Máquina ou ser humano? Quem melhor faz o serviço? Estas questões preocupam cada vez mais os profissionais de hoje, com o avanço da Inteligência Artificial.
E o Serviço Social, que ontem celebrou o seu Dia Mundial com uma Aula Aberta na Universidade dos Açores, não é exceção.
Durante o evento, o vice-reitor da Universidade dos Açores, Adolfo Fialho, deu início ao debate, lembrando que “não nos podemos nunca esquecer, no caso particular desta profissão, que precisamos de ter mãos e corações humanos no terreno. Portanto, nada substitui um bom profissional, nada substitui um bom assistente social”.
Contudo, Adolfo Fialho lançou para o debate uma experiência feita no Japão, num lar de idosos, com uma ala a ter o serviço feito por robôs e uma outra por assistentes humanos. “E no final desse estudo chegou-se à conclusão que as pessoas preferiram os robôs”, alertou Adolfo Fialho.
“Não havia erro, não é”, questionou, por seu lado, a diretora do curso de licenciatura em Serviço Social da Universidade dos Açores, Ana Margarida Furtado Silva, que contrapôs com outro exemplo, este com crianças numa sala de aula, em que o mesmo conteúdo programático foi dado pela Inteligência Artificial numa sala, enquanto que noutra sala e com outras crianças, foi dado pela professora.
“E o resultado, quando foi feita a avaliação, foi o de que quem aprendeu mais e quem teve melhores resultados foi a sala que teve a professora”, afirmou Ana Margarida Furtado Silva.
A diretora do curso de licenciatura em Serviço Social admite ter já aceite a Inteligência Artificial como uma ferramenta “que nos facilita a aprendizagem e o ensino, se for bem usada”, apelando por isso a que haja cada vez mais formação sobre Inteligência Artificial. para que ela possa ser utilizada “com responsabilidade e com ética”.
Conforme lembrou Ana Margarida Furtado Silva, “numa sala de aula, nós usamos ferramentas da Inteligência Artificial, mas na relação que temos com os alunos, eu consigo compreender quando olho para uma turma que eles não perceberam - mesmo quando os alunos não o verbalizam - e então eu trago novamente a mesma matéria para, de outra forma, a explicar”.
Portanto, conclui a diretora do curso de licenciatura em Serviço Social da Universidade dos Açores, “a máquina não ia detetar que os alunos deram esta informação que eu vi e empaticamente percebi”.
Por outro lado, também a representante da Ordem dos Assistentes Sociais para os Açores, Paula Andrade, considerou que “a Inteligência Artificial é hoje algo de que nós não nos podemos dissociar ou simplesmente excluir”, considerando que “ela vai fazer parte cada vez mais da nossa vida”.
Contudo e lembrando o exemplo dos idosos que preferiram a máquina aos cuidados humanos, Paula Andrade reconheceu que “uma coisa que eu pensei foi que não haviam raspanetes”, afirmando por isso a importância de trabalhar as competências relacionais dos seres humanos, numa altura em muitas pessoas dão sinais de perder a tolerância ou de não ter capacidade de reagir às frustrações.
Nesse sentido, Paula Andrade recordou que “quando eu estudava, ouvia muito a palavra escuta ativa”, explicando que escutar ativamente é “ouvir com o corpo todo”, ou seja, saber “ler a pessoa”, porque esta “pode estar a dizer uma coisa e o corpo a dizer outra, através da atitude, da postura e do olhar”.
“E isso a máquina ainda não faz”, conclui Paula Andrade, que afirma igualmente não acreditar “que haja um assistente social para o qual o primeiro princípio que o move não seja olhar o outro e ajudar o outro”, algo que “para mim já é esperança... Alguém que queira trabalhar com o outro para o ajudar”.
