Soares lamenta que "religiões rebaixem as mulheres"


 

Lusa / AO online   Nacional   27 de Nov de 2007, 14:52

Mário Soares lamentou hoje que "as religiões rebaixem as mulheres" durante um colóquio no Hotel Altis, Lisboa, o mesmo espaço onde em tempos anunciou ser "republicano, socialista e laico".
Para demonstrar a "pouca estima que as religiões têm pela mulher", Soares recitou uma das mais famosas passagens da Bíblia: "Não cobiçarás a mulher do próximo…" e, depois de uma pausa, continuou "…nem o escravo, o boi, o burro, nem nada que lhe pertença".
Para Mário Soares, que é o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, este mandamento sagrado demonstra a "posição de inferioridade" da mulher no mundo da religião, que a iguala ao "boi e ao burro".
"Ao discriminar as mulheres, séculos a fio, um grande número de religiões pregou em vão, agiu de má fé, desrespeitou o sagrado e o divino", disse Manuela Augusto, presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas (DNMS), que hoje abriu o colóquio sobre "Mulheres na Religião".
Em tom irónico, Soares lembrou passagens do Antigo e do Novo Testamento: "Se a lição que se pode extrair do Antigo Testamento é a de que 'devemos evitar as mulheres', no Novo Testamento a mulher surge como 'objecto vergonhoso'".
Para a presidente do DNMS, "não é possível dar continuidade a estes e tantos outros dogmas e mitos" que dão "um estatuto de menoridade e dependência à mulher".
"Levadas ao extremo, algumas das proibições subalternizam-nas, humilham-nas, retiram-lhes a dignidade", acrescentou Manuela Augusto, lembrando que são elas que "passam a mensagem, cobrem os altares, colocam as flores, fazem leituras e cantam", trabalhando para uma causa onde "o topo está reservado aos homens".
Manuela Augusto lembrou ainda que, apesar de as mulheres constituírem a maioria dos fiéis, estão "afastadas dos lugares de honra e glória", sendo-lhe por vezes "vedada a celebração do culto religioso" e até "proibido partilhar com os homens o mesmo espaço de culto".
Para Mário Soares, "as revelações divinas são fruto da imaginação de quem as escreveu", disse o homem que acredita que "não foi Deus que criou o Homem, mas sim o Homem que criou Deus".
"E se, no momento da morte, Deus visitasse Mário Soares?" questionou uma socialista da plateia. "Estou convencido que não existe, mas se me aparecesse, teria naturalmente que reconhecer e lhe dizer: "Afinal, existe".
"O problema das mulheres na religião é uma bota muito difícil de descalçar. Este é um grande problema. Não para mim, mas para os teólogos", disse Soares, afirmando respeitar a crença da sua esposa que, perante a ameaça de perder o filho, se converteu ao catolicismo.
Com o filho à beira da morte, Maria Barroso "começou a rezar. Ele curou-se e ela converteu-se", disse antigo Presidente da república.
"O que é que nós [família] havemos de fazer!? Ela vai à missa todos os Domingos. Faz essas coisas todas. Nós não. Temos de nos respeitar", afirmou.

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