Universidade dos Açores celebra Lídia Jorge e valores humanistas

Escritora Lídia Jorge é ‘honoris causa’ pela Universidade dos Açores, a cerimónia aconteceu ontem. Em entrevista ao jornal Açoriano Oriental, a autora realça escritores do arquipélago que marcaram a literatura e conta como a procura pela justiça social faz parte da sua obra



A escritora Lídia Jorge recebeu ontem o grau de Doutora Honoris Causa pela Universidade dos Açores,  distinção que acolheu com “grande alegria” e “profundo entusiasmo”. Para a autora, a universidade é “uma conquista da democracia portuguesa” e integrar a galeria de distinguidos “é uma honra extraordinária”, conta.
A madrinha da cerimónia,e professora associada daFaculdade de Ciências Sociais eHumanas, Ana Cristina Gil,justifica a escolha como uma  homenagem a “uma das vozes literárias mais originais e marcantes da literatura portuguesa contemporânea”, reconhecida nacional e internacionalmente, vencedora de mais de 30 prémios desde o primeiro livro, “O Dia dos Prodígios”, publicado em 1979. A instituição destaca ainda os valores humanistas, democráticos e fraternos presentes na obra e na intervenção cívica da autora, reforçando que a sua integração no corpo de doutores reforça o prestígio da universidade.
Sobre os Açores, Lídia Jorge afirma que o arquipélago é “uma âncora avançada do continente” e parte do “espírito atlântico dos portugueses”, evocando autores açorianos que marcaram a sua formação e a literatura, como Antero de Quental, Natália Correia, João de Melo e sobretudo Vitorino Nemésio, de quem foi aluna: “É um Portugal diferente, mas profundamente português”.

“A escrita resiste ao colapso do pensamento lógico”
Sobre o papel da literatura num tempo marcado pelo conflito e pela desinformação, Lídia Jorge é clara: “A escrita é hoje uma forma de resistência ao colapso do pensamento lógico”. Para a escritora, a ficção protege contra a mentira e exercita o raciocínio e a imaginação: “Se a literatura desaparecer, regressamos ao mundo primitivo”, alerta.
Para a autora, a literatura continua a ser capaz de mudar mentalidades: “Não devemos ter medo de parecer arcaicos”, afirmou. “A literatura, tal como as humanidades, a filosofia ou a história, é fundamental para a salvação da humanidade”, defende.


Um bom leitor precisade maturidade
Lídia Jorge sublinhou que a literatura exige tempo e formação: “É preciso cerca de 20 anos de instrução para ser um bom leitor de literatura”. É necessário um percurso de aprendizagem que permita ao leitor reconhecer o pacto fundamental do “era uma vez”: a ficção pode mentir, mas não engana. Para a autora, quando essa compreensão se perde, o espaço da imaginação é ocupado por formas distorcidas de narrativa, como as fake news, que surgem quase como uma resposta selvagem à falta de contacto com a ficção.
Por isso, defende que é essencial educar para a literatura e lamenta que as universidades desvalorizem as humanidades, considerando um erro crasso retirar às pessoas o “anteparo”  que sustenta a capacidade de imaginar, interpretar e conviver com mundos possíveis.

Uma obra movida pela defesa da dignidade humana
Lídia Jorge recordou episódios da infância que moldaram cedo o seu sentido de justiça, como quando, ainda pequena, ia comprar bacalhau e  via o merceeiro negar-lhe o produto que minutos depois vendia a outra pessoa. Estes gestos de desigualdade contrastavam com a cultura que existia na época, em que a principal referência era a igreja e os sermões de fraternidade. A escritora observava os fiéis comungarem e, logo depois, “quando nós pedíamos uma boleia para não voltar a pé para casa, eles fingiam que não ouviam e até saíam da missa antes para que ninguém lhes pedisse a tal boleia”, revela.
A procura por justiça, marcou-a e acompanhou-a durante a infância e a adolescência. Por isso, explica que a sua preocupação central foi sempre a mesma: reclamar uma justiça que não encontrava no mundo real. Para a escritora, a literatura é um modo de “reclamar fraternidade” e de imaginar um mundo mais justo: “As estantes de uma livraria e de uma biblioteca dizem que ‘nós reclamamos um outro mundo”.
No final, sobre o que ainda a inspira e provoca para escrever, respondeu: “A idade é real, mas mais forte do que a idade é a força do entusiasmo. E o entusiasmo, que significa estar com os deuses, não tem idade”, conclui Lídia Jorge.





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