Valores de Abril renovam-se em Ponta Delgada com jovens no centro das celebrações

Comemorações estão marcadas para sábado, às 15h30, nas Portas da Cidade. Programa traz iniciativas pensadas por jovens, momento participativo sobre a Constituição e encerramento inédito com DJ MOLINA, da Associação PLUGG



As Portas da Cidade, este sábado, voltam a ser palco de celebração da festa da democracia, mas este ano promete ter um tom mais jovem, mais participativo e com novas formas de celebrar a liberdade. Quem por lá passar pode esperar concertos, reflexão e a maior novidade: um DJ no encerramento. As comemorações deste ano foram pensadas para aproximar as gerações mais novas dos valores de Abril, mas sem nunca esquecer o peso da memória.

O programa começa às 15h30, nas Portas da Cidade, com uma festa popular animada pelo Grupo Urro das Marés, seguida pelo concerto “Cravos na Voz”, pelo Grupo de Cantares Tradicionais de Santa Cruz da Lagoa e a iniciativa  “Comunidade Constituinte”, dedicada aos 50 anos da Constituição e da Autonomia”. No final, o encerramento conta o DJ MOLINA, da Associação PLUGG.

A organização sublinha “vai ser feito algo de novo” com foco em quem nasceu e viveu depois da revolução. O objetivo é trazer novas linguagens, outras ideias e uma forma diferente de viver Abril, trata-se de “uma pedrada no charco” face ao que tem vindo a ser feito, admite Filipe Cordeiro, porta-voz da Associação Promotora das Comemorações do 25 de Abril em Ponta Delgada.

Na parte final das comemorações, enquanto o DJ toca música, o intuito é que se crie um espaço onde as pessoas se encontrem e convivam: “O que faz falta cada vez mais é as pessoas falarem umas com as outras” e partilharem, os seus valores. Para Filipe Cordeiro, o debate e a reflexão é uma parte que não pode deixar de acontecer na celebração da Revolução dos Cravos.

A lei laboral é agenda nos valores de Abril

Num contexto internacional de conflitos, tensões e também de guerra, Filipe Cordeiro alertou que os valores de Abril ainda não estão garantidos. Referiu até que este ano “o 52.º aniversário, exige-nos uma atenção muito particular, porque estamos a ser assediados, digamos assim, por valores que tentam , de forma clara e objetiva, recuperar algo do antes do 25 de Abril”.

Recordou ainda que a revolução nasceu do cansaço de uma guerra e da vontade de mudar, a necessidade de paz. Defendeu, por isso, que a paz deve ser uma responsabilidade coletiva e não apenas institucional, sem esquecer o contexto internacional atual: “O poder dos mais fortes tenta impor-se através da guerra”, reforçando que faz parte do papel de cada um trabalhar para que a paz se afirme na sociedade.

Filipe Cordeiro mencionou ainda a Constituição da República Portuguesa, apontada por si como um dos maiores legados de Abril que consagra o direito à habitação, à saúde e ao emprego, num país onde “existia uma pobreza endémica e também um analfabetismo de uma dimensão extraordinária”. A Autonomia dos Açores foi também lembrada como uma das conquistas do pós-revolução. A tudo isto, deixou ainda um alerta em relação às alterações da lei laboral: “O que se está a tentar fazer é destruir um conjunto de leis que protegem, em certa medida, os mais fracos, porque as leis laborais devem proteger os trabalhadores em primeiro lugar”, defendeu.

Pedro Nascimento Cabral, presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, reforçou a ideia de uma responsabilidade coletiva. Para si, celebrar Abril é “uma obrigação”, para que a democracia, a liberdade e o diálogo sejam defendidos num tempo em que valores com estes enfrentam desafios.

Naquele tempo é que era bom? 

A propósito da ideia de que “naquele tempo é que era bom”, Filipe Cordeiro admite que a sua geração falhou em transmitir memória: “Acho que a minha geração falhou em passar a pedagogia do que era antes para se poder perceber o que é o depois”, o que pode ajudar a explicar a razão pela qual alguns continuam a pôr em causa os valores de Abril.
Ainda assim, deixou o alerta: “Não havia a mais mínima liberdade” e “aqueles que tiveram a ousadia de falar  das suas ideias pagaram com a vida, muitos deles, dezenas e dezenas, e estiveram presos dezenas e dezenas de anos, porque arriscaram defender valores de justiça social e de liberdade”.

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