Açoriano Oriental
Investigações no mar profundo dos Açores revelam novas espécies

Iniciativa do Grupo de Investigação do Mar Profundo dos Açores do Okeanos - Universidade dos Açores é a maior investigação de sempre ao mar profundo. Relatório final foi apresentado na cidade da Horta


Autor: Nuno Martins Neves

A descoberta de 15 espécies novas para a ciência é um dos feitos dos mais de mil mergulhos realizados nos últimos anos pelo Grupo de Investigação do Mar Profundo dos Açores (ADSR) do Okeanos - Universidade dos Açores. Os resultados foram apresentados no Teatro Faialense, na cidade da Horta, ilha do Faial, durante a comemoração do Dia Mundial dos Oceanos.

E o que permitiu estas descobertas nos últimos anos?Segundo o documento do Okeanos a que o Açoriano Oriental teve acesso, concorreram os investimentos feitos pela comunidade científica e pelo Governo Regional dos Açores, em particular o desenvolvimento de um veículo que permitiu superar as tradicionais dificuldades da investigação no mar profundo, nomeadamente os elevados custos e a necessidade de tecnologia de ponta.

O aparecimento do Azor drift-cam, um dispositivo de baixo custo e fácil manuseamento, possibilitou explorar o mar profundo dos Açores.

“Durante os últimos anos, visitámos todas as 140 áreas dentro da Zona Económica Exclusiva (ZEE) dos Açores com menos de 1000 m de profundidade, realizamos cerca de 1150 mergulhos - 930 dos quais com a Azor drift-cam-, exploramos cerca de 760 km de fundo e produzimos mais de 1300 horas de vídeo. Após meses de trabalho de recolha de imagens no mar, o trabalho continua nas salas de visualização, onde transformamos as imagens em dados. Esta informação ajudou a produzir uma das mais completas base de dados sobre o mar profundo com cerca de 82000 ocorrências de corais e esponjas -entre outros taxa”, informa Telmo Morato, investigador principal do ADSR, citado no documento.

O impacto foi tal que só em 2023 foi conseguido multiplicar por cinco a quantidade de informação existente sobre o mar profundo, graças a cinco expedições científicas, que duraram quase 120 dias, com uma média de 551 pessoas/dia no mar.

O Okeanos destaca, ainda, as parcerias estabelecidas com as comunidades piscatórias açorianas e com as instituições internacionais de investigação científica que cruzam os mares do arquipélago, que contribuem para a identificação do património natural do mar profundo açoriano e dos organismos observados nos vídeos.

Toda esta confluência de esforços permite colocar Portugal e os Açores no topo das regiões do mundo com mais informação sobre o mar profundo, revela o documento do Instituto de Investigação em Ciências do Mar.

Da recolha de informação, saiu a reavaliação da diversidade total de corais de águas frias e esponjas nos Açores, que atinge, hoje, as 470 espécies, bem como a descoberta de um novo género e cerca de 15 espécies novas para a ciência, sendo assinalado que muitas mais haverá por descobrir.

Para o Okeanos, o mar profundo dos Açores, até aos 1000 metros de profundidade, é classificado como um “hotspot de biodiversidade oceânica, às escalas do Atlântico e global”.

Pesca de profundidade deve ser regulamentada

De acordo com Telmo Morato, as recentes descobertas apontam que a Dorsal Meso-Atlântica - a cordilheira submarina que atravessa o oceano Atlântico, entre os dois polos - suporta mais vida e diversidade do que estudos anteriores indicaram.

No mar profundo dos Açores foi encontrado aquela que poderá ser o maior jardim de corais negros do Atlântico. Estes jardins de corais negros, que podem atingir os milhares de anos de vida, são comparáveis às floresta de sequoias, as árvores mais antigas do planeta.

Foram ainda detetados recifes de corais duros, importantes reservatórios de carbono e que desempenham um papel fundamental na mitigação das alterações climáticas.

“Contudo, é digno de nota que certas colónias de corais de vida longa apresentaram sinais evidentes de impactos da pesca. Estas observações in situ alinham-se estreitamente com as conclusões de estudos anteriores, reforçando a noção de que práticas de pesca de profundidade devidamente regulamentadas, especialmente aquelas que utilizam artes de anzol, como as linhas de mão, são promissoras para promover a exploração sustentável dos recursos de profundidade”, aponta Telmo Morato.

Por outro lado, a proibição da pesca de arrasto dentro da ZEE dos Açores, em vigor desde 2005, teve impacto positivo nos peixes-relógio e escamudas.

“Só podemos proteger e gerir aquilo que conhecemos”

Presente na apresentação do relatório final produzido pelo Okeanos, o presidente do Governo Regional dos Açores destacou a importância do trabalho desenvolvido para o futuro.

“Só podemos proteger e gerir aquilo que conhecemos. A gestão do espaço marítimo, nas suas múltiplas vertentes, só é, pois, possível conhecendo-o de antemão e caracterizando-o em profundidade”, afirmou José Manuel Bolieiro.

Um trabalho possível graças ao investimento conjunto entre o Governo dos Açores e a comunidade científica, assinalou.

“Com um investimento de 2,6 milhões de euros, a informação recolhida no estudo permite avaliar o bom estado ambiental e o ordenamento do espaço marítimo, contribuindo com conhecimento para suportar uma gestão efetiva do Mar dos Açores”.

Bolieiro reforçou o apelo a todos os parceiros, desde a comunidade científica às entidades internacionais, passando pelos pescadores açorianos, para que continuem a trabalhar em conjunto, pois assim “materializam a ideia de que juntos conseguimos ir mais longe”.

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