Licenciado em Turismo e Lazer, com especialização em Comunicação e Planeamento Cultural, Jesse James, é curador e programador cultural, é fundador e diretor artístico do Festival Walk&Talk, agora Bienal, e do espaço vaga, projetos da Anda&Fala, estrutura que cofundou em 2011.
Foi no espaço vaga que Jesse James partilhou a sua história, o seu percurso, os seus sonhos. Começou por nos contar, com orgulho, que é “neto da diáspora açoriana. Os meus avós emigraram para o Canadá, nos anos 60, e a minha mãe cresceu em Vancouver, no Canadá. Numas férias de verão conheceu o meu pai. Entretanto, ele foi para lá e eu nasci. A dada altura, decidiram voltar, temporariamente, para os Açores, por questões familiares, mas a minha mãe adorou estar cá e acabamos por ficar. Ou seja, sou filho de açorianos, cresci aqui, sou dos Arrifes”.
Foi nesta freguesia de Ponta Delgada que Jesse James estudou. Mais tarde foi para a Escola Secundária Domingos Rebelo. Refere que “queria ter ido para artes, mas não aconteceu e fui para a Humanidades. Mas sempre tive esse interesse, essa curiosidade, pelas artes”. Diz ainda que “tive o privilégio e a sorte de os meus pais poderem garantir que fosse estudar para o Continente. Fui para a Guarda, estudei Turismo e Lazer, e depois especializei-me em Comunicação e Gestão na área da Cultura, já a querer regressar àquilo que me movia”.
Mal terminou a faculdade na Guarda, mudou-se para Lisboa, cidade pela qual se “apaixonou”, disse, confessando: “foi onde, pela primeira vez, me senti confortável, seguro e onde conheci pessoas com quem consegui criar comunidade”. Nunca esquecendo os Açores, vinha cá sempre que podia, no verão ou no Natal.
Numa determinada altura, despediu-se de um trabalho “onde já não queria estar, e em conversa com uma amiga, a Diana Sousa, pensámos que era bom fazermos coisas em São Miguel, porque somos daqui”, lembrando que “estamos ali entre 2010-2011, em plena crise da troika (...)”. Salientou que “por alguma razão, decidimos regressar aos Açores. Pensamos muito no que é que poderíamos fazer ou poderíamos acrescentar à nossa terra e ao nosso lugar”. Foi nesta ocasião que surgiu a ideia da realização do Walk&Talk, mas era necessário “criar uma uma entidade para conseguirmos organizarmos o festival, e criamos a Anda&Fala. É assim que começa essa aventura de imaginar um festival de artes nos Açores”.
Tornou-se, pois, um projeto de vida e “tem sido muito prazeroso vê-lo crescer e chegar ao ponto em que está agora, que é uma Bienal de Artes, com uma escala e com uma dimensão internacional afirmada, com um espaço, como a vaga, que tem programação ao longo do ano e que se tornou num espaço muito importante nas dinâmicas culturais da cidade e da ilha”, afirmou para acrescentar que “este espaço (vaga) tem sido um espaço de imaginação, um espaço de muito ensaio e tem sido muito desafiante fazer essas coisas todas”.
Como os pais reagiram ao facto de querer seguir artes? Jesse James começa por dizer que “acima de tudo eles não me bloquearam. Acho que, se calhar, tinham algum receio por mim, no sentido de: ‘será que isso vai correr bem?’. Mas naquilo que eram as ferramentas que eles tinham, sempre me motivaram e disseram: ‘se é isso que tu queres fazer, vai”. Por outro lado, “consigo compreender que para eles, à data, fosse um bocadinho difícil visualizarem no que é que isto ia se transformar”. Entretanto, “passou-se 15 anos e agora a Anda&Fala é uma estrutura que tem um orçamento muito generoso, que tem financiamento da República, regional, municipal, emprega 12 pessoas a tempo inteiro, com contratos de trabalho. Houve esse caminho de profissionalização para podermos chegar aqui”.
E durante esse caminho, alguma vez pensou em desistir? Jesse James salienta que “talvez isso me tenha ocorrido de uma forma muito breve”. Contudo, “não sou uma pessoa ambiciosa, mas sou uma pessoa que tem ambição. Para mim são coisas diferentes e acho que também, junto das pessoas que estão a pensar os projetos da Anda&Fala, há uma ambição coletiva que fez com que nunca quisesse desistir”, reforçando que “acreditamos no que esses projetos estão a gerar neste território, também num processo de ressignificação do que é esta periferia, do que é esta insularidade que tem que deixar de ser cinzenta e de ser uma coisa ancorada numa ideia de isolamento”, disse.
Questionado se sente falta de apoios ou de abertura das entidades para os projetos, Jesse James refere que é “uma pergunta difícil, complexa, que não tem uma resposta direta”, isto porque “há problemas no setor que são estruturais, que já vêm de há muito tempo e que não são de resolução fácil”. Na sua opinião é preciso “criarmos uma rede e o MOVA, o Movimento Cívico de Arte e Cultura nos Açores, da qual também faço parte, tem esse objetivo, o de agregar, discutirmos e percebermos como é que podemos encontrar soluções para esses problemas”. Agora, ao mesmo tempo, “acho que há evoluções positivas, por exemplo, o facto de termos conseguido mudar a lei em 2017 e que permitiu aos agentes açorianos e madeirenses concorrerem a fundos nacionais, mudou completamente o jogo”. (…) Acrescentou ainda que “houve um processo de profissionalização nos últimos 10 anos notório. Acho que o próprio processo da candidatura à Capital Europeia da Cultura gerou coisas positivas. Por isso, também temos que olhar para aí. Temos que ver o que é que se conseguiu e, em simultâneo, reconhecer o que é que não está bem”.
“Quando falamos que queremos posicionar os Açores como território atlântico, na sua relação com os continentes, americano e europeu, esse posicionamento faz-se com a cultura. Sem isso, é impossível”, frisou. Nesse contexto, Jesse James compartilha o sonho de promover uma mobilização social, no sentido de ”criar entendimentos que melhoram o setor”. Disse ainda que tem “um sentido de missão muito grande com este lugar. Quando as pessoas me perguntam, onde é que tu vives? Digo que vivo no Atlântico porque estou entre Ponta Delgada e Lisboa e, para mim, é muito importante estar entre esses dois lugares, porque permite-me gerar movimentos e gerar circulação. Também me permite uma dimensão crítica do que é este lugar. Quero trazer coisas cá, mas também quero levar artistas de cá para outros contextos (…). Há coisas que vão falhar, que não vão correr bem, e lido muito bem com isso porque a falha é um lugar muito rico, a falha ensina-nos muita coisa”.
De todos os projetos em que está envolvido, sem dúvida, que tem um carinho muito especial pelo Walk&Talk. Mas de forma geral, “tenho tido a sorte de fazer coisas muito desafiantes em sítios muito diferentes. Faço o Fabric Arts Festival em Fall River, um projeto também de ligação entre os Açores, a diáspora e Portugal”. Tem também projetos em Lisboa, e diz que “2026 vai ser um ano muito interessante para a vaga, porque também é ano de Ponta Delgada - Capital Portuguesa da Cultura, da qual vamos fazer parte. Vamos ter um ciclo que irá se chamar ‘Moving Ecologies’, a ideia de ecologias em movimento, onde vamos convidar artistas açorianos e também pessoas do mundo, para pensarem a ecologia da ilha, em vários sentidos. Acho que esse projeto vai ser muito interessante. Quero continuar com os projetos da Anda&Fala, projetos de autonomia e capacitação”.
