A Ciência como motor da Economia

A Ciência como motor da Economia

 

Armindo Santos Rodrigues   Regional   22 de Nov de 2007, 11:46

Se é verdade que durante uma boa parte do séc. XX a evolução da ciência esteve intimamente associada aos programas de defesa militar nacional de grandes potências como os EUA e a URSS, hoje está profundamente ligada à defesa da economia de cada país, uma vez que a economia se baseia cada vez mais nos processos de inovação.
Ora, a força motriz da inovação é a ciência. Os cientistas descobrem e desenvolvem ideias, produtos e processos que, geralmente, pela mão da engenharia se materializam e se tornam parte integrante da actividade económica. Nesta perspectiva, a ciência deve dedicar uma atenção crescente às novas orientações da economia global e regional de forma a não perder um carácter significativo de aplicabilidade.
Só assim se entende porque é que os governos dos países com elevado índice de desenvolvimento tecnológico investem tão avultadas somas dos dinheiros públicos na ciência. Será seguramente porque se admite que os contribuintes terão um importante retorno do seu investimento, traduzido num maior desenvolvimento social e económico. No entanto, para que este sistema funcione e nenhuma das partes se sinta defraudada, é necessário um investimento adequado na ciência e, por outro lado, a aplicação de mecanismos de avaliação rigorosos capazes de aferir se os níveis de produtividade científica se ajustam ao investimento feito e às necessidades do país. No entanto, o reconhecimento da absoluta necessidade de um instrumento de avaliação, factor de responsabilização, não deve chocar com a tradição cultural que caracteriza o ambiente em que se desenvolve a investigação científica, marcado pela liberdade de ideias e de questionar o mundo que nos rodeia – condimentos para a criatividade.
A ciência e a tecnologia, desde a investigação fundamental até à aplicada que se faz nas universidades e laboratórios públicos e privados, constituem o motor do crescimento económico. A este propósito, não se pense, por exemplo, que quando surge no mercado um fármaco qualquer, com todas as qualidades que lhe são atribuídas, este resultou exclusivamente da investigação feita por uma única equipa de um único laboratório, mesmo que tenha sido este a patentear o produto. Não. Uma longa cadeia de conhecimentos foi construída com os contributos, uns mais notórios do que outros mas todos imprescindíveis, de vários grupos de investigação em vários laboratórios e, certamente, em diferentes países. A ciência é, provavelmente, das actividades humanas aquela que mais se tem globalizado e menos se ajusta ao estabelecimento de fronteiras geográficas.
Então, porque continuamos a poder distinguir tão claramente entre países científica e tecnologicamente desenvolvidos e não desenvolvidos?
De acordo com os professores Vijai Singh e Thomas Allen da Universidade de Pittsburg (EUA) a resposta é simples - tudo depende da capacidade das nações e das regiões para criar e manter instituições de investigação e desenvolvimento e para atrair e fixar os melhores investigadores. Enfim, do vigor económico de cada país ou região! É que, se a actividade científica influencia fortemente a economia, o inverso é igualmente verdade.
Nos Açores a actividade científica conta uma história com apenas 30 anos e que se confunde, necessariamente, com a da Universidade dos Açores. Embora jovem, quando comparada com a dinâmica científica de outras regiões do país, demonstra um crescimento consistente que se tem acentuado neste início do séc. XXI. Enquanto, de acordo com a base de dados do ISI Web of Knowledge, no ano 2000 a comunidade científica açoriana se envolveu em apenas 39 publicações internacionais com factor de impacto, em 2006 esse envolvimento quase triplicou, passando para 97 títulos. É um crescimento considerável mas que ainda nos deixa longe da produtividade científica média nacional. Estes trabalhos versam distintas temáticas, distribuindo-se maioritariamente pelas áreas das ciências biológicas, das ciências do ambiente, da oceanografia e das pescas.
Mas, para além desta fracção da ciência com visibilidade internacional, a actividade científica nos Açores tem-se reflectido no desenvolvimento de vários sectores da economia regional. Destes destaca-se a íntima associação entre as problemáticas do sector agrícola e pecuário e a investigação desenvolvida no Departamento de Ciências Agrárias; o sector das pescas que sempre esteve no centro da investigação feita no Departamento de Oceanografia e Pescas; o estudo dos recursos naturais e a sua conservação, quer no domínio terrestre quer no marinho, por parte do Departamento de Biologia; a estreita e indispensável associação entre as actividades científicas do Departamento de Geociências e os fenómenos naturais próprios desta região.
Estas são apenas algumas das áreas que se constituem como questões científicas centrais de algumas das unidades de investigação. Mas, a ciência que se faz nos Açores abrange também a área da saúde, a da energia, a da construção civil, entre outras.
A investigação científica tem influenciado de forma decisiva o curso da economia e da sociedade açoriana, desde logo porque marca a formação dos diplomados nas várias áreas do saber. Unidades de ensino superior com forte dinâmica no domínio da investigação científica formarão, com certeza, licenciados mais competentes _ Ensinaremos melhor aquilo que melhor soubermos fazer.
A Universidade dos Açores, única instituição de ensino superior e principal unidade de investigação da Região, nos seus 30 anos de existência já formou 5500 diplomados, um contributo inegável para o desenvolvimento dos Açores, quer na sua dimensão social e cultural quer económica. Desde logo porque uma significativa parte destes licenciados são das áreas da economia e da gestão de empresas, mas também da área do ensino que nestas três décadas supriu aquelas que eram as enormes carências deste sector na região.
O futuro será a desejável crescente associação entre as unidades de investigação e desenvolvimento e as unidades empresariais, no sentido de corresponder com ideias e produtos inovadores às necessidades do mercado.
A este propósito, a Direcção Regional da Ciência e da Tecnologia, organismo que tutela e promove os programas científicos nos Açores, coloca como condição para o financiamento de projectos de investigação a existência de claras perspectivas de aplicabilidade num qualquer sector da nossa sociedade e, portanto, exige que sejam subscritos por uma entidade pública ou privada que reconheça essa utilidade. Um esforço claro para intensificar a relação entre a ciência e a economia nos Açores.
O desenvolvimento científico dos Açores passará certamente por uma estratégia de integração nas redes científicas nacionais e europeias de forma que, contribuindo para a formação de grupos com muito maior massa crítica, possamos aumentar em competitividade, seguindo a via da complementaridade de conhecimentos produzidos em vários pontos do espaço científico considerado. Pensar que podemos ser competitivos em todas as áreas científicas é um erro que conduzirá apenas à dispersão de recursos financeiros e humanos.
Dado que o conhecimento continuará a ser o factor mais importante e decisivo na distinção entre os povos mais desenvolvidos e os mais atrasados, julgamos que a via mais adequada ao desenvolvimento da ciência nos Açores passará pela selecção criteriosa de algumas áreas estratégicas, consideradas fundamentais para o desenvolvimento social e económico da Região.
Em suma, o impacto da ciência no desenvolvimento dos Açores vai depender de vários factores: antes de mais da dinâmica da própria investigação científica que aqui se fizer; em segundo, da capacidade da região para converter o conhecimento produzido em actividade económica e oportunidades de emprego e, finalmente, da dinâmica de interacção e cooperação entre os vários actores da economia regional.

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