“A sua obra é uma obra dura, martirizada, é uma obra que expressa um sentimento de vivência difícil que ele teve durante o seu período de vida, mas é uma obra que tem uma atualidade muito grande e de excecional qualidade”, afirmou, em declarações à Lusa, o diretor do Museu de Angra do Heroísmo, Jorge Paulus Bruno.
Neto do pintor Domingos Rebelo, natural da ilha de São Miguel, e filho do arquiteto João Correia Rebelo, Miguel Rebelo, que morreu em 2016, com 58 anos, foi um dos artistas açorianos da diáspora com maior reconhecimento.
Com uma obra “marcadamente modernista”, o arquiteto João Correia Rebelo “não foi compreendido no seu tempo” e acabou por emigrar para Montreal, no Canadá, quando Miguel Rebelo tinha apenas 12 anos.
Foi entre Portugal e o Canadá que o pintor desenvolveu “uma linguagem plástica de caráter muito pessoal, marcada pela experimentação, pela intensidade ‘matérica’ e por uma pintura gestual onde a cor, a textura e a memória ocupam um lugar central”, refere uma nota da Direção Regional da Cultura dos Açores sobre a exposição no Museu de Angra do Heroísmo.
“A sua obra afasta-se de fórmulas convencionais e explora uma expressão livre, frequentemente associada ao abstracionismo lírico e ao expressionismo contemporâneo. Críticos e curadores destacam na sua produção a permanente tensão entre a tradição familiar e a procura de uma linguagem autónoma e inovadora”, acrescenta.
Referenciado nos arquivos da National Gallery of Canada, Miguel Rebelo era representado em Portugal pela Galeria 111, uma das mais importantes de arte contemporânea do país (com artistas como Paula Rego e Lourdes Castro, entre muitos outros), e a sua pintura está integrada em coleções públicas e privadas.
Na exposição “Belo Insubmisso”, o Museu de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, expõe cerca de 40 obras de Miguel Rebelo, de um total de 60 doadas pelos herdeiros, após a morte do pintor.
“Foi uma doação muitíssimo importante, que o Museu de Angra, com muito orgulho, acolheu", porque, sendo um museu açoriano, "o conjunto desta obra vem enriquecer todo o património da arte contemporânea” dos Açores, salientou Jorge Paulus Bruno.
A ligação de Miguel Rebelo à ilha Terceira decorre de duas exposições, em 2005 e 2007, na Carmina Galeria, do artista plástico terceirense Dimas Simas Lopes.
Quando a galeria de arte contemporânea foi doada ao Museu de Angra do Heroísmo, a instituição tentou adquirir cerca de uma dezena de obras de Miguel Rebelo que lá se encontravam e o filho Rapahël doou-as.
“Há dois anos, veio aqui, conheceu o museu, conheceu a Carmina Galaria e ficou convencido de que o destino das obras que estavam em Lisboa deveria ser o Museu de Angra”, revelou Jorge Paulus Bruno.
“É um conjunto de 60 obras notáveis. Deixou algumas à Fundação Calouste Gulbenkian, também, o que engrandece esta doação”, acrescentou.
O diretor do Museu de Angra do Heroísmo frisou que Miguel Rebelo é “um nome grande da arte contemporânea, não só portuguesa, mas acima de tudo internacional”.
O pintor luso-canadiano utilizava uma “linguagem única” para refletir os seus sentimentos nas suas obras. Chegava mesmo a utilizar uma lixadora e a rasgar as suas telas.
“É uma obra que expressa uma angústia do criador. Nem todas as obras de arte expressam sentimentos confortáveis”, ressalvou Jorge Paulus Bruno.
A ideia é corroborada pelo filho do pintor, Rapahël Rebelo, num texto emotivo que escreveu para a inauguração da exposição.
“Embora o seu trabalho seja fruto de uma exigente pesquisa intelectual, as suas emoções transpiram através da pele das suas telas. As cores correspondem à sua alegria de viver e aos períodos felizes da sua existência, o que, para o meu pai, significava quase sempre períodos de amor. Já os cinzentos, os negros e os brancos são o reflexo de um homem que foi entrando progressivamente em depressão e que lutou, durante os últimos dez anos da sua vida — demasiado breve, apenas 58 anos — contra episódios psicóticos e contra as consequências devastadoras de vinte anos de terapêutica antirretroviral para combater o VIH”, adiantou.
Rapahël Rebelo destacou a “enorme coragem” do pai para “viver à margem”, na escola, na carreira e na vida política e amorosa.
“É difícil existir numa sociedade que parece não ter previsto um lugar para nós. É, por isso, a coragem que, antes de mais, retenho da vida do meu pai. Manteve-se de pé contra ventos e marés e entregou-se inteiramente à pintura, apesar dos juízos e das incompreensões que o seu modo de vida inevitavelmente suscitava”, sublinhou.
