Esta quarta-feira, espera-se que os astros se alinhem e mostrem aos Açores um eclipse solar com cerca de 77% de cobertura. O fenómeno não é, por si só, uma raridade. Aliás, para o próximo ano, a 2 de agosto, está previsto outro eclipse solar que promete voltar a fazer a delícia de quem gosta de olhar para o céu.
A raridade está em Bragança, onde será possível assistir a um eclipse solar total em território nacional.
E
o que é, afinal, um eclipse solar total ou um eclipse com 77% de
cobertura? Em Bragança, a Lua vai passar exatamente entre a Terra e o
Sol e, no momento em que há maior cobertura, o disco solar vai ficar
completamente tapado. Nos Açores, a Lua não vai esconder totalmente o
Sol, vai sim sobrepor-se a cerca de 77% do disco. Isto quer dizer que
mais de metade do Sol vai ser escondido pela Lua, o que é suficiente
para que este fenómeno seja perfeitamente percetível a quem estiver
atento e, o mais importante, protegido.
“Quando nós estivermos a
olhar para o Sol, por exemplo, quem estiver em Bragança vai conseguir
ver o disco solar completamente tapado, completamente obscurecido pela
passagem da Lua, porque no caso aqui do eclipse solar, a Lua passa entre
a Terra e o Sol e acaba por cobrir completamente o disco solar no caso
de Bragança. No nosso caso, e devido à nossa posição, o máximo de
cobertura será cerca de 77%”, explica Nuno Pereira, coordenador do
Observatório Astronómico de Santana (OASA).
Mesmo sem tapar na totalidade, é uma boa fatia do Sol que desaparece por detrás da Lua: “É bastante também, não é na totalidade, mas vai ser perfeitamente visível, perfeitamente notório”, acrescenta.
E mesmo na ilha de São Miguel,
as percentagens de cobertura variam ligeiramente consoante o local: “Por
exemplo, nós temos aqui 76,9% na Lagoa, 77,1% em Vila Franca do Campo,
77,1% também na Ribeira Grande e 76,8% em Ponta Delgada. Podemos apontar
para algo a rondar os 77%”, explica Nuno Pereira. Por isso, se a isto se juntar bom tempo, estão reunidas as condições para um acontecimento a não perder.
OASA tem o terreno preparado para observar os astros
O OASA tem duas atividades preparadas para esta quarta-feira: a primeira é dedicada ao eclipse solar; a segunda leva os visitantes a olhar para outro espetáculo, a chuva de perseidas.
A primeira ação está marcada para as 17h30 e prolonga-se até às 19h30. A entrada tem um custo de dois euros para maiores de cinco anos e cada família recebe um par de óculos próprios para poder desfrutar com segurança do eclipse.
De forma geral, estes óculos já estão esgotados, daí a necessidade de dividi-los entre a família. O limite é de 300 participantes e não é necessária inscrição: é só aparecer, a entrada é feita por ordem de chegada.
Quem passar pelo observatório pode usar os telescópios equipados com filtros próprios e adequados à observação solar e usufruir ainda de caixas de cartão, sendo esta uma solução mais improvisada, admite o coordenador.
“Aqui no Observatório improvisámos umas caixas de cartão em que é possível observar o eclipse, porque não estamos diretamente a observar o Sol, mas estamos a observar um ponto de luz, que é a entrada de luz solar nessa caixa feita de papelão, mas que se consegue ver o eclipse não olhando”, explica Nuno Pereira.
Assim, a luz do Sol entra na caixa e forma uma imagem que permite acompanhar a passagem da Lua sem que seja preciso olhar diretamente para o Sol.
“É uma forma mais improvisada, mas dadas as condições até de limitação de óculos, de número de pessoas, nós também quisemos ter essa parte em que construímos essas caixas, para se poder observar o eclipse de uma forma também diferente”, acrescenta.
Depois do eclipse, o Observatório fecha durante algum tempo e volta a abrir as portas às 21h00 até à meia-noite. Desta vez, para ver as estrelas: “Temos a porta do observatório aberta, tem também um custo de dois euros por pessoa, a entrada, e vamos ter telescópios a apontar para o céu. O espaço vai estar adaptado para as pessoas observarem o céu com tranquilidade, para tentarem ver os meteoros, com todo o espaço adequado para isso”, explica Nuno Pereira.
A chuva de perseidas é um fenómeno
que acontece mais vezes. Todos os verões, o OASA prepara uma atividade
para acompanhar esta chuva de meteoros.
Hoje há nuvens?
Para
assistir a um eclipse solar não é preciso ter o céu completamente azul
de um lado ao outro. É suficiente que, no momento certo, haja uma aberta
onde o Sol estiver.
“Durante a tarde, abertas em todas as ilhas.
No entanto, poderão sempre ocorrer alguns aguaceiros, de uma forma
geral, fracos, o que significa que na altura dos aguaceiros o céu poderá
apresentar-se um pouco mais encoberto, mas será uma questão de minutos,
depois volta a haver uma melhoria”, adiantou o Instituto Português do
Mar e da Atmosfera (IPMA) ao Açoriano Oriental.
O IPMA não garante que o eclipse seja visível em todas as localizações do arquipélago, mas diz que poderá haver oportunidades para o observar.
Nuno Pereira
deixa a sugestão para quem não for ao Observatório de “procurar um
espaço aberto, com uma boa observação do céu para observar o Sol e um
espaço que não tenha edifícios à volta, sem ter nada que bloqueie a
observação”.
Fenómeno repete-se em 2027
Os eclipses solares não são propriamente raros, a raridade está em serem totais, sobretudo em Portugal. Nos Açores, a 2 de agosto de 2027, será possível voltar a observar um eclipse solar com uma cobertura semelhante à desta quarta-feira, a rondar os 77%. Já para assistir a um eclipse solar total em Portugal será preciso esperar até 2144.
Os Açores já estiveram bem perto de um eclipse solar total: em 1984, a cobertura chegou aos 98%. Nuno Pereira ainda era criança e recorda a expectativa de que o dia virasse noite. Mas não aconteceu, pois um eclipse solar não traz a noite, só deixa o dia mais escuro. Além disso, lembra-se de haver nuvens, o que dificulta sempre a observação.
Atividades no OASA estão preparadas, reservas de energia da EDA estão seguras, para o caso de o eclipse solar ser mais intenso, e é importante não esquecer que não há receitas caseiras seguras para olhar para o sol diretamente.
Posto isto, o próximo eclipse solar total, em Portugal, será em 2144, mas esse já não será para nós, certamente.
