Preito de gratidão à professora Maria Simas

Preito de gratidão à professora Maria Simas

 

Victor Rui Dores   Regional   9 de Fev de 2019, 09:00

Decorreu recentemente na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, cidade da Horta, uma sessão de homenagem à professora faialense Maria Simas Cardoso (1929-2017), naquele que foi o primeiro aniversário do seu falecimento.

Tendo como orador convidado o secretário regional da Educação e Cultura, Avelino Menezes, associaram-se à referida homenagem amigos, colegas, antigos discípulos e familiares de Maria Simas.


Através de testemunhos e mensagens lidas, todos foram unânimes em reconhecer, de forma emotiva, o papel decisivo da professora a nível da formação cultural de várias gerações de alunos, bem como a sua prestação no desenvolvimento do ensino profissionalizante no Faial.


O historiador Artur Teodoro de Matos, ex-aluno da homenageada e um dos promotores do evento, dirigindo a palavra ao presidente da Câmara Municipal da Horta, exprimiu o desejo de que “o nome de Maria Simas possa ser perpetuado em qualquer lugar ou instituição da Horta, para consolo dos presentes e memória dos futuros”.


De entre os muitos ex-alunos de Maria Simas, estiveram presentes na sessão Rosa Goulart, professora universitária e Delfina Porto, autora de um livro sobre a história da Escola do Magistério Primário da Horta, único no género a nível dos Açores.


Henrique Barreiros, presidente da direção da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, lançou o repto a Avelino Menezes para que seja feita a história da Educação dos Açores.


Referência indelével e figura incontornável, Maria Simas frequentou a Escola do Magistério Primário da Horta até 1950. Exerceu a atividade docente do primeiro ciclo nas freguesias de Angústias, Pedro Miguel, Feteira, Praia do Almoxarife e Matriz, espraiando competência, amizade e afabilidade.


Mais tarde lecionou, na referida Escola do Magistério e durante 20 anos, as disciplinas de Didáctica Especial, Legislação e Administração Escolar. Em 1978, assumiu as funções de diretora daquele estabelecimento de ensino até ao seu encerramento em 1989.


Durante anos lutou pela continuação da formação de professores da Horta, tornando-se responsável pelo Centro Integrado de Formação de Professores (CIFOP), que lhe permitiu negociar a extensão do ensino da Universidade Aberta à cidade da Horta.


Ao longo da sua vida recebeu várias homenagens e condecorações, tendo-lhe sido imposta, em 2013, a Insígnia Autonómica de Dedicação.


Num programa que mantive durante vários anos na RTP/Açores, intitulado “Conversas do Triângulo” (mais tarde “Conversas Açorianas”) tive a oportunidade de entrevistar a professora Maria Simas que deu-me um excelente testemunho da sua vida docente em princípio de carreira, em plena ditadura salazarista.


Era o tempo da política educativa regida pela Constituição da República de 1933. Um tempo muito difícil para quem ministrava o ensino primário e para quem fazia da sua profissão uma verdadeira missão: salas de aula sem as mínimas condições de salubridade, higiene e funcionalidade pedagógica, e com pouquíssimos recursos didáticos; 50 alunos numa mesma sala repartidos por quatro classes; o professor não podia residir a mais de 5 km do local de trabalho e, se apresentasse um aproveitamento escolar inferior a 70% não justificável, era-lhe atribuído a classificação de “deficiente”. Esse ano não contaria para a diuturnidade (que era de 5 anos) e, ao segundo “deficiente” sem razão plausível, seria a expulsão da profissão.


Esta tremenda pressão que se abatia sobre o professor primário explica a “pedagogia da reguada” de que a minha geração foi vítima.


Por conseguinte, o professor primário era “pau para toda a obra” e, apesar das dificuldades, não lhe faltava o espírito de bem servir as populações escolares e as famílias.


Nesse tempo, o docente não auferia ordenado nas férias nem tinha direito a qualquer tipo de subsídio. E se a vida docente era difícil para o homem, bem pior era o cenário da professora primária. Por exemplo: ela só poderia casar mediante autorização do Ministério da Educação; e para acrescentar o apelido do marido ao seu nome, ela tinha que pagar 400 escudos, uma exorbitância para a época. E tem mais: o marido da professora não podia auferir um ordenado inferior ao dela e teria que ter “bom comportamento moral e civil”.


Se ela quisesse viajar para fora do país, era obrigatório a apresentação de uma autorização escrita quer da parte do diretor escolar, quer da parte do esposo. Pior: ela só tinha direito a 15 dias de licença de parto e, em serviço, era obrigada a ser comedida e recatada na aparência: não podia usar 'make up' e estava proibida de pintar os lábios. E se fosse mãe solteira era expulsa da profissão.


Os tempos mudaram e para melhor. Mas nunca será de mais homenagearmos os nossos velhos mestres.



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