Açoriano Oriental
“A paisagem açoriana ganhou outra pujança com o aparecimento dos drones”, diz Paulo Pereira

O repórter de imagem terceirense inaugurou no passado dia 1 de agosto uma mostra intitulada “Geometrias Vistas do Céu” na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, em Angra do Heroísmo.


Autor: AO Online

Como foi o seu percurso académico e profissional?

Fiz o meu percurso formativo todo na região. No fim do 9º ano fui aliciado por um curso de multimédia na escola profissional da Praia. Sabia que estava relacionado com computadores e, portanto, meti-me de cabeça no curso, apesar de na altura os cursos profissionais serem vistos como um recurso à formação normal e com alguma desvalorização social. O conteúdo do curso e alguns professores que lá passaram deram-me as bases necessárias para ficar apaixonado pelo audiovisual. Depois do curso fiz estágio curricular na RTP-Açores e desde 2005 que colaboro com a estação pública açoriana como freelancer. Pelo meio deste percurso destaco a criação da produtora Media 9. Através da empresa desenvolvemos muitos projetos como os Fala Quem Sabe, Festa Brava, Ler Açores, 5 Minutos de Cultura e agora mais recentemente o Cultura Açores. Também produzimos muitos documentários, vídeos institucionais e cobertura de eventos.

Como surge a oportunidade de expor na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro? 

A ideia de um dia fazer uma exposição com fotografias aéreas com esta temática da geometria, surge com um amigo, o Manuel Martins que, através das redes sociais, comenta a possibilidade de expor algumas das fotografias que então vinha a publicar. As fotos tinham formações geométricas desconhecidas. E eram captadas em diversos pontos da ilha Terceira e dos Açores. Mais tarde recebo um convite por parte da Biblioteca Pública de Angra e ao início fiquei um pouco assustado.

Como recebeu o desafio? 

Nunca expus o meu trabalho nos moldes tradicionais de exposição. Apesar do resultado do meu trabalho diariamente ser divulgado nos órgãos de comunicação de massas. Mas estas fotos eram imagens que tirava à margem dos trabalhos de vídeo que estava a fazer. Não foram tiradas com o intuito de expor. E, portanto, estava com algumas dúvidas que o material que tinha era suficientemente interessante para imprimir e colocar numa parede. Os conteúdos de televisão são fugazes. São emitidos e já passou (apesar de agora seja possível “passar pra trás”). Uma foto impressa numa parede é quase eterna. Tem uma responsabilidade para o autor muito maior. E, portanto, foi mesmo um desafio pra mim.

Em que consiste esta exposição? 

Desde 2014 que faço imagens com recurso a drones. Lá de cima conseguimos ter perspetivas e noções do território bastante diferentes. Esta novidade visual faz com que certos pormenores se destaquem, como por exemplo a forma das coisas vistos do ar. 

Esta exposição reúne 11 fotografias da paisagem açoriana. Não são fotografias turísticas de paisagem, mas sim fotos captadas com o intuito de mostrar com outros olhos o espaço que nos rodeia, a paisagem vista com outra perspetiva e objetivo. Na grande maioria das fotografias percebemos que a mão do homem e da natureza criam formas geométricas e só se conseguem obter do ar.

Que experiência vivemos quando visitamos a mostra "Geometrias Vistas do Céu”?

Quis que algumas fotos fossem “interativas” no ponto em que leva o visitante à procura das formas. Existe uma foto aérea da cidade de Angra. A cidade património é por si só uma fonte de geometria, pois as linhas das ruas direitas que vão dar ao mar, cortadas pela retilínea Rua da Sé, cria blocos quadrados de casario, que do ar se transformam em quadriculado. As formas depois vão desde os telhados, das praças, até às pedras da calçada. Tudo numa só foto. Depois há mais 10 para descortinar em formas geométricas. No fundo é olhar e descobrir pormenores do nosso território de uma perspetiva única.

Foi um dos primeiros repórteres na ilha Terceira a filmar com recurso a um drone. Que portas é que esta tecnologia lhe abriu?

Parece cliché, mas a verdade é que, como um escritor conta uma história com letras, que formam palavras. Eu no meu dia a dia tento contar histórias com imagens. Para isso temos que ter ferramentas e criatividade suficiente para prender a atenção de quem vê.

Os drones além de serem apelativos pelo “pack tecnológico” que possuem, conseguiram reunir características que levam à captação de imagens áreas estáveis e com qualidade. Um dos maiores sonhos do homem é voar, ver o que os pássaros veem e ter aquela sensação de liberdade. As imagens aéreas são uma imagem deste sonho. E os drones são neste momento a forma mais lowcost de o concretizar. Na minha área é neste momento uma ferramenta obrigatória em qualquer produto audiovisual. Nos Açores acho que é ainda mais vantajoso ter um drone. Arrisco dizer que a paisagem açoriana ganhou outra pujança com o aparecimento destes aparelhos voadores não tripulados. A imagem aérea do ilhéu de Vila Franca do Campo, por exemplo, é um exemplo disso.

Como é que se aprende a dominar um artigo tecnológico tão instável? 

Neste momento, a instabilidade do drone só acontece se houver uma falha. Aí a força da gravidade não perdoa e o problema da instabilidade fica resolvido por natureza. Os drones possuem tecnologia suficiente para que a experiência de voo seja a melhor possível. Podemos dizer que é relativamente fácil pilotar um drone. É quase como jogar um jogo de computador, mas temos que ter em atenção que o drone é um objeto real e que acarreta riscos. Mas a curva de aprendizagem é bastante rápida e ao fim de algumas horas é possível meter o bicho no ar e ter resultados visuais bastante satisfatórios e em segurança. 

Quais são os grandes desafios que estas "câmaras voadoras" acarretam?

Acho que neste momento o grande desafio é o seu controlo. Não o controlar da máquina em si, mas o controlo da disseminação desta tecnologia pelo ar. Vamos ao supermercado e compramos um drone. Está ao acesso de qualquer pessoa e é muitas vezes apelidado por brinquedo. É mais do que isso. Legalmente é uma aeronave não pilotada. As responsabilidades do piloto de drone, em alguns casos é equiparada ao nível dos pilotos de aviões. Portanto não pode ser usado com a leviandade de um brinquedo. A legislação Europeia e Nacional tem vindo a aumentar nos últimos tempos. Está cada vez mais exigente nas condições de operacionalidade e na formação dos pilotos de drone.

Em termos de licenciamento, o que precisa um drone para sobrevoar a ilha? 

Tudo depende do local da ilha. É numa cidade? Numa praia? Numa paisagem protegida? Junto ao aeroporto? A resposta a essas perguntas definirá os passos a dar na obtenção de algumas licenças/autorizações para voar o drone e captar imagens. Alguns drones carecem de seguro de responsabilidade civil e o piloto tem que ter frequentado formação adequada aos locais onde pretende voar. Já para não falar que para captar e divulgar imagens aéreas em Portugal é obrigatório, desde os anos 50, possuir autorização da AAN (Autoridade Aeronáutica Nacional).

Com o "boom" do vídeo, as imagens aéreas são cada vez mais requisitadas. Dê-nos alguns exemplos onde o drone fez a diferença nos seus trabalhos.

As imagens aéreas são um complemento valioso de qualquer produção audiovisual. Documentários, vídeos institucionais, programas de Televisão, passando pelo acompanhamento de provas desportivas (rali, triatlos, trail, regatas), festivais de verão até o acompanhamento de obras de construção civil.

O trabalho de um repórter de imagem começa finalmente a ser reconhecido? Ou ainda é o "parente pobre" do jornalismo?

Há algum tempo atrás admito que poderíamos ser, porque o nosso trabalho era apenas para “pintar” a notícia. De há alguns anos a esta parte, devido essencialmente às redes sociais, duvido que os repórteres sejam parente pobre do jornalismo. Surgiram os vídeos e as fotos virais. Os nossos pares, desde os jornais à televisão, valorizam o trabalho do repórter de imagem ou do fotógrafo. Já perceberam que nós complementamos o trabalho do jornalista. Arrisco a dizer que o impacto da notícia está muito ligado á qualidade da imagem que lhe é associada. Cada vez mais se tem atenção e cuidado com as imagens. Socialmente acho que a palavra e a profissão de “repórter de imagem” é vista, ainda, com desconhecimento e desvalorizada, mas um bom repórter de imagem prefere passar despercebido para que o resultado final do seu trabalho não. Aliás, o repórter de imagem tem a mesma carteira profissional que o jornalista redator, o que lhe dá igualdade perante os colegas jornalistas e peso/ responsabilidade no tratamento da informação. Somos tão jornalistas quanto eles.

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