A Casa do Gaiato de São Miguel - Obra de Padre Américo assinala, em 2026, 75 anos de existência. A instituição, dedicada ao acolhimento de crianças e jovens em risco, enfrenta atualmente novos desafios sociais e financeiros, ao mesmo tempo que reforça a ligação à comunidade através da recente criação da Liga dos Amigos.
Em entrevista ao Açoriano Oriental, o padre Norberto Brum, presidente da instituição, realça que atualmente a Casa do Gaiato dispõe de três valências, estando prevista, em breve, a autonomização de uma casa geminada, passando a quatro valências distintas.
Neste momento, a Casa do Gaiato acolhe 34 crianças e jovens, faltando apenas duas vagas para atingir a capacidade máxima. Segundo o padre Norberto Brum, desde o Natal registou-se um aumento significativo de pedidos de acolhimento, sobretudo por encaminhamento dos tribunais. “Tem havido uma procura muito grande e temos feito todos os esforços para responder, mas estamos praticamente na lotação máxima”, sublinhou.
A instituição conta com cerca de 45 colaboradores. No entanto, o número é considerado insuficiente face às exigências legais e às necessidades das crianças. A legislação prevê nove monitores por cada casa com 10 crianças, para garantir a rotatividade de turnos, numa estrutura que funciona 24 horas por dia.
A situação torna-se mais exigente com a entrada recente de crianças cada vez mais novas - algumas com apenas quatro anos - e com necessidades específicas, incluindo casos que exigem acompanhamento permanente.
O
principal desafio, refere o presidente da instituição, é o
acompanhamento individual de cada criança, tanto na vertente escolar
como social, emocional e espiritual.
“O processo de integração é
muitas vezes lento e doloroso. Estas crianças chegam com marcas
profundas, vindas de contextos familiares difíceis, e nem sempre aceitam
a medida de acolhimento”, explicou.
A saúde mental assume um papel
central na intervenção, com recurso a psicólogos, psiquiatras e
pedopsiquiatras. Para além disso, a instituição procura promover uma
formação integral, assegurando alimentação adequada, acompanhamento
escolar, atividades extracurriculares e organização da vida quotidiana.
Liga dos Amigos: envolver a comunidade
Face às crescentes dificuldades financeiras, foi criada recentemente a Liga dos Amigos da Casa do Gaiato. A iniciativa tem dois objetivos principais: envolver a comunidade no processo de formação e reabilitação das crianças e reforçar o apoio material à instituição. Apesar dos apoios públicos atribuídos por criança, os valores não cobrem todas as despesas, que incluem alimentação, água, eletricidade, pessoal técnico e manutenção.
“Há uma degradação contínua das contas. As exigências são cada vez maiores e precisamos de mais apoio”, afirmou o responsável.
O
padre Norberto Brum recordou que, antigamente, a Casa do Gaiato vivia
quase exclusivamente dos donativos da comunidade, com o apoio direto de
famílias e empresas. Com a entrada dos apoios do Estado, criou-se a
ideia de que todas as despesas estariam asseguradas, o que levou a uma
diminuição significativa das contribuições da comunidade.
A adesão à
Liga dos Amigos é simples e sem qualquer compromisso financeiro
obrigatório. Os interessados inscrevem-se através do site da instituição
e passam a receber informações regulares sobre as atividades
desenvolvidas e as necessidades mais urgentes, que vão desde produtos de
higiene a bens alimentares.
Atualmente, a Liga conta já com 143
membros. Os contributos podem ser feitos através da entrega direta de
bens, transferência bancária e, futuramente, via MB Way.
Casa de férias no Faial da Terra é projeto para o futuro
Entre os planos para o futuro destaca-se a recuperação da antiga casa de férias no Faial da Terra, que no passado foi utilizada pelas crianças para fins de semana e períodos de férias.
O imóvel, que pertence atualmente à Diocese e outrora foi a casa do padre Elias e do padre Raul, encontra-se degradado e necessita de obras profundas. A intenção é recuperar o espaço para proporcionar às crianças um ambiente com jardim e espaço exterior - algo inexistente nas atuais casas urbanas da Casa do Gaiato.
O projeto prevê que a casa possa vir a ser utilizada não apenas pelos jovens da instituição, mas também por outras entidades.
“O nosso grande objetivo é manter a qualidade do serviço que prestamos e continuar a oferecer às nossas crianças um ambiente familiar, seguro e afetivo”, concluiu o padre Norberto Brum.
