Repatriados sem casa nem trabalho

Repatriados sem casa nem trabalho

 

Paulo Faustino   Regional   26 de Nov de 2007, 10:00

Os cidadãos que chegam repatriados aos Açores, oriundos dos Estados Unidos da América (EUA) e Canadá, estão a debater-se com dificuldades para arranjar emprego e até um sítio para dormir nas ilhas, sobretudo em São Miguel. Não são apenas as pessoas nesta condição que o dizem: também as instituições que lidam de perto com aquela problemática referem o mesmo.
“Confronto-me com isso no dia-a-dia: é difícil arranjar quartos, casas para alugar e encontrar trabalho para as pessoas repatriadas”, conta o sociólogo Paulo Fontes, responsável pelo Centro de Acolhimento Temporário e de Emergência em Ponta Delgada, vocacionado para o acompanhamento de grupos em risco de exclusão, como é o caso dos deportados. A estes “estendem a mão”, na maior parte das vezes, instituições particulares de solidariedade social e departamentos do governo, ajudando a contornar o bloqueio imposto pela estigmatização da sociedade açoriana.


As causas desta situação estão diagnosticadas e remetem para a carga negativa atribuída ao conceito de repatriado. Inclusive à própria pronúncia da palavra. É assim desde 1996, quando começaram a chegar todos os anos, em vagas de dezenas, aos Açores. São repatriados por terem cometido crimes nos EUA e Canadá e, sem a protecção da cidadania norte-americana ou canadiana, acabaram condenados a penas de prisão, e depois a regressar compulsivamente à sua terra de origem. Muitas vezes sem mulher e filhos a acompanhá-los, sem família à espera e sem saber ler nem escrever em português.

Há onze anos, ao contrário do que acontece actualmente, era incipiente no arquipélago a qualidade do acolhimento e acompanhamento dado aos deportados. Entregues à sua sorte, alguns causaram problemas. E foi como se tivessem ganho um nome feio para o resto da vida, que ainda hoje não os livra de barreiras na obtenção de trabalho e alojamento. “Repatriado? A população tem medo dessa palavra e esse estigma forte é um grande obstáculo”, acentua o sociólogo. Um grande e preocupante obstáculo, revelador de que a integração social está a falhar. O problema conhece o cúmulo quando os cidadãos repatriados, mal chegam aos Açores, ouvem comentários pejorativos de cidadãos locais. Não fizeram nada, não disseram nada, mas só de as pessoas verem o seu estilo diferente, são logo “rotulados”. Dizem: “‘olha lá vai mais um repatriado’. É terrível quando um jovem de 30 anos é expulso do país que era tudo para si e mal acaba de chegar a uma ilha, que é como uma segunda prisão, começa a ouvir ‘bocas’”.

Alguns acusam a “dor forte”, e das duas uma: ou mergulham na desmotivação, ou revoltam-se. Nalguns casos, reincidem nas drogas e vão parar, de novo, à cadeia. Noutros, têm a suficiente vontade de viver para começar do zero.
É o ideal, mas para isso impõe-se uma sociedade “menos discriminatória, mais solidária e aberta a dar oportunidades”.

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