Os Açores e o mar: turismo e outras coisas...

Os Açores e o mar: turismo e outras coisas...

 

Luís Miguel Vasconcelos Cravinho   Regional   22 de Nov de 2007, 14:35

"Que impróprio chamar Terra a este planeta de oceanos!”
A afirmação, atribuída a Arthur C. Clarke, não sendo recente sintetiza uma nova consciencialização política e social em relação ao Mar e a todas as potencialidades e oportunidades que ele encerra.
Começam a surgir sinais evidentes da necessidade de uma mudança de atitude a nível mundial, particularmente da União Europeia, quanto à importância que os Oceanos assumem no desenvolvimento das sociedades. Calcula-se que as regiões marítimas são responsáveis por mais de 40% do PIB europeu!
Neste quadro, a Comissão Europeia lançou uma iniciativa sem precedentes conducente à elaboração de um Livro Verde para uma futura política marítima da União, com o objectivo de “construir uma visão comum para os oceanos e mares”.
No documento apresentado à discussão, a Comissão enuncia nos seus objectivos estratégicos 2005-2006: “torna-se especialmente necessário termos uma política marítima abrangente, orientada para o desenvolvimento de uma economia marítima florescente (…), de uma forma sustentável para o ambiente. Esta política deve assentar na excelência da investigação científica, da tecnologia e da inovação marítima”.
Em Portugal a tendência mantém-se.
Ao darmos uma olhadela, por exemplo, no Plano Estratégico Nacional do Turismo, que tem por base as tendências da procura internacional, ele aponta as linhas mestras do desenvolvimento sustentado do sector para os próximos anos, definindo 10 produtos seleccionados em função da sua quota de mercado, do potencial de crescimento e do potencial competitivo do país. Destes, destacamos o Turismo de Natureza e o Turismo Náutico, que constituem efectivamente um novo posicionamento do país e que produzirão forte impacto na estruturação da oferta.
Para os Açores, o que significará isto?
No âmbito nacional, o arquipélago açoriano constitui um enorme potencial de riqueza a todos os níveis, se considerarmos que o território que o compõe vai muito para além das nove ilhas e se estende numa vasta dimensão oceânica. Aliás, são os Açores (e a Madeira, naturalmente) que conferem a Portugal a sua verdadeira dimensão atlântica, que desta forma lhe permite gozar de um estatuto privilegiado no palco das relações internacionais.
No que concerne ao Plano Estratégico Nacional do Turismo, considera-se que os Açores são uma “região prioritária para o crescimento e diversificação dos produtos relacionados com o Turismo de Natureza”, aliado a novas apostas no segmento da Saúde e Bem-Estar, do Golfe e, obviamente, do Turismo Náutico.
Esta aposta está certamente relacionada com as condições naturais ímpares que as ilhas oferecem, consubstanciadas no seu exotismo, na salvaguarda e conservação do seu património natural, a extraordinária biodiversidade da sua fauna marinha, bem como pelas características culturais individuais de cada ilha e o elevado interesse turístico-científico da geologia, da vulcanologia e da oceanografia.
Face ao exposto não resta margem para dúvidas quanto à importância que o Mar assume no desenvolvimento da Região, seja por via do turismo, seja por via das comunicações marítimas internas, seja ainda pela dinamização económica, que concomitantemente contribuirão para relevar a verdadeira Identidade Açoriana, que deverá ser plasmada no plano social, económico, científico e histórico-cultural. O Mar – a realidade que nos une e agrega em prol de um bem – deverá ser um elemento central nas políticas de desenvolvimento dos Açores.
A realidade insular e arquipelágica permite uma multiplicidade de produtos turísticos, os quais deverão constituir uma oferta importante no contexto do “Destino Açores”.
A proximidade entre as ilhas (umas mais do que outras, é certo) favorece o surgimento de actividades que vão desde o transporte marítimo de passageiros, passando pelo sailing, a canoagem, o mergulho, a pesca desportiva de costa e de alto mar, até ao whale watching, que nos Açores assume características ímpares no mundo!
O mercado de viagens relacionadas com o Mar oferece grandes oportunidades aos destinos que pretendem desenvolver a oferta turística neste sector, sendo que as previsões de crescimento para este mercado são encorajadoras, apresentando uma taxa média anual entre os 8 e os 10%.
Um dos aspectos a ter em conta na afirmação dos produtos turísticos dos Açores, para além da imprescindível qualidade, é o factor de diferenciação! O reconhecimento e notoriedade pelos mercados emissores da especificidade do Turismo nos Açores são factores chave da competitividade do nosso produto. Num mercado global e competitivo como é a indústria do turismo, a afirmação do “produto Açores” passará pelo quão diferente nós somos e não pelo que somos iguais a outros destinos.
Torna-se imperativo ter bem presente, na mente de todos os que diária e paulatinamente trabalham na consolidação do destino Açores, que as nossas ilhas não concorrem entre si mas sim num imenso mercado global. Os Açores estão a concorrer directamente com outras regiões do mundo – mais próximas ou mais distantes, mas igualmente qualificadas –  que procuram atrair novos mercados emissores através de estratégias de marketing devidamente estruturadas e fortemente dirigidas.
Provavelmente não possuindo os recursos financeiros de que outras regiões dispõem, deveremos centrar a nossa estratégia promocional em nichos de mercado com elevada aptidão ao consumo dos nossos produtos ligados à Natureza, onde os Açores poderão afirmar-se e assim crescer de forma sustentada.
Preferiria no entanto enquadrar esta questão num plano mais abrangente, que passaria pela criação na Região dos Açores de um cluster das indústrias marítimas, no qual a “dimensão económica e empresarial estivesse articulada com a dimensão tecnológica e científica, favorecendo a cooperação em matéria de investigação e desenvolvimento, orientada para a qualificação e inovação das actividades económicas presentes e para o apoio à criação de novas iniciativas empresariais de elevado potencial tecnológico”.
Este conceito não é novo e já está a ser posto em prática, por exemplo, na região Norte de Portugal/Galiza, que inclui diversas universidades, organismos públicos e empresas de ambos os lados da fronteira, que levaram à criação do Instituto para o Desenvolvimento do Conhecimento e da Economia do Mar (IDCEM).
Por cá, também temos instituições científicas de elevado nível, cujo papel poderia ser ainda mais preponderante na criação de uma dinâmica que permitisse gerar mais emprego qualificado, promover um empreendedorismo de base tecnológica e que projectasse os Açores muito para além das fronteiras destas fantásticas ilhas atlânticas.
Por último gostaria de saudar a iniciativa do Governo dos Açores relativamente ao “Contributo Açoriano para a futura Política Marítima Europeia”, onde se vislumbra uma visão estratégica para os assuntos do mar, da sustentabilidade, do ambiente, da investigação e do turismo, fundamental para a Região. O futuro dos Açores passa sem dúvida pela valorização do Mar!

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