Natural da Ribeirinha, o Padre Rui Silva recorda uma infância profundamente feliz. Cresceu num ambiente rural, onde o trabalho começava cedo e os dias eram divididos entre a escola, a terra e a família. “Não tínhamos tudo, também não havia tudo, mas havia muito amor. Brincava na rua, ia para a terra, cuidar das vacas, acordava às três da manhã para ir molhar a terra no verão. Estou muito grato pela infância que tive”, disse.
Não se recorda de como surgiu a vocação sacerdotal, mas alguns professores diziam que em criança “já andava a celebrar missas” improvisadas, o que, mais tarde, viria a revelar-se um sinal. No entanto, o caminho até ao sacerdócio não foi linear. Conta-nos que durante a adolescência, enfrentou dificuldades escolares que o levaram a reprovar por faltas, “naquela altura perdia-se efetivamente por faltas, não era como hoje em dia”, afirmou. Voltou a perder o sexto ano e como resposta, o pai disse-lhe “que ia estudar de outra maneira”, decidiu colocá-lo a trabalhar.
O Padre Rui Silva passou por várias atividades, desde servente de pedreiro a ajudante na lavoura, experiências que lhe deram uma visão prática da vida e reforçaram o sentido de responsabilidade. Incentivado pelo padre Artur Pacheco Agostinho, ingressou no seminário do Colégio do Santo Cristo. A decisão não foi imposta, mas apresentada como uma oportunidade de experiência. “Se não gostasse, podia voltar”, recorda. Mas não voltou. Seguiu os estudos e foi ordenado padre em 2003.
Foi para o Pico, onde esteve seis anos, nomeadamente nas paróquias de Piedade, Calheta de Nesquim, Santa Cruz das Ribeiras, Santa Bárbara das Ribeiras e Lajes. “Fui professor, lecionei as aulas de Educação Moral Religiosa e Católica na Escola Cardeal Costa Nunes, na Madalena, também na escola das Lajes. Fui diretor, durante três anos, do jornal ‘O Dever’”, disse. Depois foi fazer uma experiência para o Canadá, “para uma comunidade portuguesa da Igreja de Santa Helena, em Toronto”. Esteve dois anos na Vila das Capelas e seguiu para Santa Maria, onde permaneceu 11 anos. Atualmente está no Rosário da Lagoa.
Tendo passado por diferentes comunidades, perguntamos se alguma o marcou mais. O Padre Rui Silva confessa que “costuma-se a dizer que o primeiro amor fica sempre, por isso, tenho um carinho muito especial pelo Pico, mas isso não tira nenhum mérito àquilo que sinto desde as Capelas a Santa Maria, uma ilha pela qual tenho um carinho muito especial no meu coração e, agora o Rosário da Lagoa, onde gosto imenso de estar. É um povo que acolhe, sabe estar, sabe sorrir, mas também sabe chorar com quem chora”. Diz-nos que, para estar em diferentes comunidades, é preciso “adaptar-nos ao estilo de vida das pessoas. Não quero dizer que tens de ser como eles, mas tens de, pelo menos, respeitar o modo de ser e de estar de cada comunidade”, sublinhando que “por vezes, não se respeita o ritmo de cada comunidade. Nunca se pode impor. Pode-se é propor e depois, através da proposta, caminhar com as próprias pessoas. (…) Todos têm maneiras diferentes de viver a fé, mas a fé é no mesmo Deus”.
Com as guerras e conflitos que presenciamos pelo mundo, estarão as pessoas menos crentes? O Padre Rui Silva responde e, falando da sua comunidade: “as pessoas têm rezado muito pela paz, porque as pessoas também já começam a ficar cansadas de tantas guerras, já começam a perceber que uma guerra, por mais longe que esteja, acaba por ter influência no nosso cantinho”.
O Padre Rui Silva é romeiro. Já saiu no rancho da Ribeirinha durante muitos anos, no rancho das Capelas e agora no rancho do Rosário da Lagoa. Começou a participar ainda criança, numa altura em que as condições eram bem diferentes das atuais - menos apoio, caminhos mais difíceis -, “mas a fé não era mais do que agora”. Para si, a romaria é o seu “retiro espiritual. É o melhor retiro espiritual que faço, porque ali tem tudo, tem oração, tem meditação, tem silêncio, tem fraternidade - que hoje em dia está pela rua da amargura, que é ser fraterno uns com os outros”, frisando que não vale a pena ir numa romaria se “não me transformar, não mudar um pouquinho daquilo que sou, porque a romaria também tem esta função: reconhecer o que sou, que tenho defeitos e limitações, mas tenho que melhorar qualquer aspeto da minha vida”. Participa também na romaria porque é “sempre um encontro privilegiado e único com Deus”. Depois “venho com os irmãos, não só aqueles da romaria, mas com todos os outros do mundo, porque o romeiro está no mundo, é para o mundo. A romaria é eu dizer: Sei que Deus está comigo, mas também sei que eu estou com Deus”.
Há quem não veja com bons olhos as romarias de mulheres. Na opinião do Padre Rui Silva “todos têm direito a fazer a sua romaria. Se é romaria ou peregrinação feminina, isso é apenas um detalhe. As mulheres têm grande poder. As mulheres juntas têm uma força extraordinária”, disse explicando que as mulheres “têm respeitado sempre as orientações do grupo coordenador do Movimento dos Romeiros de São Miguel. Mas acredito que, aos poucos, há a necessidade de se abrir. Vai levar muito tempo. Também temos que respeitar a mentalidade das pessoas. Temos que perguntar: ‘Será que as pessoas da ilha estão abertas a romarias unicamente femininas?’, isso para não haver choques”.
Sobre a Páscoa, diz que se trata do “maior ato de amor de Deus. É aquele explodir de aleluias, de alegrias, dizer que vale a pena viver, mesmo apesar de todo o sofrimento, dor, contrariedades, porque sabemos que só temos esta vida”, disse referindo, ainda, que a morte “é a coisa mais natural que temos na vida, embora, por vezes, a gente diga que tem muito medo de morrer. Acho que ninguém tem medo de morrer, porque a pessoa que morre não sabe que está morta. Se calhar podemos dizer que temos uma certa angústia em pensar na morte. Mas tudo isso faz parte da vida (...)”.
Se o facto de termos tido o Papa Francisco com a mensagem de abrir a igreja a todos veio mudar mentalidade? O Padre Rui Silva, diz que sim e recorda que “apanhei quatro Papas, o Santo João Paulo II, o Bento XVI, o Papa Francisco e agora o Papa Leão. Todos eles diferentes”. A seu ver, “acho que um deles foi muito incompreendido, o Papa Bento XVI. Opiniões são opiniões, mas acho que foi o último grande intelectual do Vaticano, não tirando o mérito a outros. Há quem diga que ele era um pouco reservado, um pouco tímido, se calhar, mas era a sua maneira de ser. O Papa Francisco abriu muito, queria mudar muito, mas também, sejamos sinceros, não mudou muita coisa. Muitas portas ficaram entreabertas. Deixou a sua grande marca, é verdade. O Papa Leão já é diferente, também é um intelectual e está fazendo o seu caminho devagar. (…) Penso que o Papa Leão, se calhar, ainda vai deixar uma marca maior, acho que ele trabalha muito em silêncio (…)”.
Questionamos se conseguiremos perceber para onde caminhamos. Ora, de acordo com o Padre Rui Silva, “sabemos onde estamos. Será que sabemos para onde queremos ir? Umas das perguntas que faço a mim mesmo é: primeiro, Quem é o Deus em que acredito?; segundo, Que Igreja quero? Que Igreja vive dentro de mim? (…) Há cristãos que ainda acreditam num Deus castigador, vingativo. Custa-me muito, hoje em dia, ouvir expressões como ‘Que mal fiz eu a Deus’, ‘Foi a doença que o Nosso Senhor me quis dar’. Isso é a imagem de um Deus em que não acredito. Acredito num Deus – como diz São João – de amor e de bondade. Custa-me dizer isso, mas muitos cristãos ficaram parados num certo tempo... É verdade que a Igreja também teve culpa quando falava no inferno... isso já passou. É preciso desbloquear e passar para uma igreja mais aberta, mais leve, mais sorridente”.
