Durante a ConfCAQ 2026 – Conference on Cabin Air Quality, a decorrer em Lisboa e dedicada à qualidade do ar nas cabines de aeronaves comerciais, Hélder Santinhos começou por recordar a história de um colega, que acabou por ter de abandonar a profissão: “Há alguns anos, um dos nossos colegas viveu um evento que mudou a sua vida para sempre”.
“Durante a preparação para um voo, um odor estranho invadiu o seu corpo. Pouco depois sentiu-se mal, teve de ser retirado do voo e os sintomas agravaram-se rapidamente”, continuou.
“Nunca recuperou por completo. Entre vários problemas graves, os rins deixaram de funcionar, obrigando-o fazer diálise. De um dia para o outro deixou de ser piloto”, referiu.
O fenómeno conhecido como “fumes” caracteriza-se pela presença de odores específicos em áreas localizadas da aeronave, sobretudo nas zonas de trabalho da tripulação, podendo ocasionalmente provocar sintomas como tonturas ou mal-estar temporário.
O presidente do SPAC referiu que este “é um problema sério de saúde, não só para os tripulantes, mas também para os passageiros e pode afetar a segurança de um voo”.
A 16 de maio um avião da Azores Airlines, com destino ao Porto, não chegou a sair do aeroporto de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, porque a tripulação reportou a deteção de um odor incomum.
A 06 de março, um voo da TAP que partiu de Lisboa com destino a Miami, nos Estados Unidos, divergiu para Ponta Delgada, devido a um caso de “fumes” a bordo.
De acordo com Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), em 2024, houve 1.249 reportes deste tipo de ocorrências na base de dados europeia.
Neste sentido, a direção do sindicato sugeriu medidas para conter este fenómeno, nomeadamente, garantir acompanhamento médico adequado e proteção social na doença e exigir medidas de mitigação a curto prazo, sensibilizando as empresas para o cumprimento rigoroso dos procedimentos de manutenção, resistindo à pressão comercial de colocar os aviões no ar rapidamente.
Trabalhar em soluções definitivas de longo prazo é também outros dos fatores referidos, pois “a saúde dos tripulantes e passageiros deveria ser uma prioridade de todos”, afirmou Hélder Santinhos, criticando a ausência de representantes do Governo na conferência que decorre no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL).
