Operação AzoresBus inicia com alguns constrangimentos

O começo da nova operação de transportes coletivos de passageiros, na ilha de São Miguel, contou com alguns percalços que se traduziram em atrasos nos autocarros. No entanto, nem tudo correu mal para alguns passageiros



Para quem é utilizador de autocarros na ilha de São Miguel, a manhã de ontem foi um pouco diferente e algo confusa. A AzoresBus, empresa que ganhou o concurso público de transporte rodoviário na ilha, deu inicio à operação de transportes coletivos de passageiros, mas nem tudo correu bem. 

Motoristas confusos, porque foram mudados das zonas às quais estavam habituados; utilizadores que se depararam com supressão de algumas carreiras; alterações de paragens, originando dúvidas se, àquela hora, passava ou não o autocarro; se estava ou não no local correto. Ou seja, uma manhã de atrasos nas carreiras e atrasos nas chegadas aos locais de trabalho.

O Açoriano Oriental esteve ontem a ouvir alguns testemunhos de passageiros, na zona da Alfândega, em Ponta Delgada. Houve testemunhos para todos os gostos.

“Usei o autocarro hoje (ontem) de manhã para vir até Ponta Delgada. Não correu lá muito bem, o senhor (condutor) enganou-se no caminho e tivemos que voltar para trás. Não fiquei muito tempo à espera pelo autocarro, apenas cheguei mais tarde cá abaixo devido ao tal engano que mencionei”, afirmou uma passageira que ia seguir viagem na carreira para Vila Franca do Campo.

Uma outra passageira referiu que estava a “ser muito complicado com estes autocarros. Eu vim de manhã até Ponta Delgada para fazer um exame, era suposto ter apanhado o autocarro das 9h00 e quando saí de Vila Franca já era 10h00, estive uma hora à espera. O percurso foi realizado da forma correta, só que cheguei atrasada”.
“O autocarro ainda não chegou. Já deveria ter chegado, mas está complicado. Já vou para baixo com 40 minutos de atraso, e agora está atrasado outra vez”, disse um passageiro que esperava o autocarro para a Lagoa.

“O autocarro já está atrasado 10 minutos. Os condutores não estão habituados a fazer estas carreiras e então está tudo a atrasar. Os condutores deveriam ter tido mais formação durante  mais tempo”, salientou outra passageira.

Apesar dos vários constrangimentos, nem tudo foi mau, houve casos em que a situação decorreu dentro da normalidade.

“Já andei hoje (ontem) de autocarro e correu tudo muito bem. O senhor foi muito atencioso, está tudo muito bem. Esperei apenas cerca de 5 minutos, nada mais do que isso. Nós temos de compreender o lado deles, não é fácil começar logo assim”, disse uma senhora que já ia regressar a casa. “Este primeiro dia está a correr muito bem. Eu já vim cá para baixo e agora vou para cima, até agora está tudo dentro das horas supostas. Por acaso não tenho muito o hábito de andar de autocarro, mas hoje correu tudo bem”, opinou uma senhora.

Uma passageira que esperava o autocarro para a Relva afirmou que a viagem até à cidade “correu bem e e até agora está tudo ótimo”, disse para acrescentar que os novos autocarros “têm ar condicionado. Já em relação aos horários, é preciso esperar, tudo tem a sua hora. Pelo menos hoje, os autocarros estão a ser cinco estrelas, parecem aviões da SATA!”. A finalizar disse que “hoje (ontem) é normal haver problemas no início, as pessoas ainda não estão habituadas”.

As dificuldades dos profissionais

O primeiro dia não foi só complicado apenas para os passageiros. Para os profissionais, lidar com uma nova realidade requer um período de adaptação, tal como explica um fiscal de exploração de transportes públicos ao Açoriano Oriental.

“O primeiro dia tem sido um desafio, está a ser difícil porque  a maioria dos autocarros não está a sair às horas previstas, infelizmente. Os condutores estão a habituar-se a utilizar a nova máquina de venda de bilhetes, que é um modelo novo, sendo que muitos deles estão a fazer percursos que não estavam habituados a realizar anteriormente”, referiu.
“Como fiscal, estou a tentar mostrar às pessoas que é o primeiro dia. E num primeiro dia, como em qualquer operação, existem falhas. Infelizmente não estamos a conseguir cumprir os horários, mas depois, com o tempo, os profissionais vão habituar-se às novas diretrizes e vai tudo regressar à normalidade”, concluiu.

AzoresBus iniciou “todos os serviços com sucesso”

Para Sérgio Ferreira, diretor geral da Vale do Ave, a operação da AzoresBus em São Miguel iniciou “todos os serviços com sucesso”. No entanto, houve algumas situações, em que os “horários foram ligeiramente alterados e as pessoas não consultaram atempadamente os horários, por isso, alguns autocarros foram perdidos”, disse, para explicar que chegaram outras situações, “por exemplo durante a manhã (de ontem) duas circulações não foram realizadas, mas de carreiras com frequência de 30 e 30  minutos, por isso o impacto foi mais reduzido. Houve outra situação numa carreira na zona dos Arrifes, que por uma questão técnica não foi possível efetuar esse serviço. Também algumas situações na zona de Santo António em que o horário foi ligeiramente alterado e as pessoas ainda estavam à espera do horário antigo”. 

Adianta ainda que a empresa está a efetuar percursos e horários “com aquilo que nos foi transmitido através do contrato de concessão. Algumas coisas já retificamos porque não estavam predeterminadas no plano de rede oferta que estava definido”.

Sobre o número de motorista que iniciaram a operação, Sérgio Ferreira refere que “não temos todos os motoristas que tínhamos em mente, mas estamos a cumprir toda a oferta planeada, ou seja, não há nenhum serviço que tenha ficado por fazer por falta de motoristas”. 

Neste momento, a empresa tem “cerca de 70 motoristas, uma parte do seu quadro e outra dos motoristas que transitaram das antigas empresas. Este processo de transição também leva a algumas situações mais complicadas. E as pessoas, de facto, estão a adaptar-se”. 

Tendo em conta a falta de motoristas, um “problema que vem do passado”, a empresa tem em curso ações de captação de novos motoristas, aliás, “temos motoristas já em formação”. Por outro lado, “temos também prevista a vinda de motoristas da nossas empresas do continente, para fazer face ao início do ano escolar”.

Sérgio Ferreira afirmou ainda que ontem “tivemos, em Ponta Delgada, uma equipa a informar os passageiros das alterações e também da nova forma de poderem consultar os horários, porque já temos também a nossa app disponível”. 

O diretor geral da Vale do Aves sublinha que toda a informação está disponível no site da AzoresBus, podendo também recorrer às redes sociais e WhatsApp. 

Para quem tiver dificuldade no acesso à internet, “podem ligar para a linha apoio ao cliente – 296097097 -, ou então nas nossas bilheteiras, localizadas no Centro Comercial SolMar, em Ponta Delgada, e no Terminal Ribeira Grande”.

“Inicio com alguns percalços”, diz o sindicato

Para o Sindicato dos Profissionais dos Transportes, Turismo e Outros Serviços de São Miguel e Santa Maria (STTOSSMSM), o início da operação da Azoresbus iniciou com alguns percalços, nomeadamente no que diz respeito à mudança de zona de motoristas. 

Ao Açoriano Oriental, Nuno Amaral, presidente do sindicato explicou a empresa “trocou os motoristas das zonas que estavam habituados. Ou seja, estamos a falar de novos autocarros, novas rotas, máquinas novas e trocar os motoristas de zona fez com que o serviço ficasse prejudicado”, acrescentando que “temos recebido imensas queixas dos motoristas que estão fora das suas zonas de conforto. Os motoristas tiveram que acordar muito mais cedo que o costume, para se dirigirem com os autocarros para outras zonas”, o que não agradou à maioria dos motoristas.

“Isso está a gerar muito descontentamento. E, infelizmente, estamos a receber algumas mensagens... estamos com um bocadinho de receio porque fala-se novamente em cartas de demissão”, disse. 

Esta é uma situação que o sindicado espera ver resolvida e como tal “vamos ter uma reunião na próxima sexta-feira para debater estes problemas”. 

Nuno Amaral sublinha que “começar mais cedo, para sair mais tarde, não é o ideal. Acho que a empresa têm de começar a ponderar essa situação, resolvê-la o mais breve possível, por forma a que a operação funcione a 100%, também para se ter uma imagem diferente daquilo que foi nos últimos anos”.




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Os municípios dos Açores, à semelhança do resto do país, aguardam que o Governo da República defina os meios de financiamento alternativos para os investimentos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que ainda se encontram em execução