Novos cabos submarinos podem reduzir custos de conectividade nos Açores

Entrevista a Henrique Fonseca Administrador da Unidade de Negócios Empresariais da Vodafone Portugal



Que áreas de desenvolvimento e inovação a Vodafone Portugal considera estratégicas neste momento?

A conectividade está no centro da atividade das organizações e das pessoas. Para a Vodafone, isso significa não apenas a rede 5G com maior expressão nacional, mas igualmente áreas com elevado potencial como a Internet das Coisas (IoT), a cibersegurança, a cloud, a análise de dados ou as redes móveis privadas. Cada vez mais com a influência crescente da Inteligência Artificial e dos serviços geridos, em que asseguramos a gestão das principais necessidades tecnológicas das empresas.

O que vemos é uma crescente convergência entre estas tecnologias, permitindo às empresas ganhar competitividade e eficiência, automatizar processos e tomar decisões cada vez mais informadas num mundo cheio de volatilidade e incerteza.

Particularmente nos Açores, acreditamos que existem oportunidades para tirar o maior partido destas tecnologias em áreas como a agricultura, os transportes, a energia, o turismo ou a gestão de recursos naturais. A combinação entre conectividade avançada e Inteligência Artificial poderá ser um dos principais aceleradores da competitividade dos territórios nos próximos anos. E como temos continuamente investido nos Açores, concretamente na rede móvel - quer com novas estações, quer com a disponibilização do 5G em praticamente todas as estações que temos -, estamos a conseguir fazer chegar a velocidade gigabit à larga maioria da população.

Quais os investimentos que a Vodafone está a desenvolver nos Açores? Que valores envolvem? E quais os seus timings?

Se olharmos só para o passado recente, nos últimos anos reforçámos a infraestrutura móvel na região, incluindo a modernização da rede, a instalação de várias novas estações móveis, a generalização da tecnologia 5G (já chegamos a 95% da população) que permite a disponibilização de velocidades gigabit e o reforço do 4G.

Adicionalmente, investimos em redundância com a securitização da nossa rede, modernização dos sistemas de energia e baterias das estações, bem como reforçámos a nossa capacidade no cabo submarino atualmente existente para fazer face ao crescimento do tráfego que o 5G está a exponenciar.

Acompanhamos igualmente com grande atenção as oportunidades criadas para a região com a entrada em operação das novas infraestruturas de conectividade, nomeadamente os cabos submarinos Atlantic CAM, Nuvem e Sol, que poderão criar um contexto mais favorável para o desenvolvimento digital dos Açores.

Estamos ainda a avaliar potenciais oportunidades com novas tecnologias como o Direct to Device (D2D) que a conectividade satélite vai passar a suportar em breve e que a Vodafone está neste momento a testar - e que já demonstrou recentemente quer no UK quer na Irlanda.

Que investimentos foram feitos nos últimos anos?

A nível nacional, a Vodafone continua a realizar um esforço significativo de investimento em infraestruturas. Anualmente, o investimento da Vodafone Portugal ronda os 200 a 250 milhões de euros por ano em todo o País, destinado sobretudo à modernização das redes móveis, à expansão do 5G e ao crescimento das infraestruturas de conectividade.

Existem parcerias com o Governo Regional ou fundos europeus a financiar parte destes investimentos, ou é capital inteiramente privado da empresa?

Os investimentos da Vodafone referidos neste contexto resultam de decisões e investimentos próprios da empresa, que decorreram, no caso do 5G, do valor investido nas licenças durante o leilão de atribuição dos direitos de utilização de frequências. As infraestruturas que implementámos e modernizámos nos Açores desde 1997, quando chegámos à região, são um dos nossos principais contributos para reforçar a competitividade digital dos Açores, criando condições mais favoráveis para o a atividade das empresas e para a inovação.

Que dificuldades logísticas e técnicas específicas coloca a operação num arquipélago como os Açores? Têm reflexo no preço para o consumidor açoriano?

A dispersão geográfica do território e a necessidade de assegurar comunicações robustas entre nove ilhas e o restante território nacional gera, naturalmente, desafios específicos. E a dependência de infraestruturas submarinas assume uma importância muito relevante.

Os custos associados ao acesso aos circuitos submarinos entre os Açores e o Continente ainda condicionam a viabilidade económica de alguns investimentos, nomeadamente na área dos serviços fixos e de televisão. É precisamente por isso que acompanhamos com expectativa os novos sistemas de cabos submarinos, que esperamos que possam aumentar a concorrência, reforçar a capacidade disponível e contribuir para uma redução estrutural dos custos de conectividade da região.

A Vodafone tem falado em “coesão territorial” como motivação para o investimento nos Açores. Como é que isso se traduz em decisões concretas?

Coesão territorial significa, do nosso ponto de vista, que cidadãos e empresas dos Açores acedem às mesmas oportunidades tecnológicas disponíveis para o resto do País. Não há melhor testemunho da nossa aposta neste sentido do que a implementação sucessiva das várias tecnologias móveis desde 1997: GSM, 3G, 4G e 5G. Nestas quase três décadas, a Vodafone contribuiu para reduzir distâncias e para uma maior igualdade de acesso à inovação, ao conhecimento e às ferramentas digitais. Este é um caminho que tem sido feito com o apoio local quer dos nossos colaboradores residentes nos Açores quer com os nossos vários parceiros que asseguram a nossa representação diariamente quer no segmento consumo quer no segmento empresarial.

De que modo os investimentos previstos para os Açores, privados e públicos, nos cabos submarinos vão impactar na atividade da Vodafone?

Os novos sistemas Atlantic CAM, Nuvem e Sol representam oportunidades muito relevantes para os Açores. Estamos a falar de infraestruturas que trazem maior capacidade, maior redundância, maior diversidade de rotas e maior resiliência das comunicações internacionais da região.

Do ponto de vista da Vodafone, estas infraestruturas poderão contribuir para um contexto concorrencial mais dinâmico e para uma eventual redução dos custos de conectividade entre os Açores e o Continente. Caso isso aconteça, poderão surgir condições para avaliar novas oportunidades de investimento e reforçar a nossa presença em segmentos onde até agora não foi possível avançar por circunstâncias económicas.

De que modo a Inteligência Artificial já está a mudar o setor das telecomunicações? E que outras mudanças se anteveem?

A Inteligência Artificial será provavelmente um dos maiores aceleradores da competitividade económica da década. Permite analisar grandes volumes de dados, automatizar processos e melhorar a qualidade da decisão em praticamente todos os setores de atividade.

Nas telecomunicações, já estamos a assistir à utilização crescente da IA na gestão de redes, na monitorização de sistemas, na análise de dados e na cibersegurança. Em áreas como os centros de operações de segurança, por exemplo, a IA ajuda a filtrar alertas, identificar ameaças relevantes e acelerar a resposta a incidentes.

Nos Açores, vemos aplicações particularmente relevantes desta tecnologia, mas há uma condição indispensável para que tal aconteça: existirem redes avançadas e infraestruturas digitais robustas, ligadas ao mundo. Sem a conectividade certa, o potencial da IA ficará irremediavelmente aquém do desejado.

Temos ainda vários casos de uso que temos vindo a desenvolver para ajudar as empresas portuguesas a digitalizarem os seus processos e a serem mais competitivas e que estão disponíveis para as empresas nos Açores e que nesta minha visita tive oportunidade de apresentar a algumas das empresas com quem reuni.

E ao nível da cibersegurança, o que tem sido feito pela Vodafone? O ataque sofrido obrigou a alterações ao nível da proteção de dados?

A cibersegurança deixou de ser apenas uma questão tecnológica para passar a ser um tema central de resiliência e continuidade de negócio. Nenhuma empresa ou organização pode arriscar parar uma hora que seja por uma questão desta natureza. Além disso, as exigências regulamentares recentes aumentaram nesta área, com a diretiva NIS 2. 

Esta é hoje uma das áreas de maior crescimento e relevância estratégica para a Vodafone. Enquanto parceiro tecnológico privilegiado das empresas, temos vindo a reforçar significativamente a nossa oferta nesta área, disponibilizando soluções que abrangem proteção de rede, de dispositivos ou de e-mail, formação aos colaboradores bem como serviços geridos e monitorização avançada de ameaças.

O ciberataque de que a Vodafone Portugal foi alvo em 2022 reforçou ainda mais o foco da organização na proteção das suas infraestruturas, no investimento em resiliência e no desenvolvimento de novas capacidades de cibersegurança para clientes e para a própria operação e mostra bem que todas as empresas, qualquer que seja o seu tamanho, pequenas médias ou grandes, tem que se preparar e estar alerta e a Vodafone tem um papel muito importante quer na sensibilização quer na implementação de soluções para esta ameaça sempre latente numa sociedade cada vez mais digital.

Que procura existe da parte das empresas açorianas por soluções digitais da Vodafone? Vê nos Açores um mercado empresarial ainda pouco explorado em termos de transição digital?

A experiência que temos no mercado açoriano mostra uma procura crescente por soluções de conectividade avançada, cloud, cibersegurança, análise de dados e, mais recentemente, Inteligência Artificial. Em particular, a cibersegurança tem registado uma forte procura, impulsionada tanto pelo aumento das ameaças digitais como pelas novas exigências regulatórias. Há várias soluções a ser discutidas neste momento aqui com as empresas açorianas para impulsionar a digitalização de processos bem como uma crescente preocupação com a sensorização das atividades (agrícolas, produtivas, etc.) para ganhos de eficiência e poupanças de recursos.

Os Açores, segundo o Índice Digital Regional, posicionam-se de forma relativamente forte ao nível do acesso às infraestruturas digitais, mas continua a existir margem significativa de desenvolvimento ao nível da utilização da tecnologia e do impacto económico que se pode extrair dela. Isso demonstra que há potencial para acelerar a transformação digital de muitas organizações açorianas.



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