É obrigatório fazer esse trabalho em casa”, afirma, referindo-se à necessidade de desconstruir desde cedo ideias homofóbicas, sexistas, xenófobas e racistas. Mãe de duas filhas e de um filho, diz procurar educá-los para a igualdade, para a empatia e para a capacidade de se colocarem no lugar do outro, questionando-os: “E se fosses tu naquele lugar? E se fosse alguém da tua família?”
Mas a sua preocupação com a participação cívica esteve igualmente presente na sua passagem pela vida política, em particular enquanto ocupou o cargo de diretora regional da Juventude. Durante quatro anos, procurou promover fóruns de discussão em todas as ilhas e envolver os jovens na definição das políticas que lhes diziam respeito.
O objetivo era contrariar modelos de decisão exclusivamente verticais. “Não era uma decisão de cima para baixo. Era uma decisão entre todos, de baixo para cima”, resume.
Pilar Damião Medeiros reconhece, contudo, que a corresponsabilidade exige envolvimento e conhecimento. A política, defende, não pertence apenas aos governantes ou aos partidos: “A política é de todos.”
É a partir dessa perspetiva que encara também os desafios atuais. A desinformação, a simplificação dos debates e a normalização de discursos de ódio são, na sua opinião, sinais de uma regressão cultural e política.
“Sem conhecimento, não temos uma opinião fidedigna nem factual”, afirma, defendendo que o pensamento crítico deve ser estimulado através da leitura, da reflexão e da capacidade de questionar as certezas dominantes.
Em paralelo continua a desenvolver a sua atividade profissional da Universidade dos Açores, onde é professora associada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, e investigadora Centro Interdisciplinar em Ciências Sociais (CICS.NOVA.UAc). Nos projetos mais recentes, Pilar Damião de Medeiros tem procurado aproximar a investigação à comunidade (modelo investigação-ação). Por exemplo, no projeto europeu IN SITU sobre indústrias culturais e criativas, a equipa dos Açores realizou um levantamento do setor regional e preparou documentos com recomendações de políticas públicas.
A investigadora está também envolvida no projeto da UAc EUNICoast, uma aliança europeia que reúne universidades de ilhas, portos e territórios costeiros. O projeto inclui áreas ligadas à investigação, à inovação e à cooperação entre instituições de diferentes regiões europeias.
Outro projeto que está a preparar é um mestrado dedicado às migrações e à cooperação, desenvolvido em parceria com universidades da Grécia, de Itália e de Espanha. A proposta pretende cruzar diferentes perspetivas sobre os fenómenos migratórios e os problemas sociais associados.
Para Pilar Damião Medeiros, a sociologia não pode permanecer fechada dentro da academia. Acredita que é na ligação entre conhecimento, participação e ação cívica que temos a obrigação de contrariar, com firmeza e determinação, as novas distopias, os novos (antigos) rostos de fúria com pensamentos redutores e gritos estridentes. “Não nos devemos remeter ao silêncio, à cumplicidade, se não mesmo à indiferença generalizada perante o sofrimento alheio. Não estamos a falar de abstrações, mas de seres humanos”, conclui.
