Os jovens da Graciosa apresentam uma maior prevalência de consumo em vários indicadores. A informação consta no estudo “O Impacto das Substâncias Lícitas e Ilícitas em Adolescentes e Jovens Adultos na Região Autónoma dos Açores”, desenvolvido pelo IREFREA em 2025, junto de cerca de 1000 jovens.
De acordo com o estudo, a ilha Graciosa regista os valores mais elevados nos consumos de álcool pelo menos mensal (29,5%), experimentação de tabaco (36,4%), experimentação de canábis (9,1%), apostas a dinheiro no último ano (14,3%), entrada em espaços noturnos destinados a adultos (36,4%), bem como a menor proporção de atividade física semanal (65,9%).
Em declarações ao Açoriano Oriental, o diretor regional da Prevenção e Combate às Dependências, Pedro Fins, sublinha que “este conjunto de resultados justifica uma atenção particular à realidade local, através da análise contextualizada dos fatores de risco e da adequação das respostas preventivas às necessidades identificadas”.
Por sua vez, o Faial regista os valores mais baixos de consumo de álcool pelo menos mensal (6,8%), experimentação de tabaco (12,8%) e experimentação de canábis (4,2%). Pedro Fins refere que estes três indicadores, isoladamente, não permitem caracterizar globalmente o seu perfil preventivo.
Já São Miguel regista 8,1% no consumo de álcool pelo menos mensal, 18,0% na experimentação de tabaco e 6,1% na experimentação de canábis, enquanto a ilha Terceira apresenta, respetivamente, 12,1%, 20,2% e 4,5%.
“Estas diferenças mostram que os padrões variam entre territórios e entre indicadores, não sendo adequado estabelecer uma classificação global das ilhas sem uma análise mais abrangente”, sustenta o diretor regional.
Já Santa Maria apresenta valores de 15,2% no consumo de álcool pelo menos mensal, 22,5% na experimentação de tabaco, 8,0% na experimentação de canábis e 10,3% nas apostas a dinheiro no último ano. “Estes dados permitem identificar áreas que merecem acompanhamento, sem que seja possível concluir, apenas com base na tabela, que os valores estão acima da média regional”, afirma Pedro Fins.
No que diz respeito à atividade física semanal, São Jorge (83,1%) e Faial (83,1%) apresentam os valores mais elevados. Relativamente à ansiedade ou tristeza associadas à utilização das redes sociais, os valores apresentados variam entre 26,5% em Santa Maria e 32,9% em São Jorge.
Para Pedro Fins, o resultado do indicador das redes sociais revela que é importante continuar a integrar a saúde mental e os comportamentos digitais nas estratégias de prevenção.
Análise com prudência
A Direção Regional de Prevenção e Combate às Dependências(DRPCD) refere que estes resultados “não devem ser entendidos como uma classificação ou comparação entre ilhas, mas sim como um instrumento de apoio ao planeamento, à monitorização e à tomada de decisão”.
Pedro Fins realça que, na interpretação dos dados, deve ainda ser tido em consideração que o número de participantes variou significativamente entre ilhas, nomeadamente: em São Miguel participaram 458 jovens; em São Jorge 69; no Pico 14; no Corvo apenas 3; e nas Flores, não foi possível associar participantes à ilha de residência.
A Graciosa, que apresenta os maiores valores em certos indicadores do estudo, contabilizou 44 inquiridos, pelo que o diretor regional defende prudência na análise dos dados e a importância de confirmar estes resultados com estudos com amostras mais representativas e de os articular com o conhecimento das equipas e profissionais que intervêm.
“Assim, sobretudo nos territórios com menor número de respostas, os resultados devem ser encarados com prudência, constituindo sinais ou tendências a acompanhar, não podendo ser considerados representativos da totalidade da população jovem dessas ilhas”, explica o diretor regional.
Neste sentido, “os resultados constituem uma ferramenta relevante para apoiar o planeamento das respostas, a definição de prioridades de intervenção e o reforço das medidas preventivas em contextos onde sejam identificados maiores fatores de vulnerabilidade, sem descurar a consolidação das boas práticas e dos resultados positivos observados noutros territórios da Região”.
Região com descida no consumo de substâncias
O diretor regional reitera que o estudo evidencia uma diminuição dos consumos e dos comportamentos de risco associados ao álcool, tabaco, canábis e apostas a dinheiro, sugerindo um perfil preventivo globalmente positivo da população juvenil da Região.
Ao nível regional, adianta que 10,4% dos jovens referiram consumos regulares de álcool, 20,1% indicaram já ter experimentado tabaco, 5,9% canábis e 8,3% afirmaram ter realizado apostas a dinheiro no último ano.
Contudo, mostra preocupação com o facto de 31,2% dos jovens referirem ansiedade ou tristeza associadas à utilização das redes sociais.
Pedro Fins realça que estes resultados “são, de uma forma geral, consistentes” com o conhecimento que as equipas de prevenção têm vindo a recolher através da sua intervenção nos diferentes territórios dos Açores.
“O estudo permitiu confirmar algumas tendências que já eram percecionadas no terreno, nomeadamente a persistência da normalização social do consumo de álcool entre os jovens e a crescente relevância dos comportamentos digitais enquanto área emergente de intervenção preventiva”, acrescenta.
O responsável salienta, ainda, que uma das principais conclusões é que a realidade juvenil açoriana é “diversa e heterogénea”, entendendo que as diferentes realidades das nove ilhas da Região Autónoma dos Açores devem ser consideradas no planeamento das intervenções preventivas.
Reforço da prevenção entre as conclusões do estudo
Questionado sobre novas iniciativas ou programas de prevenção previstos através do estudo, Pedro Fins explica que os dados agora expostos “não apontam para necessidade de uma alteração estrutural da estratégia de prevenção”, mas antes um reforço das opções estratégicas que têm sido desenvolvidas na Região.
Entre elas, a criação do Núcleo de Promoção de Estilos de Vida, que “tem contribuído para uma maior coordenação regional das equipas de prevenção, para o reforço da monitorização das intervenções e para uma maior consistência metodológica das ações desenvolvidas em todas as ilhas”.
No caso da Graciosa, o diretor regional explica ao Açoriano Oriental que, face às necessidades do território, as ações de prevenção nas escolas foram reforçadas em 2026 através do trabalho desenvolvido pela equipa de prevenção do Projeto Haja Saúde, em articulação com entidades locais.
Por fim, o futuro estudo do Observatório dos Açores para as Dependências vai permitir o reforço da monitorização dos fenómenos associados aos comportamentos aditivos, uma vez que, segundo Pedro Fins, vai contar com todas as escolas da Região, permitindo ter uma melhor análise da realidade vivida em cada ilha da Região Autónoma dos Açores.
