Jorge Rita nasceu na freguesia da Maia, concelho da Ribeira Grande, numa família numerosa, onde cresceu rodeado pelos irmãos e ligado à terra. Foi na sede da Associação Agrícola de São Miguel (AASM), em Santana, que partilhou connosco as suas recordações de infância, que permanecem vivas e que descreveu como sendo das “mais felizes da sua vida”.
"Éramos seis filhos na nossa casa. A minha infância foi muito feliz”, disse, recordando os dias passados entre brincadeiras ao ar livre, as idas à praia às escondidas, os passeios pelos campos, a observação dos ninhos dos pássaros e as visitas às lavouras. “Conhecia quase todas as vacas da freguesia da Maia”, realçou. Contudo, essa diversão era conciliada com responsabilidades. “O meu pai tinha um camião de transporte de mercadorias, um táxi, fazíamos muitas terras e era uma obrigação quase diária termos de ajudar até nas lides da casa” recordou.
Jorge Rita sublinha que gostou muito de frequentar a escola primária até à 4.ª classe. “Tive bons professores e muito bons amigos. Ainda hoje nos recordamos uns dos outros”, afirmou. Aos 10 anos teve de ir para Ponta Delgada, para o ensino preparatório, uma mudança significativa na sua vida porque tinha de ficar a dormir longe de casa. “Fiquei em casa de uma pessoa incrível, a senhora Ilda. Fui muito bem recebido nessa casa”, relembra. Porém, nessa altura os pais tiveram de emigrar para os Estados Unidos da América, devido a um problema de saúde do seu pai, o que o obrigou a crescer mais depressa. Partiram acompanhados pelo irmão mais novo e pela irmã mais velha, deixando os restantes filhos em São Miguel. “Acho que essa ausência me tornou uma pessoa muito mais forte”, confessa.
Pouco depois, Jorge Rita interrompeu os estudos para trabalhar na exploração agrícola da família. “Tinha 12 anos e coincidiu com a saída de um empregado nosso”, contou, explicando que “a minha mãe queria que continuasse a estudar e quando regressou dos Estados Unidos, insistiu para que eu retomasse os estudos”.
Jorge Rita recorda, com entusiasmo, “o professor Aurélio que além de não gostar de maçar os alunos com muitas horas de estudo, tinha uma coisa que também adorava, o desporto”. Entretanto, fez o 3.º e o 4.º ano como aluno externo, com explicações, tendo realizado os exames no final de cada ano, juntamente com um grupo de colegas da Maia. De seguida, fez nova pausa nos estudos durante um ano para trabalhar na exploração agrícola da família, regressando depois à escola. Mais tarde, fez o 5.º ano na Ribeira Grande, um ano que recorda com muita nostalgia. Os restantes anos do ensino secundário foram passados em Ponta Delgada, conciliando sempre os estudos com o trabalho agrícola. Pelo meio, o desporto também esteve presente, tendo praticado futebol, andebol, entre outras modalidades, antes de cumprir o serviço militar.
Depois da tropa, iniciou uma carreira de 17 anos na Caixa de Crédito Agrícola. Uma experiência que considera determinante para o seu percurso profissional e humano. “Tenho um orgulho enorme de ter sido funcionário da Caixa de Crédito da Agrícola, porque foram anos muito enriquecedores e tive o privilégio de ser prospetor”, refere, elucidando que visitava regularmente os agricultores e outros clientes, com quem criou relações de proximidade que ainda hoje perduram. Em paralelo, manteve a exploração agrícola da família juntamente com o irmão, Paulo Henrique, seu sócio, a quem cabe a gestão diária da exploração. Após a morte da mãe, ambos passaram a assumir a responsabilidade pelo efetivo. “O meu pai ainda era vivo e fizemos uma sociedade que tem perto de 40 anos”, revela.
O convite para fazer parte da AASM surgiu em 1999, quando aceitou desempenhar funções de vice-presidente. Naquela altura, muitos perguntavam por que motivo não assumia um papel mais preponderante na AASM, na medida em que “conhecia profundamente o setor, dominava a área financeira graças à experiência bancária e mantinha uma ligação permanente à lavoura”. E assim foi. Três anos depois, assumiu a presidência da instituição, cargo que mantém desde agosto de 2002.
Ao longo destes quase 24 anos, identifica como uma das principais mudanças o horário de funcionamento, uma vez que, no seu entender, “não podíamos estar fechados à hora de almoço, porque essa é a hora que os lavradores têm mais disponibilidade para tratar dos seus assuntos e, por isso, passámos a estar abertos todo o dia”. Outra medida foi garantir atendimento sem marcação prévia aos associados, reforçando uma política de proximidade que considera essencial. “Os sócios passaram a estar verdadeiramente no centro da instituição”, salienta. De acordo com Jorge Rita, esta estratégia contribuiu para um crescimento expressivo do número de associados, apesar da diminuição do número de agricultores na ilha.
Durante os seus mandatos, a AASM conheceu também um forte crescimento estrutural e financeiro. Foram construídas novas infraestruturas, como fábricas de rações, armazéns e equipamentos de apoio ao setor. Afirma, com orgulho, que “hoje a Associação é uma organização reconhecida nos Açores, a nível nacional, na Europa e não só. Tenho muito orgulho de a presidir, mas não faço o trabalho sozinho”, enaltecendo o trabalho dos corpos sociais e de todos os que trabalham na Associação.
O trabalho desenvolvido na AASM levou Jorge Rita a assumir responsabilidades em diversas instituições do setor agrícola. É presidente da Federação Agrícola dos Açores, da Assembleia Geral da Confederação dos Agricultores de Portugal, do Centro de Estratégia Regional para a Carne dos Açores e do Conselho de Ilha de São Miguel. Para Jorge Rita, estes cargos resultam da credibilidade conquistada ao longo de todos esses anos de trabalho. Tem, pois, uma “vida completamente cheia de trabalho, dedicação, gosto, muita paixão”. Conforme refere, “todos os dias, venho trabalhar, férias muito poucas, folgas raramente”, mantendo “ao longo de todos esses anos, a paixão por aquilo que faço”.
Ao longo da nossa conversa, Jorge Rita evidencia a sua forma de estar: frontal, reivindicativa e justa. É defensor de um diálogo firme, mas construtivo com os diferentes governos, considerando que a “credibilidade da Associação resulta precisamente dessa capacidade de apresentar propostas tecnicamente sustentadas e financeiramente exequíveis”. “Nunca apresentámos uma reivindicação sem indicar uma solução”, enfatiza.
O percurso de Jorge Rita tem sido reconhecido com várias homenagens e distinções, entre elas a de grau de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial, na classe do Mérito Agrícola, em 2025, pelo então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Uma distinção que recebeu com orgulho, mas que faz questão de partilhar com todos os agricultores: “A minha condecoração é fruto do meu trabalho, mas pertence aos agricultores. Sem eles, nunca teria recebido esta homenagem”.
Na vertente mais pessoal, Jorge Rita afirma que conciliar a vida familiar e o trabalho nem sempre foi fácil, reconhecendo o apoio incondicional da esposa e das filhas, que aceitaram, ao longo dos anos, as muitas horas dedicadas à Associação: “Tenho tido a compreensão das minhas filhas, que são incríveis. A minha mulher também é uma pessoa especial. Só pode ser. Para estar casada comigo, tem de ser uma pessoa especial”, disse, entre risos, acrescentando que a sua mulher o aconselha “a parar e a descansar mais um pouco”.
Questionado se se considera um homem realizado, Jorge Rita responde, sem hesitar, que é uma pessoa feliz, mas não completamente realizada, porque ainda tem um objetivo que gostava de alcançar que passa por “garantir rendimentos dignos para todas as famílias agrícolas da Região”.
“Enquanto não sentir que os agricultores vivem com a dignidade que merecem, continuarei na luta. Os agricultores, para mim, são pessoas especiais”, concluiu.
