Lobo Antunes, o escritor que negoceia livros com a Morte


 

Lusa/Ao online   Nacional   28 de Nov de 2007, 08:26

Com 19 romances publicados e o vigésimo a caminho, o escritor António Lobo Antunes protagonizou, terça-feira à noite, na Figueira da Foz, duas horas de sessão literária onde disse negociar livros com a morte.
"Sempre negociei livros com a morte. Ela deixa-me escrever mais dois livros, mais três livros", afirmou Lobo Antunes, perante mais de uma centena de pessoas que se deslocaram ao Casino da Figueira da Foz para assistir ao lançamento do mais recente romance do escritor, "O Meu Nome é Legião".

    Lobo Antunes dissertou sobre a morte - tema sempre presente nos seus romances - mas também sobre a família, as mulheres, a política partidária, a carreira médica e, claro, a escrita.

    O psiquiatra que não queria ser médico e que, em 1985, passou a dedicar-se por inteiro à actividade de romancista comoveu-se ao lembrar a história de um antigo e jovem paciente e espantou a assistência quando elogiou uma frase - e nela o patriotismo - do cantor Tony Carreira.

    O jornalista Carlos Pinto Coelho - que moderou a sessão - acabaria por classificá-la como "histórica", tal o à-vontade e a abertura demonstrados por Lobo Antunes, escritor que tem fama de irascível e dá poucas entrevistas.

    Uma das "provocações" de Carlos Pinto Coelho relacionou-se, precisamente, com o tema da presença da morte nos romances de Lobo Antunes.

    "A morte é uma coisa assustadora. Ninguém está preparado para morrer, vivemos em função de eternidades", respondeu o escritor, esclarecendo que as eternidades a que se referiu podem durar 50 anos para um jovem ou seis meses para um idoso.

    Pinto Coelho volta à carga e leva o "amigo" Lobo Antunes escritor à consulta com o Lobo Antunes psiquiatra: poderá o "príncipe do convívio" de uma roda de amigos, o autor das letras de dois discos de Vitorino, estar bem consigo próprio e com o mundo antes da morte que antevê, enquanto escreve que não gosta do homem que vê no espelho? - inquiriu.

    "Pode", ripostou Lobo Antunes. E acrescentou: "Graças a Deus tive momentos de grande alegria e grande felicidade". Momentos entrecortados pela "vergonha" que diz ter de cada vez que morre uma pessoa de quem gosta.

    "Não há direito", lamentou.

    António Lobo Antunes viaja então no tempo, até à altura em que fazia o internato de Pediatria, colocado numa unidade para crianças com doenças terminais.

    A história de José Francisco, o jovem paciente, transformou-se na emoção da noite - e o escritor emocionou-se - ao relatar os momentos seguintes à morte da criança, o transporte do corpo para a morgue, ao colo de um funcionário do hospital.

    Descreve o corpo inanimado a afastar-se no corredor, coberto com um lençol, "um pé pequenino a balançar para fora".

    "Acho que escrevo para um pé. Escrevo para o pé do Zé Francisco, para aqueles que não tem voz, que não têm nada", disse.

    E confessou o "medo" que tem de escrever as seis ou mais versões de cada primeiro capítulo, obrigatórias "até o livro encontrar o seu caminho".

    O "drama" fica guardado para o final, a angústia que sente em saber se um livro está acabado: "Um livro - sustenta - é um organismo vivo, vai-se afastando de nós e vai seguindo o caminho dele, é como uma mulher que deixou de gostar de nós e quer que a deixem em paz".

    Apesar do medo que diz ter de escrever, sente-se "culpado" quando não o faz.

    Alude aos próximos três a quatro meses que vai passar "sem escrever nada" - tem o vigésimo livro já pronto, com publicação prevista para final de 2008 - minimizados pelas crónicas na revista Visão, assinadas pelo "homem da crónica paralela", como lhe chama Carlos Pinto Coelho.

    "Se eu fosse a mulher que vive comigo, tinha mais ciúmes dos livros do que de outras mulheres" disparou, arrancando gargalhadas da assistência.

    O estilo provocador leva-lhe o discurso para uma associação de ideias entre a dificuldade da vida a dois que justificou a "invenção" dos jornais de fim-de-semana.

    "Qualquer dia não é necessária a pílula, as pessoas vão à rua e compram o Expresso", ironizou.

    Mais provocações ficaram guardadas para os partidos políticos - Lobo Antunes chegou a estar filiado na APU no início da década de 80 - em especial para os comunistas: "Quando entrei no PCP ia aos comícios do CDS, cheiravam tão bem. Nos do PCP cheirava que tresandava".

    Assumindo um discurso caricatural, Lobo Antunes contrapôs aos comícios do CDS, "com mulheres bem vestidas, de muita seda natural", os do PCP.

    "Os gritos de 'Povo Unido', aquelas bocas, aqueles punhos, tudo muito feio, as mulheres feias. Tanto que nunca mais fui a um comício", justificou.

    Aos 65 anos e recentemente recuperado de uma intervenção a um cancro nos intestinos, o vencedor do Prémio Camões 2007 afirma que a sua vida mudou após a estada num hospital público, onde foi tratado.

    "Tive uma lição de coragem e humanidade de pessoas pobres, porque os ricos não vão a hospitais públicos. A minha vida mudou a partir daí", asseverou.

   

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