Um percurso de vida entre a Guarda e a fotografia

José Santos. Natural da ilha de Santa Maria tem um percurso de vida que o levou a seguir uma carreira que passou pela Guarda Fiscal e pela GNR, sempre sem desistir do seu sonho de se dedicar à fotografia. O seu pai foi determinante na descoberta desta paixão, e ainda hoje guarda uma máquina fotográfica de fole Voigtländer, com cerca de 80 anos, que continua a inspirá-lo




José Santos nasceu em Vila do Porto e tem hoje 67 anos. Viveu na sua terra natal até aos quatro anos, altura em que os seus pais foram trabalhar para a ilha Terceira. Aí fez o seu percurso escolar até ao 4.º ano, regressando depois a Santa Maria. Aos 17 anos, voltou à Terceira como trabalhador-estudante, já com o desejo de se tornar fotógrafo. No entanto, ao avaliar as dificuldades e a concorrência no meio, concluiu que a fotografia, por si só, não lhe garantiria uma reforma estável.

“Descobri a fotografia com o meu pai. Ele sempre foi um apaixonado pela fotografia, registando todos os momentos com uma máquina de fole Voigtländer, que ainda hoje tenho e me serve de inspiração. A máquina terá cerca de 80 anos e está hoje no meu estúdio”, conta.

Em 1982, concorreu à PSP e à Guarda Fiscal, sendo admitido nesta última. Durante a sua carreira, nunca deixou de fotografar, ainda que sem poder comercializar o seu trabalho. 

A sua vida profissional levou-o a diferentes locais, desde São Miguel, onde concluiu a formação secundária, à Terceira e, mais tarde, a Faro, onde trabalhou no controlo de fronteiras.

Com a extinção da Guarda Fiscal, ingressou na GNR, onde permaneceu até há nove anos, altura em que passou à reserva. Foi então que iniciou uma nova etapa da sua vida, dedicando-se inteiramente à fotografia. Obteve a certificação profissional pela Associação Portuguesa de Fotógrafos de Imagem e, apenas três meses após a passagem à reserva, abriu o seu estúdio Magic Dreams Photo Studio no Paim, em Ponta Delgada.

José Santos descreve-se como “mais do que um simples retratista”, investindo em projetos diferenciados, mesmo que nem sempre os clientes valorizem essa abordagem inovadora. No seu ateliê, realiza fotografia de produto, retrato e paisagem, mas também fotografa eventos, como casamentos, batizados, e outros. No entanto, é através dos seus projetos de autor que mais se destaca.

Com os seus trabalhos de autor, José Santos procura sempre transmitir uma mensagem através da seu olhar. Um desses exemplos é o projeto “Perspetivas do Olhar”, através do qual pretendeu “dar força às pessoas que enfrentam o cancro, mostrando que esta doença também pode ser vencida”. A exposição, que esteve patente em todas as ilhas dos Açores e também na cidade do Funchal, nasceu de uma parceria com a Liga Portuguesa Contra o Cancro, e todas as fotografias foram doadas à delegação regional da instituição.
“Quando pensei neste projeto, contactei a delegação regional da Liga Portuguesa Contra o Cancro, a quem apresentei a ideia, e houve logo uma pessoa que a aceitou. A partir daí, reuni todas as pessoas que foram fotografadas, incluindo um homem, porque também os homens sofrem desta doença”, revela.

Com a exposição “Quem vê caras... não vê doenças”, enalteceu “as crianças que lutam contra a doença, sempre com um sorriso nos lábios”.

“O projeto com as crianças com doenças crónicas surgiu quando fotografava a romaria das senhoras, que acompanhei desde a Igreja da Fajã de Baixo até ao final do percurso. 

De repente, olho para a minha esquerda e vejo uma criança com uma cruz, que fotografei. Depois tentei saber quem era a família para enviar a fotografia para a mãe e foi quando soube que a menina estava doente. A partir daí, organizámos um projeto e agendámos uma sessão fotográfica na Junta de Freguesia de Santa Clara. Eu pensei: ‘não vai aparecer ninguém’, mas, à hora marcada, a Junta estava cheia, e foi assim que nasceu uma exposição muito forte”, conta.

Um dos seus primeiros trabalhos, e que também teve impacto no fotógrafo, foi realizado com os seniores da Santa Casa das Flores, onde fotografou os utentes.

Apresentou ainda a exposição “Nossas ilhas, nossas gentes, suas vivências atuais e do passado”, que foi inaugurada em Toronto e posteriormente exibida no Parque Atlântico.
“Fui convidado a apresentar esta exposição no Iraque, quando o contingente militar que foi dos Arrifes para a Ásia representou a Região no Dia de Portugal”, conta.

Recentemente, apresentou a exposição “Sociedade e Vida – Visões no Feminino”, um projeto concebido antes da pandemia, mas que apenas agora viu a luz do dia. A mostra tem um caráter itinerante, passando por diversas localidades, incluindo o Solmar Avenida Center, em Ponta Delgada, durante as Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Atualmente, tem outros projetos em curso, sendo um deles “Tentações”, dedicado aos doces típicos dos Açores, que será apresentado em julho.

Paralelamente, está a realizar um levantamento dos painéis de azulejos antigos nos Açores, um trabalho extenso que inclui edifícios públicos, igrejas e residências particulares. Apesar de ter solicitado apoio à Direção Regional da Cultura, a resposta foi que não havia interesse no projeto, pelo que está a desenvolvê-lo de forma independente.

“Neste momento, só me falta fotografar azulejos no Faial, Pico e Terceira. Das restantes ilhas, já tenho, e a ideia é fazer uma exposição e a publicação de um livro, mas é um trabalho caro e tem de ser feito com calma”, afirma.

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