Sinalização de vítimas portuguesas de tráfico ainda é residual, diz especialista


 

Lusa/Ao online   Nacional   23 de Dez de 2018, 18:25

A sinalização de vítimas portuguesas de tráfico de seres humanos ainda é residual, quer na região Centro, quer a nível nacional, afirma o coordenador do Centro de Acolhimento e Proteção para homens, que acredita que há muitos casos por descobrir.

O coordenador do Centro de Acolhimento e Proteção (CAP) para vítimas de tráfico do sexo masculino, Marco Carvalho, acredita que só se está "a olhar para a ponta do icebergue" quando se fala de sinalização, sendo que, no caso das vítimas portuguesas, "ainda não se chegou a vislumbrar o icebergue sequer".

"Os números ainda são residuais, o que é sinalizado é residual. Acredito que haja muitos casos para serem descobertos, tanto na região Centro como a nível nacional", disse à agência Lusa o coordenador do único CAP destinado para homens, localizado em Coimbra e gerido pela Saúde em Português. A este espaço somam-se, no país, centros para mulheres e crianças.

Quase metade (42%) das 62 vítimas acolhidas no centro de Coimbra desde 2013 são portuguesas, apesar de, na sociedade, este problema estar muitas vezes associado a imigrantes que caem em redes de tráfico de seres humanos para exploração laboral ou sexual, referiu.

Quase metade das vítimas vêm da região do Alentejo e Marco Carvalho acredita que é necessário "dar uma atenção especial para o interior, onde há uma predominância da exploração agrícola".

Para o coordenador, "quanto mais se fala deste problema, mais as pessoas estão despertas" para o fenómeno, mas ainda há um caminho a percorrer na sensibilização da população.

"Muitas vezes, nas aldeias, há um homem que trabalha para alguém, que lhe dá comida e bebida, mas não paga nada. Às vezes, é um problema cultural, porque até os exploradores dizem que estão a fazer um favor, apesar de a vítima ser explorada e agredida", explicou.

Segundo o responsável pelo CAP, as autoridades estão muito mais sensibilizadas hoje para estes casos e os militares da GNR são "os pontas de lança" no combate a este problema.

"Às vezes, são chamados para uma situação de roubo de ovelhas, por exemplo, e deparam-se com uma situação de tráfico porque tiveram formação e estão mais alerta para os sinais", afirmou.

A coordenadora da equipa multidisciplinar especializada (EME) da região Centro, Vera Carnapete, também considera que apenas se está a olhar para a ponta do icebergue.

"Quando começamos a falar com técnicos numa ação sobre tráfico de seres humanos é normal dizerem: ‘Então vamos falar dos outros países, porque não há tráfico em Portugal'", relatou, referindo que "é uma realidade muito escondida".

De acordo com Vera Carnapete, há também ainda "muito preconceito" em relação a vítimas de exploração sexual.

"Há aquela ideia de que uma mulher que está à beira da estrada, se quisesse, fugia ou pedia ajuda a um cliente", explicou.

Sónia Araújo, também técnica da EME do Centro, considera que a abordagem das autoridades está a mudar, mas ainda se ouvem "comentários de onde não se podiam ouvir esses comentários".

"As vítimas chegam muito assustadas e podem não ser simpáticas, se calhar até dizem um palavrão, olham para o chão e não mostram sinais de cooperação. Nesse momento, os técnicos têm de manter uma postura profissional", frisou.

Quem queira denunciar uma situação de tráfico de seres humanos pode ligar para a EME do Centro (918654104), Algarve (918882042), Alentejo (918654106), Lisboa (913858556) ou Norte (918654101), com serviço de atendimento 24 horas por dia.


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