“Temos muitos campos no Serviço Social em que não se aplica sequer a Inteligência Artificial”

Joana Guerra, professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra



O Núcleo Territorial dos Açores da Ordem dos Assistentes Sociais realizou recentemente um webinar híbrido em que lançou a seguinte questão: “A máquina pode humanizar a intervenção social”?

Este evento, de proximidade em relação aos profissionais e às necessidades das pessoas, decorreu na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, assumindo um formato híbrido, presencial e online, destinado a assistentes sociais, estudantes da Licenciatura em Serviço Social e ao público em geral, tendo  registado uma boa adesão.

A intervenção principal ficou a cargo de Joana Guerra, professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Em entrevista ao Açoriano Oriental, esta investigadora falou das oportunidades e dos desafios éticos que se colocam à utilização da Inteligência Artificial na intervenção social.

Na sua intervenção no webinar “A máquina pode humanizar a intervenção social?” falou de Inteligência Artificial, direitos humanos e Serviço Social. A Inteligência Artificial pode ser uma ajuda ou uma ameaça ao Serviço Social?

Diria que pode ser as duas coisas. Um dos aspetos que trouxe para esta conferência foi precisamente o conceito de inevitabilidade. Ou seja, se é mesmo inevitável nós utilizarmos a Inteligência Artificial.

Há aspetos em que a Inteligência Artificial pode ser interessante, porque beneficia e acelera as tarefas mais administrativas, mais burocráticas e que muitas vezes até sentimos que nos fazem perder tempo.

Contudo, por outro lado, ela traz-nos problemas éticos, sobretudo na relação com os direitos humanos e aí sim os nossos cuidados têm que ser redobrados, nomeadamente sobre as questões da transparência, da confidencialidade e da privacidade, até porque o Serviço Social trabalha com pessoas que nos disponibilizam informação sensível.

Portanto passar esta informação para um software de Inteligência Artificial é claramente um risco, porque não somos nós que controlamos o recetáculo desses dados. 

Mesmo assim, mantenho a minha resposta no sentido de dizer que sim, que podemos encontrar aqui benefícios, mas também temos que encontrar na Inteligência Artificial uma enorme responsabilidade para saber discernir quando é que a podemos e não a podemos utilizar.

A Inteligência Artificial já é uma realidade no Serviço Social em Portugal atualmente?

É uma realidade e de várias formas. Vou-lhe dar um exemplo prático: na administração pública, são utilizados chatbots (softwares de conversação) que qualquer cidadão pode utilizar para aceder a informações na consulta do site da Segurança Social, isto numa perspetiva de organização dos serviços. 

Mas depois há também algumas iniciativas mais privadas no sentido em que grupos de profissionais, equipas multidisciplinares, estão a desenhar softwares para dar resposta a alguns aspetos, acelerando a informação que é dada às pessoas.

No campo das terapias, por exemplo e aqui o Serviço Social não está tão envolvido, já se concilia a Inteligência Artificial com projetos que dão apoio ao treino cognitivo de pessoas mais idosas, em que os modelos de linguagem apoiam nos exercícios cognitivos para atrasar alguns processos demenciais, mas sobretudo promover o treino cognitivo para pessoas idosas. 

E há ainda um aspeto mais amplo, que é o armazenamento de dados e o tratamento rápido de grandes volumes de informação, que pode ajudar a apresentar propostas de redimensionamento ou de criação de novas políticas públicas.

Em que aspetos considera ser mais necessária a humanização do Serviço Social?

O Serviço Social é das profissões em que é absolutamente central a relação humana, e penso que um dos grandes trabalhos do Serviço Social será garantir que essa relação humana não é afetada. Porque temos muitos campos no Serviço Social em que não se aplica sequer a Inteligência Artificial. 

Vamos ver um exemplo: o do acompanhamento de um profissional a um doente em cuidados paliativos.

No aproximar da morte, não é substituível a relação humana pela tecnologia. Portanto, aqui o Serviço Social encontra uma forma de expressar de uma forma ainda mais evidente a importância da relação humana. A importância de garantir a dignidade humana e a solidariedade.

E neste campo não vai haver máquina nenhuma que possa substituir as relações humanas e a importância do desenvolvimento da afetividade entre as pessoas. 

Porque a máquina interpreta dados, mas não tem uma leitura social sobre a realidade. A leitura e a interpretação de um assistente social claramente entra na dimensão da subjetividade da pessoa que a máquina não consegue abranger.

Nos processos sociais, os elementos subjetivos são muito mais relevantes do que qualquer dado concreto que nós possamos ter sobre a vida das pessoas. Portanto, eu diria que no Serviço Social há uma grande oportunidade para demonstrar a importância da relação humana.

Acha que o Estado e as empresas estão conscientes dos riscos relacionados com a utilização da Inteligência Artificial?

Temos exemplos de muitas empresas que estão a construir os seus próprios softwares de Inteligência Artificial para implementar nas suas organizações, facilitando alguns aspetos mais burocráticos aos seus próprios funcionários.

Portanto, temos já um alastramento enorme de experiências em Portugal a esse nível, tanto na administração pública como no setor privado, mas depois se formos a entrar naquilo que é a criação da Inteligência Artificial, rapidamente podemos compreender que teremos muito mais dificuldade de controlar quem detém os dados, quem é que os sistematiza e quem é que os disponibiliza... Nessa parte talvez tenhamos ainda dificuldade de ter essa compreensão, porque neste momento temos dois países, duas potências mundiais que gerem a origem da própria Inteligência Artificial. Estamos a falar dos Estados Unidos e da China.

Numa escala europeia e portuguesa, em particular, ficamos completamente dependentes dos grandes proprietários da Inteligência Artificial, que é onde estão armazenados os dados que nós depois podemos utilizar.

Por parte dos decisores políticos ou mesmo das empresas, temos por um lado quem tenha uma enorme expectativa e uma visão muito positiva da Inteligência Artificial como sendo uma oportunidade de inovação para o futuro e temos claramente, por outro lado, quem se preocupe precisamente com aspetos fundamentais como a privacidade e a confidencialidade dos dados.

Neste momento, nós não temos ainda como garantir que os dados das pessoas não se transformem em informações que vão determinar até decisões profundamente erradas sobre as nossas vidas. E penso que, à nossa escala, nós não temos grande capacidade de fazer esse controlo.

Quais são as áreas da sociedade onde neste momento mais faz falta o Serviço Social?  

O Serviço Social é uma profissão que lida claramente com as populações que estão em situação particular de vulnerabilidade. Portanto, eu diria que precisam mais as pessoas que estão em contexto de vulnerabilidade na saúde, na educação e na proteção social. E diria que, por exemplo, o acompanhamento na área da saúde é fundamental nos aspetos que gerem a questão do sofrimento e a capacidade de empatia e de gerar solidariedade e compreensão sobre a situação de vida das pessoas.

Esses aspetos são bastante transversais em todas as áreas em que o Serviço Social atua. E até agora, com as preocupações que nós temos centralizadas nas questões da habitação, por exemplo, estas preocupações têm a ver com uma compreensão sobre a vida real das pessoas para a qual é fundamental que os profissionais se importem, se interessem e que os políticos traduzam em decisões as grandes preocupações nestas áreas, para que as políticas públicas possam ser atualizadas e adaptadas à realidade portuguesa. Isto está para lá do que uma máquina pode considerar e do que a acumulação de dados possa traduzir. Por isso, é importante pensar que o sujeito será sempre fundamental e o Serviço Social é uma das profissões que vai ter mais oportunidades de preservar precisamente essa dimensão da subjetividade. 

Acha que possível avaliar uma situação de pobreza para a atribuição de apoios a pessoas com o recurso a modelos de Inteligência Artificial?

As experiências que nós temos são a nível internacional e devo dizer que todas estão a correr bastante mal. Têm-se cometido algumas falhas graves, precisamente porque se retirou da equação a dimensão humana e colocaram-se as máquinas a determinar quem pode ter ou não ter acesso a uma determinada prestação, por exemplo. Mas esses padrões nós sabemos que não traduzem a vida das pessoas.

Portanto, não traduzindo a vida das pessoas, eu espero sinceramente que isso não seja viável ou pelo menos que não se torne viável a curto prazo, uma vez que sabemos que a máquina não está preparada ainda para fazer uma leitura 100% adequada aos dados. 

Em Portugal ainda não houve nenhuma experiência, mas a nível internacional sim. E os ‘feedbacks’ que nós temos não são particularmente favoráveis.







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