2017 foi um ano difícil na área do património cultural

2017 foi um ano difícil na área do património cultural

 

Lusa/AO online   Cultura e Social   19 de Dez de 2017, 11:59

Uma fogueira no claustro do Convento de Cristo, em Tomar, acendeu um ano difícil na área do património cultural, que envolveu fecho de salas no principal museu do país, por falta de vigilantes, e críticas à utilização de monumentos.

A realização do jantar de fecho da WebSummit, em Lisboa, no corpo central do Panteão Nacional, em novembro, culminou uma série de cedências de espaços sob a tutela da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), que originaram críticas, vindas do próprio Governo, e levaram o Ministério da Cultura a anunciar a revisão do regulamento para a sua utilização.

A decisão de se instalar um museu dedicado à memória da luta pela democracia na Fortaleza de Peniche, e a compra, pelo Estado, de seis quadros de Maria Helena Vieira da Silva são outras faces de uma mesma moeda, na área da tutela da DGPC, para a qual, em junho, o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, já admitira estar a analisar um novo modelo de gestão.

Em novembro, no parlamento, Castro Mendes anunciou a intenção de criar um instituto público para museus e monumentos nacionais, considerando a DGPC “uma estrutura disforme”. O ministro justificou a medida com a necessidade de dar mais autonomia a estas instituições, no âmbito de uma "profunda reforma administrativa".

O anúncio surgiu depois de um verão em que o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), aquele que reúne o maior número de tesouros nacionais, manteve salas fechadas, por falta de vigilantes. Em novembro, com um quadro de 16 pessoas, o MNAA continuava a gerir a abertura de salas, por motivos de segurança.

A direção do museu falou, então, na necessidade de 35 vigilantes para o funcionamento regular. Recordou igualmente a falta de técnicos, num quadro que chegou a reunir cerca de 120 profissionais, há duas décadas, e que se encontra reduzido a metade.

O ano ficou também marcado pela decisão do Governo de comprar seis quadros de Maria Helena Vieira da Silva que se encontravam emprestados pelos herdeiros do colecionador Jorge de Brito ao museu da pintora, em Lisboa. São eles "Novembre" (1958), "La Mer" (1961), "Au fur et à mesure" (1965), "L’Esplanade" (1967), "New Amsterdam I" e "New Amsterdam II" (1970).

A compra, uma opção prevista no acordo entre a Fundação Arpad Szènes - Vieira da Silva e os herdeiros, acabou por se realizar pelo valor de 5,584 milhões de euros, resolvendo um diferendo que se mantinha desde 2015, com risco de venda das obras em leilão internacional.

O fogo, para fins cinematográficos, no claustro da Hospedaria do Convento de Cristo, em Tomar, em maio, foi uma acendalha, para a área do património cultural, num ano marcado por críticas pela utilização dos espaços monumentais e musealizados, que culminou com o jantar no corpo central do Panteão Nacional, no fecho da WebSummit, em Lisboa.

O Museu dos Coches recebeu uma exposição comercial de carros elétricos, o que motivou críticas, nomeadamente do presidente do Conselho Internacional de Museus-ICOM Europa, Luís Raposo, que a qualificou de “altamente imprópria”, em declarações à Lusa.

Críticas à realização de um jantar na Sala dos Archeiros do Palácio Nacional da Ajuda, chegaram também à comunicação social.

A cedência de espaços pelo Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, foi alvo de uma auditoria pelo Ministério da Cultura, cujos indícios levaram à abertura de um inquérito e à investigação do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, da Procuradoria-Geral da República.

Na área da arqueologia subaquática, multiplicaram-se críticas de arqueólogos às instalações provisórias do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, alertando para os riscos de conservação das cerca de 14 mil peças que compõem o seu acervo - e que deverão ficar instaladas em Xabregas, a partir de 2018.

O presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses, José Morais Arnaud, referiu ainda as centenas de quilómetros de costa que Portugal tem, à mercê de caçadores de tesouros, sem que haja meios para fazer "uma investigação digna". "O Estado português não tem condições para cumprir o que estipula a lei", afirmou.

Em vésperas do Ano Internacional do património Cultural, a celebrar em 2018, o Governo voltou atrás no projeto da Fortaleza de Peniche, que tinha sido incluída na lista de monumentos históricos a concessionar a privados, no âmbito do programa Revive.

O executivo decidiu em abril, que a fortaleza, construída no século XVI, prisão política de alta segurança durante a ditadura do Estado Novo, irá acolher um museu nacional dedicado à luta pela liberdade e pela democracia.



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