Riquezas de África fazem empresários portugueses ignorar ambiente negócios


 

Lusa/Ao online   Nacional   4 de Dez de 2007, 07:40

Portugal é o país europeu que há mais tempo negoceia com África e as empresas lusitanas demonstram hoje renovado interesse pelo continente, olhando mais os negócios potenciais do que o adverso ambiente em países como Angola.
Se há mais de meio milénio o Reino de Portugal festejava inteiro o ouro em pó que descobridores como Nuno Tristão e Antão Gonçalves traziam do que é agora o sul de Marrocos, hoje é banal a expansão de empresas para África, que muitas vezes serve para escapar à falta de negócio nos seus mercados, como no sector da construção.

    A poucos dias da Cimeira UE/África, á decorrer em Lisboa, o presidente da Federação Portuguesa da Indústria de Construção e Obras Públicas (FEPICOP), Reis Campos, considerou que a internacionalização das empresas de construção era “algo inevitável que foi potenciado pela actual crise”, que afecta o sector em Portugal desde 2002.

    Angola, disse à Lusa, é o país africano onde estão mais construtoras portuguesas, mas também as há nos outros países africanos lusófonos - Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau - e mercados magrebinos como Marrocos ou Argélia “são cada vez mais apostas ganhas para algumas das construtoras portuguesas”.

    Embora não haja estatísticas específicas, as conhecidas permitem considerar a construção dos sectores mais expostos ao continente africano: 1,9 mil milhões de euros, dois terços da sua facturação no estrangeiro, têm origem em África, segundo dados recentemente divulgados.

    Em pleno processo de internacionalização, a construtora de média dimensão Irmãos Cavaco escolheu São Tomé e Príncipe para começar e depois implantou-se em Angola e a Argélia serve de “âncora” no Magrebe, segundo disse à Lusa o presidente, António Cavaco.

    Enquanto as grandes construtoras - Mota-Engil ou Somague - ganham contratos de centenas de milhões de euros para construir estádios em Angola, quase quotidianamente vão sendo conhecidos planos de expansão para o continente de empresas "emblemáticas" como as alfacinhas Loja das Meias e Rosa&Teixeira e também de pequenas como a Soltráfego - Soluções de Trânsito, Estacionamento e Comunicações ou a empresa de materiais de construção Urbanop.

    “Não há garantias de sucesso”, avisa o presidente da PME Portugal, Joaquim Cunha, associação que lançou recentemente um programa para os seus associados que promove a internacionalização das empresas em consórcio, para minimizar o impacto dos custos da entrada nestes mercados.

    Na estatística de referência para avaliar o ambiente de negócios em diversos países - a listagem Fazer Negócios, do Banco Mundial, que compreende o tempo e custo de criação de uma empresa e segurança dos investidores - os países africanos são claramente os piores colocados.

    Dos dez últimos, apenas Timor-Leste e Venezuela não são africanos; entre 178 países, a Guiné-Bissau é a terceira a contar do fim e Angola e São Tomé aparecem, respectivamente, em 167º e 163º lugar.

    Exemplo da relativa desprotecção dos investidores portugueses nestes mercados são os recentes episódios em Angola do Banco Fomento, grupo BPI, e da cimenteira Cimpor.

    O líder de mercado Fomento, segundo relatos da imprensa local, viu algumas das contas de empresas públicas serem desviadas para concorrentes depois de ter recuado na participação de um consórcio bancário responsável por um financiamento de 3,5 mil milhões de dólares ao governo angolano.

    Integralmente detido pelo BPI, o banco é actualmente rara excepção à participação de investidores angolanos no seu capital no âmbito da denominada "angolanização" da economia, e comprometeu-se perante o governo a dispersar parte do seu capital em bolsa, mas o arranque desta vem sendo sucessivamente adiado há mais de um ano.

    Já a cimenteira Cimpor, do grupo Teixeira Duarte que é antigo investidor no país, teve de vender a sua participação na fábrica luandense Nova Cimangola há um ano.

    Isto porque, dois anos depois da compra desta participação, o governo de Angola veio afirmar que o negócio violava a lei e as regras do mercado de capitais, por não ter respeitado o direito de preferência que o accionista público detinha sobre as acções.

    A participação foi vendida ao Estado e algum tempo depois revendida à Ciminvest, do empresário português Américo Amorim e Isabel dos Santos, filha do presidente José Eduardo dos Santos, de acordo com a imprensa angolana.

    Mas pouco ou nada parece interessar aos empresários estes "desaires", e outros recentes como o do consórcio EDP/Águas de Portugal em Cabo Verde, que se desentendeu com as autoridades em relação aos compromissos da privatização.

    É em Angola que Portugal tem hoje o seu principal parceiro comercial no continente (uma balança de mais de 1.400 milhões de dólares) e as trocas com os países africanos lusófonos são das mais favoráveis que o país tem no estrangeiro.

    No ano passado, Angola foi destino de quase 80 por cento do investimento português nos PALOP, mas até perdeu peso em relação ao registado em 2005, sobretudo para Cabo Verde, que passou a ser destino de 14,3 por cento deste capital.

    Moçambique, continuando a trajectória de descida iniciada em 2002, passou a representar apenas 6,6 por cento do total investido, enquanto os outros países denotam valores bastante mais baixos, representanto no seu conjunto apenas 0,2 por cento das importações portuguesas e menos de dois por cento das exportações.

    Em termos sectoriais, as maiores fatias do investimento português no espaço lusófono foram as de actividades imobiliárias, alugueres e serviços prestados às empresas (41 por cento), actividades financeiras (29 por cento) e construção (21 por cento).

    Em sentido inverso, o investimento em Portugal dos sete países ascendeu a 14,5 milhões de euros, tendo a quase totalidade (95,8 por cento) origem em Angola.

    Depois da entrada da petrolífera angolana Sonangol no capital da Galp e do Millennium Bcp, fala-se já na aproximação a Portugal de uma "onda" de petro-dólares de Angola.

    Investimentos como o da Sonangol são apenas "sinal de começo" de um fluxo de investimentos para Portugal e para a Europa, resultado do crescimento exponencial da economia do país africano, disse à Lusa o presidente da filial portuguesa do banco angolano BIC, controlado por Américo Amorim e Isabel dos Santos.

    "A partir do momento em que a economia angolana cresce e se consolida, passa a haver margem para investir no estrangeiro, e Portugal está bem posicionado para receber esse investimento. Neste momento, o que há é uma coisa embrionária", afirma Mira Amaral.

    Vocacionado para serviços às empresas, aquisição de activos - como acções ou imobiliário - e gestão de patrimónios de particulares, o BIC posiciona-se na "crista" desta esperada onda de investimento angolano.

    O "ouro negro" parece ter tomado o lugar do metal em pó que os descobridores traziam do continente: as exportações de Angola para Portugal aumentaram 20 vezes até Setembro, impulsionadas pelo petróleo, que faz também da Nigéria, Argélia e Guiné Equatorial as principais fontes de importações no continente.

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.