“Como é possível ainda haver tanto racismo?”

No Dia Mundial para a Eliminação da Discriminação Racial o Açoriano Oriental recolheu testemunhos de pessoas que, nos Açores, estiveram diretamente envolvidas em episódios de racismo no fenómeno desportivo.



Os episódios de racismo continuam na ordem do dia e, no desporto, a situação envolvendo o argentino Prestianni (Benfica) e o brasileiro Vinicius Júnior (Real Madrid), em pleno embate do play-off de apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões de futebol, foi o mais recente e que fez correr tinta na media mundial.

O  racismo é, à luz da legislação, um crime público e apesar de todas as campanhas levadas a cabo pelas mais diversas entidades em todos os quadrantes da sociedade, continua a encontrar terreno fértil e, pontualmente, são relatadas situações onde alguém foi julgado ou pela sua origem, ou pela cor da sua pele.

No passado mês de setembro, na Madalena, ilha do Pico, um alegado caso de racismo terá ocorrido num jogo da Taça Dr. Manuel José da Silva, organizada pela Associação de Futebol da Horta. Durante um jogo entre as equipas do Madalena e do Fayal Sport, um grupo de adeptos da formação da “ilha montanha” terá proferido insultos racistas para dois atletas do clube faialense, uma situação que não mereceu da parte do juiz do encontro qualquer intervenção.

Aliás, como relatou em comunicado a direção do Fayal Sport, um dos atletas visados  foi mesmo “advertido disciplinarmente por ter expressado a sua indignação perante a situação”!

Comportamento diferente adotou o árbitro Vasco Almeida no Estádio Municipal da Ribeira Grande, a 30 de abril de 2023.

No decorrer de um encontro do Campeonato de Futebol dos Açores entre o Sporting Ideal e o Lusitânia, dois adeptos lançaram insultos racistas para atletas dos “verde e brancos” da Rua da Sé e, tendo testemunhado o incidente, o árbitro micaelense interrompeu a partida, mandou identificar os indivíduos pelos agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) presentes no local e ordenou que os mesmos fossem retirados do interior do recinto desportivo.

“Os adeptos foram facilmente identificados, estavam de pé e gritavam muito alto e conseguimos perceber logo isso, porque o jogo estava a passar-se naquela zona onde estavam os adeptos”, recorda o juiz micaelense de 36 anos filiado na Associação de Futebol da Horta.

O caso, relata ainda, teve seguimento nas instâncias judicias, já que o Ministério Público avançou com uma ação civil  e, no passado mês de fevereiro, o Tribunal da Ribeira Grande condenou os dois adeptos com uma pena de sete meses de prisão ou, em alternativa, ao pagamento de uma coima pecuniária.

Curiosamente, naquela mesma semana, mas em São Roque, Vasco Almeida viu-se envolvido em nova situação de discriminação racial.

“Foram dois episódios tristes, na mesma semana, uma jornada a seguir à outra, na mesma competição e época desportiva”, salienta o árbitro de São Miguel.

Após a obtenção de um golo, Toró, jogador do Guadalupe, foi insultado por uma atleta do São Roque. Vasco Almeida presenciou o episódio e reagiu de imediato, expulsando o prevaricador que, mais tarde, foi castigado pelo Conselho de Disciplina da Associação de Futebol de Angra do Heroísmo com quatro jogos de suspensão.

“Senti indignação, senti muita raiva naquele momento”, recorda ao Açoriano Oriental o avançado brasileiro.

“Senti muita raiva naquele momento porque ele tinha companheiros na sua equipa com o mesmo tom de pele que o meu! Então, foi também uma tremenda falta de respeito para com os companheiros dele!”, assinala Toró.

O jogador, que atua presentemente na equipa B da Santa Clara Açores - Futebol SAD, não acredita que estes episódios deixem de acontecer, salientando que “enquanto não houver uma lei  rigorosa para punir severamente os envolvidos, acho que isso vai sempre ocorrer em todo o mundo”.

O mesmo sentimento é partilhado por Tânia Gonçalves, treinadora e juíza de patinagem artística que no decorrer de uma prova local foi insultada por uma espectadora.

“Fiquei triste com o que foi dito, mas muito do que foi dito naquele dia foi dito com maldade. As pessoas não têm noção do quanto é desconfortável, do quanto magoa ouvir essas coisas”, recorda a treinadora o episódio que viveu em 2 de fevereiro de 2020, nos Arrifes.

Apesar do Tribunal de Ponta Delgada ter arquivado o caso por falta de provas, a intervenção da Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto permitiu identificar, com a ajuda da PSP, a infratora que teve de pagar uma coima no valor de mil euros, tendo também ficado impedida de aceder a recintos desportivos.

Embora de forma diferente, a justiça acabou por cumprir-se nos casos citados, mas nem o tempo consegue sarar, nas vítimas, as feridas que aqueles momentos causaram.

“Sim, continua a marcar-me quando ouço ou leio nas notícias sobre casos de racismo. Fico pensando: como é possível ainda haver tanto racismo? Não consigo perceber”, exclama Tânia Gonçalves que destaca a importância do Dia Mundial para a Eliminação da Discriminação Racial: “É um dia para lembrar que continuamos na luta pela igualdade em todas as suas formas e também para festejar o que já foi conquistado até aqui, mas sem esquecer que ainda há muito a fazer”.

Por seu lado, Toró lembra que  “independentemente da cor da pele, somos todos seres humanos, temos todos o mesmo sangue, estamos todos a lutar pelo mesmo propósito, a sonhar o mesmo sonho e a correr em busca daquilo que achamos melhor para a nossa vida, para a nossa família”.

Vasco Almeida, que desde então não voltou a passar por momentos como os que viveu em abril e maio de 2023, realça que, “no futebol em concreto, temos que estar muito vigilantes, porque, no ano de 2026, não devíamos estar a discutir a cor da pele ou a nacionalidade de alguém”.

Neste sentido, o juiz reforça a importância desde dia, ao mesmo tempo que expressa um lamento: “Infelizmente, essas coisas ainda acontecem e é bom que hajam essas datas para relembrar e para que não se passem em campo nenhum, pavilhão, ou modalidade nenhuma, situações desagradáveis de uma pessoa, no ano de 2026, tenha que ainda ser julgada pela cor da sua pele!”.

De acordo com os últimos dados conhecidos, nos Açores foram registados nove crimes de ódio no ano de 2024, oito dos quais dizem respeito a crimes por discriminação e incitamento ao ódio e violência.

O outro crime está enquadrado em “outros crimes contra a identidade cultural e integridade pessoal”.

De acordo com os dados Estatísticas da Justiça, este número corresponde a um aumento de 125% relativamente ao ano anterior (2023). 

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